quarta-feira, agosto 02, 2017

FRAGMENTOS XLVI


Deixara pois de haver razão ou motivo aparente para as calças do capitão Mascarenhas ficarem desguarnecidas e, eventualmente, ser apanhado com as ditas calças na mão e, oficial de Cavalaria, ficar assim exposto à indignidade paisana de um qualquer desleixo. De facto, fazendo fé na argúcia do Alferes, sempre duvidosa, é verdade, que ser miliciano é congénita impossibilidade de percepção das subtilezas militares, mas acreditando que a unanimidade formal recolhida sobre os desígnios do General Comandante em Chefe na sua visita relâmpago à Tabanca, pese embora a circunstância de o Alferes não ter ainda aberto o livro de suas razões sobre a adventícia questão “onde foi desencantar ideia tão óbvia”, questão aliás que perdera fervura face ao alcance de descoberta da um novo “ovo de Colombo”, concluiu o concílio ser doutrina assente, face às razões longamente elaboradas, pois em qualquer questão, quanto mais óbvia a resposta mais elaboradas teses e profundas análises, concluiu pois o concílio de oficiais da Companhia de Cavalaria, após o bridge e o conhaque, que a ideia do General só poderia ser o incitamento à destruição da base da guerrilha, no outro lado da fronteira, “passando a bola” da iniciativa para o Comando da Companhia de Cavalaria.

E não poderá dizer-se que a maquinação do General Comandante em Chefe e dos seus conselheiros mais próximos, a ser confirmada pelos factos, pois como se sabe, os factos giram de narrativa em narrativa, quer dizer, cada qual escolhe os factos que melhor lhe servem, poderá pois dizer-se, no tempo desta prosa a marcar passo, que a maquinação do General Comandante em Chefe fora mal engendrada, não senhor, pois que os generais para isto mesmo se fizeram, para engendrarem soluções de último recurso, ou seja, desfazerem os “nós górdios” desta vida, sejam eles tecidos por capricho dos deuses ou maldade dos homens e, se é certo, que o general Alexandre, o Grande, se fez grande e dominou a Ásia Menor pelo gesto ousado de, na impossibilidade de lhe encontrar as pontas, desfazer à espadeirada o nó górdio da época e assim fazer saltar a “gerigonça” (da História), presa ao fatalismo das profecias e, bem se sabendo, por outro lado, que a solução eficaz de velhos problemas, exige tantas vezes a subversão de regras e dos métodos antigos, deverá reconhecer-se ao General Comandante em Chefe do Comando Territorial da Guiné exemplar engenho na urdidura do destino da guerra, sem a bravura, é certo, do General Alexandre, o Grande mas, em qualquer caso, brilhante na manha, digno de fazer inveja ao próprio Manholas.

Como os factos até agora vistos e aqueles outros que por aí hão-de vir no fio escrita, pese embora o fastio de Maria Adelaide, heroína a contra gosto desta prosaica narrativa, ela cujos olhos apenas vêem poesia e que tem demonstrado apuradíssimo tacto na busca do “melhor poema”, comprovam pois tais factos, conhecidos e a conhecer, que a base militar da guerrilha, instalada do outro lado da fronteira, a escassos quilómetros da Tabanca não poderia deixar de constituir espinho cravado na garganta dos Altos Comandos Militares, pois como suportar que um bando de “turras” maltrapilhos e apátridas, ao serviço de Moscovo e da expansão do comunismo internacional, “pusessem em sentido”, salvo seja, e controlassem os passos de uma unidade militar do Exército Português, tendo o Santo Condestável seu patrono, garante da protecção divina na defesa da Nação Una e Indizível do Minho a Timor e dos valores da Civilização Ocidental?

Em abono da verdade, deve esclarecer-se, que a Companhia de Cavalaria, desgastada por ano e meio de intervenção nas zonas mais activas da guerrilha, como Companhia “à ordem” do Comando-Chefe da Província e colocada agora na Tabanca para apascentar os restantes meses da comissão de serviço militar, em patrulhas de mera rotina, numa zona territorial de dominância Fula, onde até então não havia registo de guerra, aguentava estoicamente as morteiradas e ataques vindos da base militar dos guerrilheiros, no outro lado da fronteira, que, sabia-se pelas informações militares, que os boatos em circulação empolavam, pois bem se sabe que informação militar tem muitas vezes o mesmíssimo recato de uma honorabilíssima senhora que todo o mundo sabe descair-lhe o pé e gosto para “pistoleira”, mas que toda a gente finge desconhecer para assim poder manter-se a honra da dita senhora, sabia pois toda a Companhia de Cavalaria e, por maioria de razão, toda a Tabanca que a base da guerrilha fora reforçada em homens e material, mas ninguém falava no assunto para assim salvar a “ordem das aparências”. É certo que, por enquanto a guerrilha ainda não atravessara a fronteira, mas eram constantes e inesperadas as flagelações e os bombardeamentos com armas pesadas, criando permanente desgaste psicológico dos militares e das populações, de tal forma que, gradualmente, quase sem dar conta, em poucos dias, a Tabanca ficara praticamente deserta, apenas povoada pelos elementos da Milícia indígena e seus familiares, sustentados e pagos pelas autoridades coloniais. No entanto, o estradão, em terra batida, vindo do interior leste da Província, que outrora fora o principal eixo de penetração comercial, através do Senegal, rumo à Gâmbia e ao Mali, encontrava-se, do lado de cá da fronteira, por enquanto, sob o controle das tropas do Exército Português. Assim, a situação da Companhia de Cavalaria, embora desgastante, em termos estritamente militares, não era particularmente desesperada, pois, enquanto pudesse ser municiada por terra resistiria aos ataques da guerrilha sem dificuldades de maior. E, em hipotético caso, de ataque massivo da guerrilha que a Companhia de Cavalaria não pudesse suportar sempre estaria aberta uma linha de recuo e apoio terrestre. O busílis da questão, ou seja o “nó górdio” que apertava a garganta do General Comandante em Chefe e embaraçava as calças do Capitão Mascarenhas, que não gostava de ser apanhado com as ditas na mão, era a singela circunstância de a Companhia de Cavalaria não se encontrar propriamente cercada pela guerrilha, mas bloqueada pelos “ventos da História” e pela peculiar localização em cima da fronteira.

Quem em seu juízo, fora os casos de cego fanatismo nacionalista ou furor de brio militar, em verdade nunca de excluir, ousaria dar ordem de fogo eficaz de armas pesadas em direcção à fronteira, numa clara violação da soberania de um Estado Independente, reconhecido pela comunidade internacional e com posições militantes contra o colonialismo português no quadro da ONU e na imprensa internacional? 

Quem iria colocar a cabeça no cepo? Não por certo o Capitão Mascarenhas, cada vez desiludido com “os filhos de puta, instalados no Quartel-general que se estão a foder para quem arrisca o pêlo e apenas pensam nas respectivas carreiras!” e, em profundo processo de metamorfose de personalidade, designadamente, o esboroar de certezas em que fora educado e, especialmente, o ruir do ideal militar que tinha as Forças Armadas como esteio de virtudes cívicas e escola de formação de elites. Manifestamente não se vislumbrava vontade, nem força anímica, no capitão Mascarenhas para desatar o apertado nó.

Esta era, portanto, a convicção do Alferes, fundada no conhecimento dos homens e das coisas e da circunstância delas, de que o Capitão Mascarenhas, comandante da Companhia de Cavalaria jamais mexeria uma palha que fosse do outro lado da fronteira, muito menos ordenar um comprometedor bombardeamento, ainda que para aliviar a pressão da guerrilha sobre os homens e o território colocados, em termos militares, sob seu comando e protecção. E se não o faria o Capitão Mascarenhas por estritas razões militares de auto defesa, muito menos se arriscaria para o outro lado da fronteira em perseguição de um desertor, nem que fosse Alferes e seu Adjunto, em razão de acaso de graduação militar.

Assim concluía o Alferes, sem que para tal fosse intimado, num tempo outro, ainda na flor dos dias, quando, balançando-se entre o voluntarismo romântico da deserção e a palavra venerada do “senhor Gomes”, o velho marinheiro, desterrado e revolucionário,  “meteu na ordem” as suas verduras revolucionárias e lhe esfriou as veleidades de deserção e a empolgada ambição de se colocar no lugar certo da História, ao serviço da guerrilha.

Manuel Veiga

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