domingo, julho 30, 2017

CELEBREMOS, LYDIA


Sob a copa dos salgueiros abrem-se as águas
E nelas mergulhamos, Lydia
Sem dor ou pena.

Somos barco e os remos. E da fluida tarde
Colhemos o raio de sol e o canto das cascatas
Em melopeia. Ébrios os sentidos 
E ávidos os dedos.

Todos os afluentes nos chegam cálidos!

Celebremos, Lydia!
E cantemos a urdidura dos mostos.

Gloriosas são as espumas. E a vertigem das arribas
E o lago verde de teus olhos – águas fundas.
E esta luz tardia a debruar os corpos
E o fervor das bocas
E a polpa
Dos murmúrios.

Manuel Veiga
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Lydia é uma criação literária de Ricardo dos Reis 




quarta-feira, julho 26, 2017

REBELDIA DOS CARDOS


Transbordantes linhas que se afeiçoam
Na planura. E desenham o perfil das colinas
A derramarem-se no sol. Horizonte a arder
E o doirado quente da lonjura
A finar-se no corpo altivo
Da paisagem.

Ermitério e viagem. E eco de passos-dança
Movimento rasante a bordejar o voo das aves
E os longínquos sons
Ainda acesos.

E o borbulhar por dentro esta emoção
Alada: sou este terreiro.
E este feno.
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Sou esta ceifa
E esta vindima engalanada.

E sou este culto.
E este mergulho inesperado.
Sou este mosto. Sou este linho.
E sou a cúpula das igrejas.

Sou poeira rolante: poalha ardente
De meus passos.

E sou a rebeldia
Dos cardos.

Manuel Veiga

segunda-feira, julho 24, 2017

FRAGMENTOS XLV

(...) para ele Alferes, Adjunto do Comandante de Companhia, por acaso de graduação militar, daí em diante, não haveria mais não dúvidas, nem angústias – o General, Comandante em Chefe da Guarnição Militar da Guiné, vinha à Tabanca para de viva voz instigar a Companhia de Cavalaria a passar a fronteira e atacar a guerrilha na sua base, na Guiné Conackri, a escassos três quilómetros da linha fronteiriça.  

FRAGMENTOS XLV

Sei, Maria Adelaide, quanto te é penoso suportar esta descosida escrita que apenas a tua curiosidade aguenta. Queima-te nos lábios a pergunta que não irás formular, pois ambos sabemos não ser necessário, tão certos estamos um do outro, mas em qualquer caso a urgência da pergunta, isto é, a curiosidade em saberes como “descalcei a bota”, salvo seja, com a visita relâmpago do General à Tabanca te obriga à maçada desta prosa, circular e arrebicada de sentidos, tu minha querida Maria Adelaide, para quem, em tua verve analítico-literária, apenas a poesia (ah, os Poetas e seu canto!) merece a dignidade de verdadeira literatura, pois prosa todos a fazemos, muitos sem o saberem, é certo, tal como “monsieur Jourdan”, quando pede os chinelos, ou aqueles que não têm o privilégio de uma Nicole para lhe chegar os chinelos, mesmo assim fazem prosa, (sem o saberem), nem que seja quando da declaração de impostos, a que todos somos obrigados.

Compreendo, por isso, muito bem essa tua incontida aversão por esta prosa em que te digo, pois tu mereces ser cantada em verso, não sei se Beatriz ou Laura, assim Petrarca eu fora, em vez de este “prosador” a arrastar os pés, já que, no mundo assaz selecto da literatura, teus olhos apenas “vêem poesia” como, em tempo outro, no intervalo de outras refregas que para aqui não são chamadas, me fizeste saber, num assomo de vulgaridade chique, que “o melhor poema eu o trazia pendurado entre as pernas”. E assim o dizias, solta, numa lasciva gargalhada, soletrando, silaba a sílaba, as estrofes do celebrado e ufano “poema”. Que viva, então a Poesia, pois estás cheia de razão, Maria Adelaide – nada, de facto, que se pareça em fulgor a uma metáfora! E para aplacar tuas comichões, as tuas e as de outros, ou de outras, que em ti se coçam, garanto que depois desta teima, apenas poesia! Meus olhos não irão ver mais nada, que não sejam metáforas, prometo! Quem sabe se não serei graduado “Mestre em Metáforas”, pela Universidade de Cacilhas, está bom de ver! Mas até lá, minha querida Maria Adelaide, não posso evitar-te a contrariedade – escreverei esta “prosa enrolada”, bem sabendo eu, conscientemente, que faço Literatura – e isso me basta!

Atalho-te. E calo teu protesto num beijo, sabendo, tu e eu, que nunca nossas palavras, falaram mais alto que nossa cumplicidade e que as tempestades, que artificialmente desencadeamos, mais não são que pretexto um pouco perverso, reconheça-se, para espraiada e bonançosa entrega que tão fundo nos une.

Voltemos, pois, à Tabanca, Maria Adelaide. Cada um de nós com suas razões – tu, Maria Adelaide, por curiosidade, eu por que ansioso para “descalçar esta bota”.

O capitão Mascarenhas, andava mais macio nos seus rompantes militaristas. A acidez das palavras e o álcool a que moderadamente se entregava mais não eram que sinais exteriores de uma mudança de carácter, fomentada, bem vistas as coisas, mais que a dura experiência de combate e os horrores da guerra, que nisso o capitão não tinha dúvidas, a guerra não passava de um jogo de vida ou morte e, enquanto preso a esse jogo, mais valia matar que morrer e se houvesse que cometer excessos, havia que assumi-los com coragem e sem hesitações, pois que a tibieza de comando era o primeiro passo para o desastre, de forma que, na referida metamorfose da personalidade, pesava no capitão, sobretudo, o esboroar de certezas em que fora educado e, especialmente, o ruir do ideal militar em que mergulhara e tinha as Forças Armadas e, em particular, o Exército e, dentro dele, a Arma de Cavalaria, como esteio de virtudes cívicas e escola de formação de elites.

Na realidade, durante o ano e meio, em que a Companhia de Cavalaria, antes de aboletar na Tabanca, estivera às ordens do General Comandante em Chefe, como força de intervenção, por todo o teatro de guerra, foram frequentes os conflitos com os oficiais do Estado-maior que, quando as operações militares corriam mal, era certo e sabido nunca eles assumirem as responsabilidades pelo mau planeamento das operações, talhadas à medida dos seus relatórios auto elogiosos e endossavam para os militares no terreno todo o ónus dos desaires - “uns filhos da puta que se estão a foder para a guerra e para quem arrisca o pêlo - apenas pensam nas respectivas carreiras!”- clamava, o Capitão Mascarenhas, para quem o queria ouvir, pelos corredores do Estado-maior, sempre que, terminada uma operação militar era convocado para avaliação dos resultados e a elaboração dos respectivos relatórios.

Andava, pois, o capitão Mascarenhas mais macio. E os dias na Tabanca, isolados naquele fim do mundo, abriram nele, por outro lado, um certo instinto de camaradagem gregária, que gradualmente se foi sobrepondo aos preconceitos e o levou a deslassar algumas rígidas regras para encontrar, na convivência descontraída com os jovens oficiais do seu comando, algum lenitivo para a sua gradual perda de ilusões, sem contudo perder a “panache” de oficial e cavaleiro.

Era pois este o clima na messe dos oficiais, quando o Alferes, após o bridge e o conhaque, foi convocado pelo capitão Mascarenhas para se apresentar na sala de operações e gabinete de Comandante da Companhia de Cavalaria, espaço que antes fora leito e “boudoir” de D. Rosalinda e campo de outros lances em que a anafada senhora era expedita, em vista o jovem oficial, Adjunto do Comandante de Companhia, por acaso de graduação militar, tomar conhecimento directo da informação restrita que anunciava a visita relâmpago do General Comandante em Chefe e intimado pelo capitão que não gosta de ser apanhado com as calças nas mãos, a “pensar nisso” perante a angustiante pergunta “o que viria o general cá fazer?”.

Quando na véspera da chegada do General, depois do brigde e do conhaque, o capitão Mascarenhas “democratizou” a informação restrita, quer dizer, derrogando regras de segurança, que a si próprio se impusera, abriu ao conhecimento ao corpo de oficiais da Companhia a informação sobre a visita relâmpago do general, que apenas era suposto ser conhecida do “cabo da cifra”, por dever de oficio, mensageiro cego, surdo e mudo de todas as mensagens cifradas, pelo próprio capitão e pelo Alferes, intimado a encontrar resposta para a obsidiante questão que viria o general “cá fazer”, já que, bem se sabe, o capitão não gosta de “ser apanhado de calças na mão” pairou, por momentos, na sala, um silêncio denso, cortado pelo impulsivo desabafo do Valentim, “vamos ter merda!” E o capitão, a carregar o sobrolho, azedo, “merda já temos nós todos os dias e não precisamos do General, mas se não sabe o que ele cá vem fazer, mais valia estar calado!”.

Era assim o Valentim, explosivo à primeira provocação, coração ao pé da boca, generosidade sem limites e osso duro de roer para quem não lhe caísse em graça, mantinha, vá lá saber-se por que razão ou teima, uma tensão permanente com o capitão Mascarenhas, que vinha desde os primeiros tempos da recruta e, desde esses tempos outros, tão próximos e tão distantes, com 10 contos na algibeira e todas as espeluncas e putas de Lisboa para frequentar, unha com carne, numa amizade impoluta e breve com o “herói” a contragosto desta narrativa tosca, - como tu, Maria Adelaide, gostaria de nos ver, brilhantes de solarina e panache, subindo a Calçada da Ajuda, a cavalgar impetuosos alazões, rumo a Monsanto, em exercícios de equitação militar” – razão e, mais que razão, urgência, para o Alferes cortar cerce o temperamento sanguíneo do amigo Valentim e, oferecendo-se às balas, que é como quem diz, ao humor azedo do capitão, declarar, solene “o que o alferes Valentim quis dizer, meu capitão, é que a visita do nosso General se destina a incitar-nos a atacar a base da guerrilha, no outro lado da fronteira, numa operação de “nossa iniciativa” que naturalmente ficará secreta”.

Fiat lux!...” Os rostos dos jovens oficiais milicianos abriram-se em luminosa revelação. O Valentim interrogava o amigo com olhar inquiridor. E o capitão Mascarenhas, depois de uns momentos de reflexão e silêncio, deixou que a evidência falasse e, qual Colombo ante a revelação do ovo, abanou a cabeça, entre a incredulidade e o sorriso agora distendido “pois é bem capaz de ter razão, nosso Alferes! Mas onde foi você a desencantar essa ideia tão óbvia?” …
…………………………………………………………………

Diz-me, tu, Maria Adelaide. Tu que tudo sabes e que tudo buscas saber do herói desta narrativa em que te digo e, dizendo-te, se revela o autor (se autor houvesse) corpo e sangue, deste fingimento de escrita, diz-me, tu, Maria Adelaide onde “desencantar ideia tão óbvia”, sendo que os caminhos da vida são o que deles fazemos, deserção ou percurso de glória, coluna erguida ou submissão, mas sempre a permanente ascensão e queda de que são feitos os trilhos da liberdade.

Manuel Veiga


sexta-feira, julho 21, 2017

PSICOGRAFIA


Do curso dos barcos busco a quilha
E o sulco das águas. Que nada me seduz na amurada.
Ainda que festiva.

E do fio dos dias sorvo, não a espuma,
Mas o âmago – ainda que amargo!
E destilo não a lágrima, mas o grito.

E sei bem de meus cansaços.
E de meus passos. E não temo meus (des)caminhos.
Ainda que árduos.

Não me peçam que siga por atalhos.
Sigo minhas margens e os meus rios. Solidário
E inteiro me dou - naquilo em que acredito.  

Ouso o que tenho que ousar. E sem enfado me rendo
Se for o caso. Mas meu olhar não se dobra
Aos olhares que em mim se fitam.

Não que seja temerário - que de meus medos
Não falo. Mas porque assim me atiçam
As vozes que em mim habitam.

Manuel Veiga


quinta-feira, julho 20, 2017

FRAGMENTOS XLIV


O tempo para organizar a vista do General era escasso. Certo porém que a visita se resumiria a escassas duas horas, mas mesmo assim a requer medidas excepcionais de segurança discreta que iriam alterar rotinas e escalas de serviço e então viriam inquiridoras as perguntas dos camaradas buscando as causas, num jogo perverso de gato e rato, bem se sabendo, ou se não sabido de certeza certa, era sem dúvida geralmente admitido pelos militares da Companhia de Cavalaria que o Alferes nunca se ajeitou muito bem ao colete-de-forças que era ser Adjunto do Comandante da Companhia e, em consequência, ter de sonegar “informações” aos seus camaradas, como agora com a visita do General, mantida como “informação restrita” pelas normas militares e determinação explícita do Capitão Mascarenhas. Certo, porém, de que tais cuidados e segredos, em tese considerados, não passavam a maioria das vezes de segredos de polichinelo, o que permitia dizer-se (e surpreendeu-se o Alferes com a ironia que lhe discorria dos lábios) que a informação militar tinha muitas vezes o mesmíssimo recato de uma honorabilíssima senhora que todo o mundo sabe descair-lhe o pé e o cio para “pistoleira”, mas que toda a gente finge desconhecer tais inclinações e fogosos predicados para assim poder manter-se a “ordem das aparências” e a honra da dita senhora, bem se sabendo, porém, que manter as aparências, constitui porventura a fórmula mais eficaz de preservar o status quo, onde, é sabido, geralmente, campeiam a mediocridade e os aproveitadores. Ámen! 

Em qualquer caso, neste tempo da narrativa, o dever de guardar sigilo impendia sobre todos os militares que, fosse qual fosse seu posto, todos estavam obrigados, sendo porém certo que, em qualquer microcosmo concentracionário, existe sempre uma fissura, um risco, uma ousadia ou uma subversão, mínima que seja, que acaba tresmalhar, fender ou inocular o gérmen, não diremos capaz de desagregar a “ordem militar”, mas pelo menos, causar perturbação dos seus ritos e ritmos.

Em diálogo com seus botões, assim considerava o Alferes, consciente da necessidade de ser muito cuidadoso e atento na realização das diligências e providências em vista a “receber o nosso General o melhor que soubermos e pudermos”, já que, na crista dos acontecimentos, a circunstância de ser Adjunto do Comandante da Companhia de Cavalaria se realizaria nesta “démarche” em toda a sua produtiva e linear expressão e utilidade, ou seja, como biombo das responsabilidades e passa culpas do Comandante da Companhia, o garbosíssimo Capitão Mascarenhas, pois bem se sabe que “quando o mar bate na rocha quem se fode é o mexilhão”, ou seja, qualquer estrutura hierárquica de poder constitui uma pirâmide que inverte o sentido de responsabilidades, pois que aquele que está por baixo tem poder cada vez mais difuso e lasso, na exacta medida em que desce na escala, mas em sentido inverso tem que aguentar todo peso que lhe cai em cima, vindo dos escalões superiores, de tal forma que o Alferes em seu desabafo íntimo se surpreendeu a considerar, um pouco cinicamente, é certo, que a utilidade daqueles que estão por baixo será apenas para servirem de mexilhão aos que estão por cima, sendo que muitos o fazem por gosto, felizes na sua ilusão de poder, com que os de cima lhe acenam e uns quantos, a minoria, bem se sabe, se rebelam e atiram a carga ao mar (cloaca que tudo devora), nem que para tanto tenham que pagar com o seu próprio costado o “desenfianço” e a ousadia.

Que o diga, salvo seja, o senhor Gomes, marinheiro e desterrado, que nos idos anos de 1936, ousou rebelar-se contra as hierarquias do poder fascista por acreditar no sonho de uma Pátria livre e justa, em que todos os homens seriam iguais, quer dizer, sem outras hierarquias que não fossem as estabelecidas pelo mérito de cada um e por ela se bateu e perdeu e, por isso, desterrado para aquele “cú do Mundo”, fez da Tabanca a sua Pátria, que outra não reconhecia, madrasta de seu Povo e fazedora de guerras contra os povos das colónias e que ele, desterrado e colono, teimara em ficar, que sua Pátria era aquela e assim o dissera à insistência do Alferes e à ordem militar que determinara “todos os civis deveriam ser imediatamente evacuados”.

E, em tempo outro, desta escrita a fazer que anda, mas não anda, Maria Adelaide dixit, “qual cavalo amestrado em picadeiro, fazendo cortesias vazias de aplausos”, o odor acre da pólvora, dantesca coluna de fumo e chamas a erguerem-se e, por entre elas, o Alferes, obedecendo sabe-se lá a que ordem ou instinto, irrompeu do interior do espectáculo de fogo e labaredas, com o corpo do senhor Gomes, marinheiro revolucionário e desterrado, archote aceso agora nos braços do jovem oficial miliciano, por acaso de graduação militar, Adjunto do Comandante da Companhia de Cavalaria e, nesse tempo descrito, arder ele em dúvidas existenciais sobre o seu lugar certo naquela guerra e o velho caturra a negar-se a partir, conforme a ordem militar de todos os civis deverem ser evacuados e que, na Tabanca, teimou em ficar, que ”sua Pátria era aquela, que outra não tinha”, a cortar-lhe cerce as veleidades de deserção, em conselho nunca pedido, “e tu, meu rapaz, deixa essa fantasia de desertares – e não negues que para mim basta-me a febre de teus olhos – a Revolução aqui em África é deles; tu se amas a Revolução terás tua oportunidade em Portugal”. Assim o dissera o senhor Gomes, fixando com o penetrante olhar azul-marinho, o atordoado Alferes momentos antes, contados por escassas horas, quando a Tabanca fora alvo das morteiradas e a vivenda do velho caturra, “que se Pátria era aquela”, explodiu em féerie de chamas e fumo e o Alferes, agora, protegido das chamas e acarinhado pelos seus camaradas de armas, se deixou tombar de joelhos com os restos mortais do “senhor Gomes” carbonizados nos braços.

Discorria assim o Alferes, em seu discurso íntimo, agora em primeiro plano do seu pensamento as diligências e tarefas em vista a que o General Comandante em Chefe da Guarnição Militar da Guiné fosse recebido o “melhor que soubermos e pudermos” naquele chão fula, a dois passos da fronteira, espaço de quadrícula, sujeito à jurisdição militar da Companhia de Cavalaria, até então apenas pastoreio de remansosas patrulhas, mas que em tal chão fula agora se haviam soltado, em furor, todos os diabos da guerra, com tal ímpeto que destaparam a debilidade das previsões do Estado-maior quanto ao avanço da guerrilha naquela zona e desencadearam atenção do próprio General Comandante em Chefe. “Que veria cá fazer?” angustiava-se o Capitão Mascarenhas, que não gostava de “ser apanhado com as calças na mão” e, por isso, intimara o Alferes, seu Oficial Adjunto, por capricho da vida e acaso de graduação militar, a “pensar nisso”, isto é, procurar discernir, a razão escondida ou motivação verosímil, que por entre o crivo apertado de possibilidades, fosse a mais conforme com aquela insólita visita relâmpago do General, apenas acompanhado pelo seu Ajudante de Campo, passando por cima do escalão de comando do Batalhão de Cavalaria, sendo certo e sabido e óbvio para o mais básico soldado, que o súbito agravamento da situação militar seria a causa imediata de tão estranha visita.

“Que viria, pois, cá fazer, o General?” - interrogava-se também o Alferes, não pela circunstância de não gostar de ser “apanhado de calças na mão” , mas pela singela razão de permanecer vivo e se interrogar e ser de sua natureza procurar sempre desfiar o entendimento de si próprio e dos outros e percorrer os liames que determinam a acção dos homens, ele Alferes, por um acaso de graduação militar, Adjunto do Comandante da Companhia de Cavalaria, a debater-se, no agora desta “escrita circular”, numa espécie de limbo, nem cá, nem lá, balançando-se entre o voluntarismo romântico da deserção e a palavra venerada do “senhor Gomes”, marinheiro revolucionário desterrado, com seu penetrante olhar azul-marinho a traspassar-lhe a alma e a sua voz serena e honrada a “meter em sentido” as verduras revolucionárias do jovem oficial miliciano, estudante de Direito em Coimbra, por pedalada larga de seus pais, e a esfriar-lhe todas as veleidades de deserção e a empolgada ambição de se colocar no lugar certo da História, ao serviço da guerrilha: “a Revolução aqui em África é deles; tu se amas a Revolução terás tua oportunidade em Portugal”.

E, assim, tal qual uma partitura de falas cruzadas, o Alferes passava, sem disso se dar conta, de uns timbres para os outros, quer dizer, cada uma das vozes interiores, que o habitavam, vinha à superfície, conforme a profundidade e intensidade da incisão na respectiva corrente de consciência, sendo que, neste agora da escrita, a insistente pergunta “que virá o General cá fazer?” se sobrepunha a todos os outros registos e emergia à tona desse magma de pensamento e sensibilidade, em que o Alferes se agitava, depois da reunião com o Capitão Mascarenhas.

E, então, subitamente, vá la saber-se de que alfurja do pensamento ou que predeterminação das células nervosas, no espírito do jovem oficial, abre-se, clara e transparente, como se de uma “iluminação” se tratasse, a resposta à obsidiante pergunta “quem vem o General cá fazer?” Por uns segundos o Alferes se deteve, a calar a emoção da descoberta e a rever, agora toda a sua energia mental concentrada, os pressupostos lógicos do “ovo de Colombo” que lhe tombara nos passos. E nas angústias do Capitão Mascarenhas que “que não gostava de ser apanhado com as calças na mão”! 

Mas ainda não lhe diria! Deixaria para mais tarde a partilha de seu prazer da descoberta. Mas, para ele Alferes, Adjunto do Comandante de Companhia por acaso de graduação militar, não havia mais dúvidas, nem angústias – o General, Comandante em Chefe da Guarnição Militar da Guiné, vinha à Tabanca para, de viva voz, instigar a Companhia de Cavalaria a invadir um País estrangeiro e atacar a guerrilha na sua base, localizada do outro lado da fronteira, a escassos três quilómetros da Tabanca.  


Manuel Veiga 



sexta-feira, julho 14, 2017

INTELECTUAIS, UTOPIA E COMUNISMO - Notas de Leitura


INTELECTUAIS, UTOPIA E COMUNISMO
A Inscrição do Marxismo na Cultura Portuguesa
Notas de Leitura

Em edição conjunta da Fundação Calouste Gulbenkian, da Fundação para a Ciência e a Tecnologia e o Ministério da Ciência foi publicada, em Dezembro de 2010, a obra em referência, de autoria de Luís Andrade, professor no Departamento de Filosofia da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa. No dizer do próprio, a obra reproduz, com pequenas alterações, a dissertação para Doutoramento do autor.

Julgo, no entanto, que o interesse do estudo excede o quadro estritamente académico, pois que, em linguagem clara e acessível, apresenta uma visão aprofundada do processo da “inscrição do marxismo” como “pensamento e demanda” revolucionária, no nosso País, nas opressivas condições do fascismo dos anos trinta e seguintes do século passado.

Como enquadramento geral, podemos assim acompanhar, desde as primeiras páginas, a metamorfose da “ideia revolucionária”, desde os caboucos da Utopia à génese de uma “esperança política revolucionária” expurgada de quaisquer elementos de matriz religiosa que, páginas adiante, se irá exprimir como força material, através da condensação do ideário marxista, impulsionador de acção revolucionária e de combate social e político.

Como é assinalado, este percurso histórico foi empolgante no decurso do século XX, com a criação do Estado Soviético e sucessivas vagas de movimentos revolucionários, inflamados pela expectativa de franquear, após combate abnegado e altruísta, “o prometido pórtico da era áurea da justiça e do bem-estar”.

Ilustrando esta “demanda histórica” em busca “das auroras do Futuro” o autor assinala a circunstância de, na Praça Vermelha, em obelisco erguido após a Revolução do Outubro, se encontravam inscritos os nomes de Thomas More e de Gracchus Babeuf, numa homenagem bolchevista aos percursores do socialismo.    

A demolição do Muro de Berlim e desmoronamento do chamado campo socialista encerrou, ao menos provisoriamente, uma época da história política mundial e o ciclo contemporâneo de “concretizações efectivas” de projectos revolucionários.

No plano nacional, o autor considera o jornal “O Diabo”, publicado em Lisboa, a revista “Sol Nascente”, publicado inicialmente no Porto e depois em Coimbra e o movimento literário e artístico “Neo-realismo”, como estruturantes, não apenas na divulgação do ideário marxista, nas difíceis condições sociais e políticas do País, mas sobretudo do propósito “de unir a vida e o mundo com a sua representação cultural numa identificação recíproca e plena”. Esta plena adesão compartilhada e consciente que enformava directores, redactores das publicações referidas (ou as personalidades do neo-realismo), constituía cimento e esteio fundamentais em vista o objectivo revolucionário e à sua missão de comunistas.

Neste contexto, o autor realça, por exemplo, que apesar das condições adversas, de censura prévia e de perseguição aos comunistas, a revista “Sol Nascente” expos as grandes teses do marxismo-leninismo e procedeu à “explanação metódica e congruente dos fundamentos, imagens, referências da teoria, símbolos e rituais da teoria e prática revolucionária”, em que a sua actividade se inseria.

E, noutro passo, esclarece o autor que o neo-realismo teve em “Sol Nascente” um órgão “de fundamentação, de incentivo e de consagração”, na redefinição da função social do escritor e do artista. Assim, o estatuto atribuído aos intelectuais foi, neste contexto, objecto de “profunda viragem teórica e prática”, mediante a qual “a independência dos intelectuais foi rejeitada, em nome da aceitação da orientação política e teórica do partido do proletariado, bem como da divulgação do pensamento revolucionário, tido por cientifico”.

No dizer do autor, foi o predomínio da instância política, que “conduziu a eleição da orientação da revista Seara Nova como alvo polémico, procurando cindir o campo oposicionista e criar, em consequência, condições para a disputa da sua direcção”. Como, por outro lado, no dizer do autor, “a crítica em algumas das principais figuras da Presença teve lugar a partir de considerações de claro fundo ideológico e político”.

No final das suas quinze teses com que encerra o estudo, o Prof. Luís Andrade considera ser “pertinente colocar-se o problema de saber que relação é possível estabelecer entre o momento fundador da cultura marxista portuguesa nos meios intelectuais e a evolução que conheceu ao longo das décadas seguintes”. E acrescenta que “enveredar pelos percursos que o momento fundador de Sol Nascente encetou constitui, porém, outra investigação”.

Que, do nosso ponto de vista, bem necessária se torna.

M. V.

SEARA NOVA nº 1719 - Primavera 2012

       

quarta-feira, julho 12, 2017

PERFUME DE UM TEMPO BREVE



Para os meus amigos

Teresa Almeida Subtil
Fernando Subtil

Cálida a tarde assim tecida
Seda e linho.

Urdidura de gestos delicados
A soletrar a margem do rio lá ao fundo
Mero reflexo debruado
De um rio-outro
A derramar-se
Por dentro

Amável percurso das palavras
Fios de prata e lume
Em que dizemos
O tempo e o modo
Da vertigem.

E em que colhemos
A urgência da Hora.

E na brisa apressada soletramos
E perfume de um tempo breve
E celebramos o dom raro da amizade
A desprender-se fecundo
Em serena dádiva
Da Vida.

Manuel Veiga








domingo, julho 09, 2017

EU SEI QUE PASSO...


Parto. E corto pontes
Que minha viagem é sem regresso.
Nem meu canto é gorjeio emplumado

Nem minhas dores são grito de pássaro
Gemebundo.

Passo. Eu sei que passo.
E ao passar agito. E colho tresmalhados ventos
Em meu punho fechado
Qual espera do momento
Certo para quebrar os selos
E soltar venenos.
E tempestades em riste. 

Assim não queiram meus fados
E os ventos fiquem quedos.

Manuel Veiga


sexta-feira, julho 07, 2017

FRAGMENTOS XLIII

(...)

Meu caro, apressa-te. Diz ao que vens, na escorreita escrita de que és capaz e deixa-te de gorjeios de pássaro na gaiola, prisioneiro do próprio cântico, qual narciso espelhando-se no lago. Já não há paciência para tantos rodriguinhos e rodeios!...  Apressa-te e, numa prosa enxuta e lisa, conta a tua história, para teu gozo pessoal, que não faltam por aí “estórias” bem contadas à procura de leitores”.

Assim falou Maria Adelaide, licenciada em Letras e Línguas Modernas, qual pitonisa do templo de Calíope, agastada e docemente suspensa de um beijo, lá atrás, numa livraria de Lisboa, com o capricho e o frémito de um livro roubado.

 FRAGMENTOS XLIII

Apressemo-nos, então, na urgência que Maria Adelaide requer, não certamente pelas razões de erudição literária que a consomem e doutamente nos concede como favor dos deuses fora, deixando tombar o bago de sabedoria, que solícitos dedos haverão de recolher. E saborear, está bom de ver.

Apressemo-nos pois, que o tempo vai definhando neste entrecruzamento de tempos vários de que a narrativa se constrói, pois que um tempo maior tudo arrasta e nivela, seja o turbilhão de coisas vividas em fingimento ou outras tão fingidas que vida são, mais vida que a vida vivida, certos de que a vida, assim em fingimento, é livre escolha de afectos e não predestinação de passos, aqueles que damos e aqueles outros, que não sendo dados, iluminam os passos dados e percurso dos dias vividos. Apressemos então por urgências múltiplas e razão maior aquele beijo, lá atrás, expectante nos lábios carmins de Maria Adelaide, licenciadas em Línguas e Literatura Modernas, ao tempo ainda não inflamada de erudição literária, que a chama então era outra, percorrida pelo frémito de sabores clandestinos a alagar por dentro a pele e dos sentidos, certos de que nada do que na Tabanca foi ou era, tem expressão que possa sobrepor-se à indeclinável urgência de um beijo apaixonado. Ou ao capricho e ao arrepio na pele de um livro roubado numa chique livraria de Baixa de Lisboa, como solicitação de urgente prova de amor.

Há pois que reconhecer razão a Maria Adelaide e desfazer o nó desta escrita atascada na Tabanca, como passos mal calculados na bolanha, e prosseguir para alívio do Alferes e do seu penoso e ziguezagueante percurso de emoções, agora, neste tempo da narrativa, solicitado pelo Comandante da Companhia de Cavalaria, Capitão Mascarenhas, para reunião urgente, não alcançando o Alferes, da rotina dos dias, razões de natureza sanitária ou intendência, sendo certo serem esses os domínios de intervenção directa do Adjunto do Comandante de Companhia, para tal reunião e tamanha urgência, sabendo-se que as patrulhas militares tinham escala conhecida e assumida por cada grupo de combate.

Entrou, pois, o Alferes na Sala de Operações e Gabinete do Comandante, que antes fora campo de outras refregas que para aqui não são chamadas, com uma vaga apreensão a formigar-lhe a mente e os sentidos, pois bem sabia ele, de ciência certa, que, no balanço do seu percurso militar, sempre lhe calharam para roer os piores ossos, que é como quem diz, as mais chatas e arriscadas tarefas e missões militares.

Com um gesto brusco o Capitão Mascarenhas, dispensando formalidades militares, indicou a cadeira frente à secretária e estendeu ao Alferes um papel com o timbre do Estado Maior do Comando Militar na Província da Guiné – “leia”, intimou! - O papel bailava das mãos para olhos do Alferes que leu, uma, duas, três vezes, sem que, de seu conteúdo, vislumbrasse razão aparente ou motivo urgente para a agitação e a ansiedade do Comandante da Companhia, Capitão Mascarenhas, conhecido entre os oficiais do Batalhão, pelo gélido sangue frio no bridge e no poker e que, no teatro de operações, mesmo debaixo de fogo, mantinha uma invulgar fleuma e capacidade de tomar decisões, por vezes, de grande delicadeza, sem a mínima perturbação do rosto. E na memória vivaz do jovem Alferes, enquanto discorria sobre o papel timbrado do Estado Maior, perpassa então o inesperado exemplo de pronta decisão e crueldade naquele funesto tiro de uma pistola Walter, paralisando o Céu e a Terra e as portas do Inverno e todos os raios e todas as maldições, num estampido seco que esfacelou o crânio de um bebé de meses, choro lancinante e agónico, agarrado ao corpo da jovem mãe negra, ainda fumegante, com o rosto carbonizado e o ventre aberto pelas chamas. E num arrepio, o Alferes revê, num flash momentâneo, o capitão, hirto e pálido e arma ainda fora do coldre, ombros caídos, como o anjo negro da Tragédia e todo o pelotão, todos os homens, um a um, aproximando-se, rodeando a cena, alguns benzendo-se, outros enxugando a mal disfarçada lágrima, outros ainda virando a cara e evitando o macabro espectáculo e o capitão Mascarenhas, perante o rosto incrédulo do Alferes e a indignação calada e a muda acusação dos homens sob seu comando: “Que esperavam vocês, seus merdas! Que a criança ficasse para aí abandonada, a servir de pasto às hienas? Era um bicho. Acabou-se!... ”

Nestes lances se definia o Capitão Mascarenhas. Frio nas decisões, seco nas ordens e militarão na messe e na parada, entretanto de crista abatida pelas múltiplas agruras e desilusões militares que, pouco a pouco, lhe acentuavam o pendor cínico e lhe abalavam as certezas nacionalistas, bebidas na tradição de seus apelidos e na preparação ideológica ministrada pela Academia Militar, como futuro “condestável” da Pátria, una e indivisível na sua extensão territorial do Minho a Timor e que uns quantos serventuários do comunismo internacional, às ordens de Moscovo, desejariam amputar.
Entretanto, como o tempo que tudo desbasta, o álcool e o bridge serviam-lhe de lenitivo, sintoma discreto de que o castelo de suas certezas começava a abrir delicadas fissuras. Mantinha porém exacerbada a penache militar, qual cidadela acossada ou, porventura, último reduto de suas graníticas certezas.

Assim discorria o Alferes, entre o aguilhão de vivências recentes e o clownesco embaraço das mãos a exibir um papel com o timbre do Estado Maior do Comando Militar da Província que, em três escassas linhas, anunciava, para daí a dois dias, a visita do General Comandante em Chefe, acompanhado apenas do Oficial de Campo e manifestava a vontade Sua Excelência almoçar com o corpo de oficiais do daquele destacamento.

Que me diz a isto?” - disparou o capitão Mascarenhas perante o Alferes emudecido, devolvendo o papel e fazendo tempo para a mais óbvia resposta que pudesse quebrar a impaciência e a visível incomodidade do comandante da Companhia. “Naturalmente, receber o nosso General o melhor soubermos e pudermos” – procurando o Alferes ler nos olhos do capitão o momento de distensão tão ansiado. “Sim, sim, claro! Mas se a visita do nosso General não lhe merece comentário mais produtivo para que raio eu quero um Adjunto? Pense!” – e agitou-se na cadeira o capitão. E no habitual sarcasmo com que fuzilava universitários e intelectuais: - “ou será que na Faculdade de Direito que é pressuposto frequentar não o ensinam a pensar? E agora largando o papel sobre a secretária batendo os dedos em irritação: “ou julga que o General larga o ar condicionado e vem a este cú de judas pelos nossos bonitos olhos? Há-de trazer alguma fisgada e não quero ser apanhado de calças na mão”. E como se para si próprio falasse “Por isso pense! E diga-me o que o nosso General vem aqui fazer!...”      

segunda-feira, julho 03, 2017

Em Cada Sílaba Uma Saliva de Pétalas


Límpidas são as vozes em seu desmedido sopro
E as ondas, que em retorno se alevantam em tempestade de espuma
E se rendem altivas ao cântico interdito dos dias.  

Em cada sílaba vibra uma saliva de pétalas
E uma cristalina febre a entumecer os lábios
E a alagar o movimento e sintonia dos corpos
Numa dança de murmúrios orvalhados.

Existe em cada nome uma fantasia de gestos
E uma música que se derrama e se dilata em metamorfose
De cores sem forma e que apenas invisíveis dedos
As colhem no momento de dizê-las desmedidas.

Cascata de emoções cálidas em que os rostos
Desenham o itinerário dos afectos e a vibração dos passos
Peregrinos como cais de chegada – destino de poeta
A doar-se inteiro e a sobrevoar as margens

E a despenhar-se em fingimento da palavra
Partilhada.


Manuel Veiga