sexta-feira, abril 28, 2017

Caetano Veloso - Um Comunista




Solidariedade com o Povo Brasileiro
e todos os Povos do Mundo 
em luta pela Democracia
pelo Progresso Social

quarta-feira, abril 26, 2017

Poder Local - Espaço de Cidadania Activa


A propósito das Comemorações dos 40 Anos do Poder Local Democrático, interessa salientar a vocação do exercício do Poder Local na formulação de valores democráticos de participação política, que são em si mesmos, garante da plena realização da democracia, nas suas diversas vertentes de democracia política, económica e social.

Sem dúvida que a institucionalização do poder local, a par de outros elementos estruturantes (a legalização dos partidos políticos e das organizações sindicais, a emancipação do poder judicial e do poder legislativo) é peça essencial do regime político, instituído pela Revolução de 25 Abril. Sobretudo, pelo seu reconhecimento como subsistema vocacionado à realização das necessidades colectivas e a democratização da sociedade pela participação do cidadãos na vida colectiva.

Participação dos cidadãos, presente desde o início da Revolução de Abril, que se concretizou numa multiplicidade de realizações que deram expressão às mais genuínas aspirações populares, desde a instalação das “comissões administrativas” nos Municípios e Freguesias, passando pela intervenção directa, de milhares de pessoas, com seu trabalho voluntário na realização de necessidades colectivas básicas (saneamento básico, electrificação, estradas e caminhos, escolas, creches, etc. etc.)

A partir dos alvores da democracia, portanto, o poder local “antecipou”, por iniciativa dos próprios cidadãos, o seu estatuto e a sua vocação de “lugar institucional” privilegiado de interacção com as populações, permitindo, como em nenhuma outra instância, alimentar e estimular o funcionamento do sistema político.

Quer dizer, o poder local, pela sua situação particular no conjunto do sistema de poder, tende a constituir-se esfera privilegiada de realização democrática, onde assume o fulgor inaugural da ordem normativa, estabelecida pelo 25 de Abril, alargando e aprofundando os limites da democracia representativa.

Uma cidadania assumida, portanto, fecundada pela intervenção consciente dos cidadãos na preservação e afirmação dos direitos cívicos e políticos, mas também na efectivação dos direitos económicos e sociais, como condição essencial à realização dos primeiros e expressão de um espaço privilegiado de resolução de problemas do quotidiano das populações.

Ao longo dos anos têm sido introduzidas distorções nas competências e funcionamento das autarquias, que desfiguram a matriz democrática do poder local, acentuando a “presidencialização” dos órgãos executivos e a introduzindo tiques de “parlamentarismo” no funcionamento das assembleias municipais, na lógica de mera contraposição governo/oposição.

A verdade, porém, é que o sistema do poder local instituído pela ordem constitucional do 25 de Abril, mais que conflito, é consenso activo, mais que vocação unipolar de poder, é pluralidade e participação. E, porque não se podem fundar consensos “numa multidão de passividades” mas pelo contrário, os consensos se estabelecem pela “alteridade das propostas”, se compreende a importância da intervenção das populações na esfera do poder local.

A dimensão democrática da participação é, assim, factor de reforço da consciência social e política de cada pessoa perante o poder e de exigência dos seus direitos e da consequente recusa de sentimentos de dependência face a esse mesmo poder. Em síntese, o exercício do Poder Local Democrático constitui-se, em mesmo, como espaço de cidadania activa.

Perspectiva aliás prenhe efeitos e resultados que extravasam o quadro restrito das autarquias locais e que leva, por exemplo, o Presidente da República a sustentar que o Poder Local “tem sido o fusível da democracia portuguesa” e que “aquilo que é chamado de populismo não tem entrado no nosso país, entre outras razões porque há Poder Local.[i]

Manuel Veiga






[i] Conferência Nacional “40 ANOS DO PODER LOCAL” - Loures 21/22 Janeiro 2017 - pág. 280

domingo, abril 23, 2017

Nada é Definitivo...


Escultor de paisagens o tempo. E estes rostos
São agora sulcos a reclamar colheitas
E as mãos arados. E os punhos erguidos
O som das fábricas. Perdidas
Na voragem dos dias
Infecundos.

E no entanto esta torrente. E esta fonte
Que desce em cascata de palavras
Verbo que se faz carne. E ferve
Nos peitos a latejar
Rubros cravos
E bandeiras.

Nada é definitivo quando a rocha
Se abre ao fogo. Nem a memória
É fatuidade de um beijo.
Nem a Revolução um gesto
Inacabado.

Mas sim um poema sinfónico
Passo a passo a arder por dentro
Uma cadência sem idade.

E é este aguilhão e este alvoroço
E o rosto magoado deste Povo
A inscrever um tempo novo
Letra a letra
Liberdade.

25 Abril Sempre!

Manuel Veiga





quinta-feira, abril 20, 2017

Paisagem Íntima ...


Sobre as águas o cisne negro
E o suave marulhar das ondas sobre o lago
Azul a fervilhar sob a brisa
E a indiferença da ave.

Ao longe a tímida garça abrindo
A asa ao sol dolente. E a festiva dança
Do abelharuco de voo em riste.

Príncipe da tarde, prossegue o cisne
E a garça agora esboça o ritmo em redor
E todo o lago arde…

E tudo emudece. Até a adventícia ave
Encolhe a pena. E grasna.

E deste lado da paisagem nada
Acontece. Apenas o poeta e a gota de água
E a longa espera.

E o cântico do cisne em melopeia
Lá ao fundo.

(Paisagem íntima)


Manuel Veiga






segunda-feira, abril 17, 2017

Gato Sobre Azul







Ele, o centro. O gato
Sobre azul…

Calma distendida
Clama: veludo d´ alma…

E o dorso em arco.
Mar breve. Paisagem
Sobre a mesa.

Divagar
Sob teus olhos
E a placidez
Do gato.

Sol do beijo.

Talvez Magritte
E o sopro do Desejo!


Manuel Veiga





sexta-feira, abril 14, 2017

CÂNTICO de PÁSCOA


“Que quereis aqui, vós, portentosos sons,
Que do céu vindes procurar-me no pó?
Soai antes onde há corações bons.
A mensagem bem oiço, porém, falta-me a fé.
E o milagre é da fé o filho amado...”

“Àquelas esferas não ouso aspirar
Donde me vem a boa e doce nova;
Mas quando o som da infância se renova
À vida novamente quero voltar...”

“Então descia em mim a bênção
Do Céu, na paz do Sábado, serena,
E a voz dos sinos, de presságios plena,
E era um prazer fogoso a oração;
Um indizível anseio me impelia
A florestas e campos percorrer,
E entre lágrimas ardentes sentia
Que em mim um mundo começava a nascer...”

O canto veio lembrar-me os jogos de infância,
Da primavera a festa livre da alegria;
O ânimo infantil sustenta-me a lembrança
Que do derradeiro passo me desvia...”

“Ressoai, ressoai doces hinos do Céu!
Lágrima, corre! – Terra, aqui estou eu!...”


Johann Wolfgang Goethe - in “Fausto”


segunda-feira, abril 10, 2017

"A Sagração da Primavera", por Pina Bausch



Breves dias ausente de vosso convívio

Votos de Boa Páscoa

Beijos e Abraços

ERGO MEU ALTAR...


No surdo rumor das coisas a erguerem-se.
Sem mácula ainda. Apenas bailado a fermentar.
E inerte magma a abrir-se e a traçar o rosto do devir.
E as águas – matriz de tudo – a separarem-se
Em seu movimento prenunciador
De espaços e destinos.

Nesse alvor da palavra e murmúrio
Do fogo no interior das formas em esboço
Dos dias. Nesse trono de epifanias
E aleluias: grito apenas.
E na cintilação das esferas.
Nessa lonjura.

E na gloriosa febre em que nos sagramos.
E nos hinos. Ergo meu altar.
E fecundo minhas
Promessas nuas
E digo corola
E néctar.

E meu cântico. Flor de Cristal.
Mulher. Mátria. Liberdade
E dança. Apoteose
Sobressalto
E frémito.

E rubor de Poesia
Livre.

Manuel Veiga


quinta-feira, abril 06, 2017

ÁGUAS VIVAS ...


Ardem os dedos. E os olhos
Descem as pálpebras num mergulho
De íntimas cascatas.

Sou este rio e este eco. Sons difusos
Que as margens recolhem em cantochão
De águas vivas.

E sou a superfície do lago
Fio-de-prumo entre a montanha
E o sol fagueiro.


Manuel Veiga





DEAMBULAÇÕES - Donde Se Fala de Eça, de Viriato e do Asterix


Serpenteando a estrada, durante horas, sob o calor tórrido de Agosto, em processo inverso ao de Jacinto, nas “Cidades e as Serras”, a chegada ao restaurante é um momento glorioso e redentor…

Não pela fumegante canja de galinha que, decididamente, tem o amor do viajante, nem muito menos pelo horizonte literário (que bem conhece o viajante seus limites), nem sequer - vejam bem! - pelos cambiantes da paisagem, pois se o Jacinto arrostou seus martírios, trepando de mula, pela famosa serra de Tormes, o viajante, esse, afadigou-se circulando de automóvel (e ar condicionado) pelas fraldas da serra da Estrela, que ao outro dia haveria de subir até a majestade dos seus cumes.

Mas isso serão contas de outro rosário, se a tanto o viajante se dispuser a contá-las!...

No caso, a vaga similitude, que o viajante teima em encontrar com o enfastiado Jacinto, residirá tão-somente na benigna bênção da chegada, no alívio dos ossos doridos e na paz redentora, pois que, digam o que disserem estóicos e moralistas, um bom descanso e uma boa refeição reconfortam a alma.

Assim deveria ter sido, certamente, a beatífica emoção de Jacinto, após a canja!...

Não sabe o viajante se algum dia contou seu gosto por restaurantes. Não que seja expert ou requintado gourmet. Nada disso!... Mas desde que, em tempos idos, se aventurou pelas minudências antropológicas de “O Cru e o Cozido” sabe que a cozinha também “fala”, isto é, revela as idiossincrasias de um povo; e, sobretudo, aviva a memória de sabores e odores antigos, em que o viajante insiste em mergulhar …

Desceu, pois, o viajante as escadas interiores, que idas da recepção do pequeno hotel, levam ao desafogado restaurante, com janelas debruçadas sobre luxuriante paisagem. O viajante já ali estivera, em época de inverno. Quase deserto então o restaurante - com a lareira ao fundo, o ambiente dir-se-ia a reconstituição da sala de jantar de alguma dessas casas beirãs mais abastadas, que hoje são resquício apenas, submergidas pelo inexorável decurso das mutações sociais.

Mas desta vez não. O restaurante estava repleto. E o viajante, nesse seu jeito de dissolver contrariedades em ironia amarga, resmungou para os seus botões: - “Gosto de restaurantes cheios!...”

Porém, as palavras, que não deveriam extravasar o domínio de um desabafo íntimo, certamente impulsionadas pela veemência do desencanto, foram ecoar nos ouvidos atentos do gerente, que solicito se aproximava de carta em riste: - “Um restaurante cheio é sempre um bom sinal!...”, protestou ele com gentileza. - “Mais a mais - acrescentou – “não teria o viajante senão que esperar escassos minutos, pois estava a vagar uma mesa para duas pessoas, lá no fundo, junto à janela”…

Dulcificado um pouco no seu humor, pela sensatez da sentença e pela perspectiva de desfrutar cabrito e paisagem, o viajante amaciou o azedume. E a impulsiva réplica que, no calor das circunstâncias, procuraria saber se “o bom sinal” seria a benefício dos viajantes famintos ou do nutrido proprietário do hotel, não passou, por isso, de fingida provocação, sabe-se lá se a dissimular uma inquieta busca de cumplicidade…

Diga-se de passagem, que desde uma visita a Cuba, há uns bons anos atrás, o viajante tem excelente imagem da subtileza dos empregados de hotéis e restaurantes e da sua penetrante capacidade de lerem nas entrelinhas de um qualquer discurso.

Por isso, soltou então o viajante, carregando a ironia, ciente de que a palavra “crise” seria a chave no sentido e no fluir da conversa: - - “Pelo que se vê, por aqui não passa a crise!...”

O homem sorriu, fitando o viajante com seus olhos perspicazes. E bem percebeu então o viajante, que naquele sorriso e no (inter)dito das palavras se filtravam mensagens de (re)conhecimento mútuo, em ideário comum, imune aos percalços da vida...

- “Não se fie nas aparências, amigo!...” – E rematou, enquanto aviava uma conta: - “Hoje é dia de festa, os bárbaros desceram à cidade!”...

De facto, assim fora. Soube depois o viajante que, de manhã, uma luzidia comitiva ministerial havia percorrido as ruas da simpática cidadezinha…

Seja como for, também o viajante, por momentos, esqueceu a crise…

Haja Deus e promessas cumpridas!... Ainda os “escassos minutos” não haviam decorrido já o viajante estava sentado à mesa, no outro extremo da sala, que o seu ocasional amigo, despindo-se de cerimónias e salamaleques, que por bem achou dispensáveis, lhe apontou com o dedo, à distância.

A localização da mesa era de facto excelente, junto a uma janela rasgada, donde se alcançava todo o vale. E, do outro lado, toda a extensão do restaurante e seu infatigável borborinho. Tudo pois sinais promissores, tanto mais que a mesa fora coberta com imaculada toalha de linho, que a Mulher percorreu com os dedos, deliciada, na busca da textura do tecido e da delicadeza dos acabamentos…

Absorto na abordagem da ementa, entre um relance distraído pela sala e atracção da paisagem, o viajante não se dera ainda bem conta dos circunstantes comensais. Percebeu apenas que estava suficientemente afastado “dos bárbaros” para não ser confundido. E isso lhe bastou, de momento, perante a instância do estômago em protestos.

Acordou, pois, para a realidade circundante, apenas com o discreto murmúrio da Mulher: - “Aquela não é a Cremilde, ali na mesa ao lado?”. Entre o incrédulo e o irónico, o viajante girou meio corpo na cadeira, enquanto resmungava: “Que ideia! Isso é obsessão tua. Em cada uma mulher de bigode tu vês a Cremilde!”.

Verdade, verdadinha, a última coisa que o viajante desejaria era encontrar, naquelas paragens, a vizinha do 5º Direito (quem disse que o “pecado mora ao lado”?) do prédio onde habitam, nas proximidades de Lisboa.

Devo esclarecer que a Cremilde é viúva de um tipo da marinha, morenaça, sempre a explodir em seus tailleurs coleantes, que o viajante jurou um dia apresentar a seu amigo Zeca, alentejano de Beja, solteirão impenitente e protector de donzelas desvalidas, mas que, vá lá saber-se a razão, a Mulher detesta cordialmente, no que, advinha-se, é correspondida…

Não era, pois, a Cremilde na vizinhança, o que foi um alívio… No entanto, poderia sê-lo, tais as semelhanças dos traços fisionómicos, que remetiam de uma para a outra e que assumiam, na réplica rural, exageros de caricatura da Cremilde suburbana. E, não apenas no bigode, mas também na verruga do rosto, na expressão desconfiada do olhar, ou no porte avantajado de legionária …

O equívoco teve, pois, o condão de despertar o viajante de seu torpor. E, a partir dai, passou a prestar atenção aos comensais mais próximos, distribuídos por extensa mesa, a toda a largura do restaurante. Manifesto era terem descido da serra para os eufóricos festejos cívico-religiosos, certamente enfileirando nos arrebanhados (e por certo assanhados) aplausos à da comitiva ministerial…

Eram para cima de dezena e meia naquela mesa, se contarmos as irrequietas crianças, que exibiam o troféu das bandeirinhas, com que haviam, momentos antes, acenado, lá fora, à luzidia comitiva.

No topo da mesa, com o marido à ilharga, a “legionária Cremilde”, a quem nada escapava no horizonte do repasto - nem reclamações aos empregados, nem escolha dos pratos, nem recriminações às criancinhas, nem sequer a sequência das conversas e gargalhadas.

Luzia, pois, como um farol naquele mar de contentamento, em seu redor!... Uma "vera e fera" matriarca beirã, em seu esplendor de apascentar seu clã, sem fissuras aparentes, em sua heteróclita composição.
......................................................................

Chegado a este momento da narrativa, não sabe muito bem o viajante como prosseguir. E quando assim acontece, o viajante em vez de se calar, como o bom senso impõe, dá-lhe para transfigurar a realidade ao sabor da fantasia. Como caçador de imagens que acrescenta um ponto ao conto…

E é assim que o viajante, arrastado pela fibra e a imponência da “Cremilde”, se vê impulsionado para os Montes Hermínios e, num lance digno Asterix, reconhece a bravíssima heroína, nas hordas de Viriato, a desancar os “bárbaros do Império”, aqueles ignaros romanos, que sustentam sermos “um povo que não se governa, nem se deixa governar…”

Verdade ou mentira?

Seja como for, certo, certo é que o Céu teima “em cair sobre a nossa cabeça!...”

Manuel Veiga


domingo, abril 02, 2017

A Configuração do Poder e o Busto de Ronaldo

A configuração do poder é multifacetada. Assume diversas máscaras numa encenação do Mesmo, quer dizer, da articulação dos interesses económicos dominantes, instância última onde reside o verdadeiro rosto (invisível) do poder.

Primeira consequência: não há apenas um sistema formal de poder, mas uma multiplicidade de sistemas de poder, disseminados no interior da sociedade, muitos dos quais meros poderes fácticos, que dizer, sem qualquer estrutura (visível) que os suporte.

Segunda consequência: nenhum sistema de poder é, em si mesmo, autónomo e independente dos restantes: os diversos sistemas de poder desdobram-se uns nos outros, funcionando em rede, retroagindo nos respectivos chamamentos. Decorre, portanto, que o poder não é apenas o "lugar de poder" que se observe, se ocupe, máxime se conquiste, mas sobretudo uma "relação de poder" que se exerce e se sofre - não há poder sem "exercício do poder".

Tradicionalmente o poder de Estado tem assumido o lugar por excelência do "exercício do poder". Compreende-se. O Estado, nas sociedades politicamente organizadas, detém o monopólio da violência. É o único sistema de poder que se poderá impor pela força e pelo constrangimento físico. Quer dizer, o poder Estado é essencialmente coercivo. (…)

Porém, outros sistemas de poder actuam na sociedade. Não pela coerção, mas pela persuasão; não pela imposição da lei e da ordem ou pela violência física se necessário, mas pelas artimanhas da ideologia. De forma mais subtil, portanto. E em imbricada cumplicidade com o poder de Estado.

Como acontece com o poder mediático. (…) O poder mediático ganha cada vez maior expressão com a globalização capitalista e na articulação de novas dimensões daquilo que alguns autores (G. Lipovetsky e H. Juvin - in "O Ocidente Mundializado") designam como "Cultura-Mundo". (…)

As marcas, os objectos, a moda, o turismo, o desporto, a publicidade tendem a ser os mesmos em toda a parte e a ocupar o local simbólico da(s) cultura(s) e o desígnios da ética e da estética. Como se escreve na obra citada "quando a economia se torna cultura e quando o cultural se faz comércio, chega o momento da cultura-mundo". (…)

No entanto, somos tributários de um tempo em que a cultura iluminava a existência e, no seu corpo de valores, regras e sistemas simbólicos, abria espaço ao sonho e estimulava a superação das contingências históricas. Havia assim integração e identificação social dos indivíduos que, nos seus processos de trabalho e socialização, estabeleciam laços e criavam solidariedades.

A cultura gozava então de uma certa "autonomia relativa" em relação à "economia", privilégio de que pagava o preço da sua "marginalização", que era ao mesmo tempo a sua fragilidade e a sua fortaleza. (…)

Na actual fase da humanidade, porém, a cultura entra directamente no circuito de acumulação capitalista e na realização do lucro. Por exemplo, que a UNESCO estima que a contribuição das denominadas "indústrias culturais" representa 7% do PIB mundial e que, nos países da OCDE, desde o ano 2000, o crescimento destas "indústrias" é entre 5,2% a 20% ao ano-

Para além desta metamorfose da cultura em mais-valia económica, o papel específico da denominada "cultura-mundo", cumpre-se, sobretudo, na eficaz "pacificação" de amplas camadas de população “descartáveis” do processo produtivo face às inovações tecnológicas, potencialmente perigosas devido à sua marginalização, cuja frustração social será compensada. ou anestesiada. mediante doses maciças de entretenimento embrutecedor (…)

Enfim, a "imbecilização" dos indivíduos como estratégia de poder.
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E que viva o busto do Ronaldo que espero um dia poder ver, nas Escolas, Quartéis e demais serviços públicos, como símbolo da República, no lugar do busto da vetusta Mariana.


Manuel Veiga

SEARA NOVA nº1721
Outubro 2012