sexta-feira, março 31, 2017

REGISTO DE ÁGUA E LUME...

Procura o poeta a palavra exacta
Aquela em que o corpo arde
E a alma quer.
E nessa turbulência se soletra.
Uma a uma cada sílaba. Palato e língua.
E um rio de espuma que freme
E se esvanece.
Tardia.
Registo d´agua
E ardor de lume…

Manuel Veiga



terça-feira, março 28, 2017

QUANDO OS RIOS SECAREM...


 Quando os rios secarem e as tempestades
Forem sopro e bálsamo sobre a gretada pele
E a mácula se erguer em flor de inocência
E os olhos magoados forem poema e bailado
E um sorriso enfeitar as linhas do rosto
Como cinzel de límpidas palavras.

E o silêncio se abrir e a música for
Som de cristal. Dedos em movimento subtil
Na vibração da noite. E todos os enganos forem
Festivo encontro…

Inventarei então todos os nomes e
Deporei a pura essência dos dias advindos
Em que enlaço e colho o deslumbramento
Como dádiva, transgressão e fonte
Em que ardendo me digo.

Manuel Veiga
in "Vibração dos Mostos "  - no Prelo




segunda-feira, março 27, 2017

Que Mil Metáforas-trapaças FLoresçam...


Que mil metáforas-trapaças floresçam. E brilhem.
E desçam. E de pétalas abertas
Abismem as cabeças.
E se celebrem, anafadinhas,
Em esmeros
De artesão.

E se ergam – as metáforas-trapaças. Às resmas!
E na euforia dos versos
Chovam. E lutem contra
O destino. Como o Fado!

Que de metáforas-trapaças - eu vou ali e já venho!
Em verdade vos digo que afinal
Não tenho nada contra elas.
Mas não as engulo. Não sou capaz, não!
Até faço jejum e de canela as polvilho
Para as poder tolerar.

É este o meu azar. Não as consigo tragar
Não as metáforas. Que aguentam tudo
( Até eu lanço mão delas - coitadas! )
Mas tão-somente aquelas
Que não passam de trapaças.

E vos garanto não ser cisma minha
Ou teima. É uma espécie de azia
E um transtorno geral
Pior que óleo de ricínio
Em cólica intestinal.

Enfim, passo um calvário.
Eu bem as cuido “coisinha linda”, piu … piu…
Das metáforas-trapaças – está claro!

Mas é este meu fadário
Não tenho jeito nenhum
Para as hipnotizar, coitadinhas!
Ou ser cocorocó de aviário!


Confesso mais - não ter paciência
Para feitos de tal tamanho.
Deixo-as, pois, para quem delas faz bom uso
O cego olho de Camões
E a monumental porra do Soriano.

Manuel Veiga


sexta-feira, março 24, 2017

Sobre a Actualidade do Filme “O Mundo a Seus Pés”


No filme de Orson Welles, O Mundo a seus pés” (Citizen Kane), o protagonista, magnata da imprensa, numa cena célebre, afirma categórico que os “leitores dos seus jornais pensam aquilo que ele decide que pensem”. O filme é de 1941, data anterior, portanto, à plena afirmação da televisão, a partir da década de cinquenta do século passado e, mais distante ainda, da divulgação da internet com toda a parafernália de meios de comunicação que as novas tecnologias permitem.

O filme, bem se sabe, é uma obra-prima. A frase, no entanto, assume uma importância simbólica que extravasa a dimensão de obra arte reconhecida e laureada. Na realidade, “decidir o que os outros pensam” constitui a mais absoluta afirmação de poder e a denegação mais radical dos fundamentos históricos da autodeterminação do individuo, que nos chega da civilização greco-romana e que, na idade moderna, se expressa na proclamação dos Direitos do Homem.

Era assim, portanto, em 1941. A imprensa, enfim, o meio de comunicação social na época dominante, almejava estabelecer o que os leitores (os cidadãos em geral) “deveriam pensar”; isto é, a visão do mundo era mediada e moldada pela lente multifacetada dos magnatas da imprensa. Naturalmente que os interesses da “imprensa livre”, então em efervescência, se articulava com os interesses pessoais, económicos e políticos de todos os “citizens kanes” desta vida, presentes, passados e futuros.

De facto, desde sempre os poderosos souberam quanto é perigoso o exercício da força e da violência físicas (sempre os escravos se revoltaram) e cedo compreenderam que mais eficaz que a coerção física seria domar o espírito e conquistar “livre” adesão dos indivíduos aos desígnios da dominação.

Essa, portanto, a função da ideologia e o papel dos aparelhos ideológicos, que a segregam e difundem, como que “oleando” os mecanismos de articulação e funcionamento da(s) sociedade(s) e do Estado de que, nos tempos modernos, a imprensa e a comunicação social constituem o paradigma, mas que estão longe de esgotarem os instrumentos de produção e difusão do poder ideológico.

Que poder é esse? O que é a ideologia e qual o seu papel? Que função para os chamados aparelhos ideológicos?
(...)
A especificidade da questão é que o poder mediático se realiza numa espécie de “submissão voluntária”. A interiorização subjectiva dos modelos e comportamentos sociais e, sobretudo, a interiorização do “olhar do outro”, que o poder mediático exponencia, transforma cada indivíduo no seu próprio vigilante.

O temor interiorizado “do que os outros vão pensar” (por não se frequentar tal o tal meio, conhecer a vida de tal celebridade, usar tal marca de vestuário, etc. etc.) constitui motivo de submissão voluntária à ordem estabelecida e ao consenso social, ou seja, constitui um poderoso e subtil elemento de sustentação (pela inércia) do sistema de poder.

Como romper o cerco?
(…)
Importará ter presente que, se é verdade que somos produto da sociedade, também somos nós, cidadãos, os produtores da sociedade que almejamos. Não somos meras marionetas de um jogo de forças, nem meros expectadores dos embates dos diversos poderes. Cada um de nós é co-autor da trama em que os poderes se tecem. E, portanto, o nosso silêncio e passividade, ou a nossa acção decidida irão contribuir para manter ou alterar o estado das coisas.

Afinal, onde “há poder há resistência”. E toda a resistência cria por si novas “formas do poder-saber”.

Quer dizer, os fundamentos de uma vida-outra.



Manuel Veiga 

SEARA NOVA nº 1725
Outubro 2016                                                                                             

                                                                      

quarta-feira, março 22, 2017

QUE O POEMA ARDA.


Quer o poeta luminosa epifania
Esquiva claridade a rasgar-se
Por dentro da sombra.

Prenúncio que seja. Ou apocalíptica
Razão absurda a desentranhar-se
Do nada. Flor desértica
Tatuada no dorso
Da miragem.

Ou suspiro de água a derramar-se
Nos balbuciantes lábios
Do silêncio.

Que o poema arda!

Manuel Veiga



segunda-feira, março 20, 2017

Na Singela Vibração dos Mostos


No alvoroço das correntes e das alvoradas
No zénite dos passos quase, quase chegada
E na soleira da porta
Aberta
E nas pétalas
Espalhadas pelas ruas
Em tapetes de rosas
Perfumadas

E na música dos palcos da memória
E nas danças desfolhadas
Saias bordadas
E corpetes de linho
Desatados
Frutos que se oferecem
E colhem dos caminhos
Em gosto de muros
Derrubados

Nesta singela vibração dos mostos
A fermentar a celebração dos dias
Ergo o destino de meus passos
E poeta de cores bem definidas
Desenho em traço grosso
As linhas do rosto
E a paisagem
Em que me digo.

Manuel Veiga

  

sexta-feira, março 17, 2017

Côncavos São os Rios...


Fecha-se o círculo. Agora os dias são amoras
Tardias em bocas sequiosas. E os dedos
Percurso de água no alvoroço
Da febre e dos lábios
Ressequidos.

Há neste mosto um perfume festivo
E um dossel de giestas a coroar o rosto.
E a agitação do sol em zénite
Na bebedeira dos sentidos.

A lonjura é esta vertigem aberta
Da memória. Este sopro cálido a desalinhar
A poeira dos caminhos. E alevantar primaveras
Como quem reza ou canta. Ou perdido
Flutua no desnorte das bússolas.

Côncavos são os rios em seu curso.
E as cascatas são ecos. E os sorrisos benignos.
Matizados porventura no timbre descuidado
Dos macios gestos.

Ou na placidez fremente
Da tarde em trânsito altivo do poeta sobre
A inevitável rota. E a Sombra.

Manuel Veiga




segunda-feira, março 13, 2017

CELEBRAÇÃO DA SARÇA. E DA CHAMA...


Inefável a voz em que o poema se celebra
Eco ou reminiscência
Ou sílaba que dança
Ou aquela música
Imprevista
De que guardamos
A memória.

O poema
É um certo capricho
Uma vontade mimada
Uma criança azougada
Por vezes fisga. Outras
Uma lágrima.

É uma palavra traçada em branco
Descuidada…

Eterna quanto baste.
Efémera quanto os lábios a digam
Como chama
Ou sarça.

Manuel Veiga





domingo, março 12, 2017

"Não Será Teu Mestre Aquele a Quem Escutes..."


O Mestre Lao Chang tinha um discípulo muito amado, de nome Lie Tsé.

Lie Tsé procurava aprender a arte de julgar. Durante três penosos anos, Lie Tsé leu todas as leis do Império, consultou todos os mandarins, visitou todas as prisões. E regressou junto do seu Mestre, apto a qualquer exame.

Este não o recebeu.

Então Lie Tsé fechou-se no seu jardim, ignorando todos. Meditou e orou. Ao cabo de três anos, bateu novamente à porta de Lao Chang.

Esta permaneceu cerrada.

Lie Tsé compreendeu então que não tinha estudado, nem meditado o suficiente. Despediu-se dos pais e recolheu-se numa montanha, onde viveu asceticamente, entre êxtase e pergaminhos, durante mais cinco longos anos.

Quando desceu da Montanha (...) não foi sequer abraçar os pais: correu logo à casa de Lao Chang.

Não obteve senão silêncio.

Sem desânimo, Lie Tsé saiu e passou à terra dos bárbaros. Aí permaneceu mais quatro anos, estudando e aprendendo outros costumes de julgar. Regressou trazendo na sacola novidades e presentes para Lao Chang.

Os portões da habitação deste permaneceram frios e impenetráveis.

Então, Lie Tsé passou a comportar-se como homem normal, relembrando o ensinamento de Lao Tsé:

“Se estudar renunciares/cuidados deixas de ter/pois que diferença há-de haver/entre negares e afirmares?/ (...) pois o estudo é imenso/ e fica sempre suspenso”.

Com estes versos consolou a sua assumida leviandade. E um dia, quando houvera já esquecido as leis e os julgados e as masmorras, passou pelo jardim de Lao Chang. Foi aí que este pela primeira vez o honrou com um olhar.

Lie Tsé começou a compreender.

Cinco anos mais tarde, Lie Tsé limitava-se a considerar os actos humanos em silêncio, timidamente, quase com pudor. Foi nesse estado que voltou à casa do Mestre.

Aí pela primeira vez o viu ao de leve sorrir.

Entusiasmado, Lie Tsé levou sete anos a procurar olvidar o negro e o branco, o avesso e o direito, como preparação para a maior tarefa: esquecer o bem e o mal.
(...)
Ainda não preparado, apresentou-se arquejante na sala do Mestre, o qual, num gesto vago, pela primeira vez lhe indicou um assento.

Voltou Li Tsé a vaguear pela sua terra natal e a correr mundo, tido como louco, pois já não distinguia nenhuma cor, não mostrava preferência por nenhum sabor, não proferia nenhum juízo. Ou fazendo-o, baralhava-os. Ora chamava amarelo ao verde, ora pérfido ao amável. Os pais choravam-lhe o juízo perdido.

Quando em si passou a ser frequente encolher os ombros a tudo e tudo aceitar como possível, sem sequer trocar “o em cima” pelo “o em baixo” nem recto pelo torto, tomou o caminho do jardim de Lao Chang.

Lao Chang não o reconheceu, mas venerou-o como a um Mestre. Ao ouvi-lo sobre as artes de julgar, pensou em recomendá-lo ao seu velho discípulo Lie Tsé ausente já nove anos.

E Lie Tsé, (...) recordou então intimamente, saboreando o seu triunfo :

- “Não será teu Mestre aquele a quem escutes, mas aquele de quem aprendas; nem será aquele que te dê lições, mas o que deixe no teu coração o sinal dos seus ensinamentos; (...); nem o que te brinde com as suas palavras, mas antes o que te excite em ti os seus próprios estados espirituais.”

In “O Verdadeiro Clássico da Vida Perfeita” – Lie-Tseu – Philosofies Taoiste.

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Mas por que raio me lembrei deste conto antigo, aprendido há anos na obra de um velho Mestre de Direito?

Vá lá saber-se...

Manuel Veiga





quinta-feira, março 09, 2017

Na Raiz do Mundo ...


Duas gotas de orvalho
Do veludo das pétalas
Suspensas

Discreta agitação da brisa
E a vibração da rosa
E as gotas de água
São agora apenas pele
E fundem-se.

Estremece o Universo
E as leis da física
E o poema é flor e água
A derramar-se
Na raiz
Do Mundo.

Manuel Veiga

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Este blog não publica 
comentários anónimos, por mais "edificantes" 
que sejam as mensagens . 


quarta-feira, março 08, 2017

A MULHER DE VERMELHO


 Rasgam-se as cortinas e sob o foco a Mulher
Esguia como o tempo liberto como o punho
Erguido ao céu da praça cheia e às canções!...
Maiakovski grita em métricas guturais:

“Abram alas ao Futuro que perpassa nas dobras
Do manto vermelho!...”

A Mulher inclina-se em dignidade soberba
Segura nas mãos a flor dos dias e nos olhos
O fervor prenhe de Lonjura e de Distância.
E a palavra ousada nos lábios escarlate
Como a túnica...

Em baixo uma criança negra soletra liberdade
Nas pétalas desfolhadas do cravo rubro
Que a mãe lhe dera com o leite...

E o pai sorri com os imaculados dentes
Da fome. Com o grito. Como a guerra.
E ergue o punho à Mulher de Vermelho
Que o acolhe no seu seio de cristal...

E o devolve ao Povo acumulado na Praça
Num gesto de febre
E luta...

Viva a Liberdade! ..."


Manuel Veiga - in "Poemas Cativos"

segunda-feira, março 06, 2017

Olhar Em Que Me Perco


Nos esteios do sangue e nas telúricas vozes
Que em nós habitam.
Nas profundas águas
E no altar das rochas
Tresmalhadas
No zénite do sol
E nos pomares e
Nos veios
Líquidos.

E nos cheiros da terra lavrada
E nas marcas da vara tempo
E nos nossos rios.

E nos lábios ressequidos
E na sede de mil anos
A acicatar os passos.

E nos lutos. E no silêncio dos sinos.
E no estrondo das festas
E nos arraiais festivos
E nas antigas
Danças.

E no corpete das raparigas
E nos lenços bordados
E nas gargalhadas
E nas brigas.
E nos dias ardidos
E naqueles outros pregoeiros

Te nomeio, Terra, Língua, Mátria
E te venero
E te guardo
E te digo

Gesto em que me rendo
E me entrego
deslasso
Meu olhar
Altivo.

Manuel Veiga




domingo, março 05, 2017

E POR VEZES - David Mourão-Ferreira


E por vezes as noites duram meses
E por vezes os meses oceanos
E por vezes os braços que apertamos
Nunca mais são os mesmos. E por vezes

Encontramos de nós em poucos meses
O que a noite nos fez em muitos anos
E por vezes fingimos que lembramos
E por vezes lembramos que por vezes

Ao tomarmos o gosto aos oceanos
Só o sarro das noites não dos meses
Lá no fundo dos copos encontramos

E por vezes sorrimos ou choramos
E por vezes por vezes ah por vezes
Num segundo se evolam tantos anos

David Mourão-Ferreira

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Um dia - quando eu for grande -
quero um poema assim…


sábado, março 04, 2017

FRAGMENTOS XLI



Na distância de metros um tempo de eternidades, pois bem sabemos que o tempo do pensamento é tempo sem tempo, uma corrente com suas leis de mistério, um magma que se derrama procurando os veios mais profundos da consciência e a agitação mais febril do espírito, de forma que o que se passa na mente não tem controlo, nem medida certa, evoluindo de acordo com o acaso ou as circunstâncias, sempre prontos, as circunstâncias e o acaso, a ocuparem os espaços vazios e a estimularem o fluxo permanente do pensamento e da imaginação.

Assim, o Alferes, adjunto do Comandante de Companhia de Cavalaria, a fervilhar e, em passada larga, atravessando a ampla sala de operações que, num outrora de dias ainda frescos, fora boudoir de Dona Rosalinda e campo de refregas outras, que não de guerra, assim o Alferes, dizíamos, a atravessar a sala, com a ansiedade a martelar o cérebro e o desfile dos momentos vividos, qual balanço das encruzilhadas de guerra e da vida da Tabanca, desde que das mãos do soldado Eusébio da Silva Ferreira, urbe et orbe, conhecido por “Assobio”, já não “apoucalhado” recruta, provindo dos desolados cumes da Serra da Gardunha e de seus ermitérios de solidão, mas arvorado em “impedido” da messe dos oficiais, recebera a notificação, pronta a ser lida, depois dos traços, letras e números desordenados em que a mensagem se dizia, ganharem, pelo engenho do “cabo da cifra”, expressão gramatical, ficando então a saber-se que “todos os civis iriam ser imediatamente evacuados” e, nesse mesmo dia, deveria chegar para assumir o comando, ele, o Capitão Mascarenhas, Comandante da Companhia de Cavalaria, que o despacho militar subscrevia,  a quem os desígnios da vida, os gráficos e mais papelada do Estado-maior e as ordens do Comandante-chefe da Guarnição Militar da Província haviam de atribuir aquele pacífico chão fula, delimitado pelo território da Tabanca, como “zona de quadricula”, com poderes de jurisdição militar e civil. E apreciado remanso a apascentar o resto da comissão militar, em patrulhas de rotina, depois de ano e meio de intervenção militar, nas zonas mais quentes da guerrilha, em todo o território da Província, às ordens do Comando-chefe do Corpo Expedicionário do Exército Português na província da Guiné.

Em trânsito pelos corredores da memória, atravessado por flashes tão vivos e tempos tão díspares e imagens tão densas como de um filme “nouvelle vague”, com Alain Resnais atrás da câmara, se tratasse e onde, ele Alferes, adjunto do Comandante de Companhia, capitão Mascarenhas, que, encerrado o bridge e o conhaque, ordenara a sua presença, fosse enredo e personagem.

Um estampido rouco e seco, logo seguido do estrondo cavo de morteiro e mais outro e mais outro e outro ainda, numa cadência de orquestra circense como se os disparos fossem prenúncio do espectáculo de suspense e medo, revisitado no esquentado cérebro do Alferes em direcção do Capitão Mascarenhas. Segundos que foram uma eternidade, pois bem se sabe que, nos corredores da memória, se perfila um tempo sem tempo, assim os gritos e a surpresa do ataque, as ordens gritadas, os soldados seminus de G3 aperreada, o Capitão Mascarenhas com a pistola Walter no coldre a rascunhar mensagens que o “cabo da cifra” haveria fazer seguir em grau de “urgência operacional” para o Comando de Batalhão, as G3 descontroladas num coro de desafinado de tiros sem alvo à vista, mas apenas rajada sem controlo, nem destino, a exorcizar a tensão e o medo, as ordens gritadas dos comandantes de secção e dos comandantes de pelotão, a procurarem um controle que lhes fugia sobre os soldados, em transe de nervos e tensão.

E, então, se nada o fazer prever e mesmo antes da Companhia de Cavalaria, desfalcada de um grupo de combate em missão premente de evacuação dos civis, conforme a notificação, lida, depois dos traços, letras e números desordenados ganharem, pelo engenho do “cabo da cifra”, expressão gramatical e conforme brevemente se saberá neste registo desordenado do tempo da narrativa, antes mesmo, dizíamos, da Companhia de Cavalaria recuperar seu tom e sua medida de grupo de homens hierarquicamente organizado e assentar em suas posições de defesa estabelecidas à volta da Tabanca, obedecendo, em escala devida, como um só homem às ordens de comando, antes mesmo do Alferes, neste tempo da escrita, agora ao encontro do Capitão Mascarenhas, antes porém, em tempo outro narrado, poder esfregar os olhos da cegueira momentânea e afastar o clarão violento e apalpar-se, menino de sua mãe, se vivo ou morto, antes de Alferes poder erguer-se do estampido que o projectou, quando ao encontro, não do capitão Mascarenhas, neste tempo de agora, mas, no tempo narrado, buscando o “senhor Gomes”, velho caturra e degredado, que um dia, na verdura da vida, no distante ano de 1936, com um grupo de marinheiros, seus camaradas de armas e de ideias, se rebelou contra a “apagada e vil tristeza” em a Pátria tombara e, por isso pagou com os costados em África e a Tabanca a servi-lhe de casa e abrigo, antes de toda a desarrumação dos momentos de surpresa e pânico ganharem forma e estabilidade, assim, sem nada o fazer prever, os estampidos roucos e secos, logo seguidos do estrondo cavo de morteiros se calaram, como orquestra cósmica em suspensão de movimentos ou imagem paralítica a interromper o fluxo dos fotogramas.

Da Tabanca, com a discreta e gradual recuperação dos movimentos, erguia-se agora o odor acre da pólvora e dantesca coluna de fumo e as chamas e o desespero e grito do Alferes, que atordoado ainda, galgou a distância e obedecendo, sabe-se lá a que ordem ou instinto, irrompeu pelas chamas, que a vivenda do senhor Gomes era archote aceso, happening de um espectáculo dantesco, como se Wagner, por entre chamas e fumo, regesse a infernal orquestra e o Alferes, cordeiro imolado, fosse lástima ou brinquedo das Parcas, a enfrentar o destino e a desafiar as chamas pelo interior do edifício até ao corpo ardido do senhor Gomes, marinheiro e desterrado, que nos idos anos de 1936, ousou o sonho de uma Pátria livre e justa e por ela se bateu e perdeu e que fez da Tabanca a sua Pátria, que outra não reconhecia, madrasta de seu Povo e fazedora de guerras contra os povos das colónias que oprimia e que ele, colono e desterrado, amava e compreendia e que teimara em ficar, que sua Pátria era aquela e ao destino daquela população se sentia ligado e assim o dissera à insistência do Alferes e à ordem militar que determinara “todos os civis deveriam ser imediatamente evacuados”.

E mais dissera o senhor Gomes, agora carbonizado nos braços Alferes a arder em chamas e febre, em jeito de conselho, nunca pedido, que Dona Rosalinda reclamava maternal, cobrindo seu corpo de beijos e blandícias para o “seu menino”, embora Alferes e Adjunto do Comandante de Companhia, mais dissera o senhor Gomes ao jovem oficial miliciano do Exército Português em sonhos e fantasias de deserção e glória de se colocar do lado certo da História, por entre a incredulidade e seu alívio “e tu, meu rapaz, deixa essa fantasia de desertares – e não negues que para mim basta-me a febre de teus olhos – a Revolução aqui em África é deles; tu se amas a Revolução terás tua oportunidade em Portugal” .

E assim o Alferes, agora, protegido das chamas e acarinhado pelos seus camaradas de armas, se deixou cair de joelhos com os restos mortais do “senhor Gomes” carbonizados nos braços e derramou lágrimas de sangue, por ele e pelo destino de tantos homens, que querem o bem e fazem o mal.

 

quarta-feira, março 01, 2017

Poema Apenas.


Amantíssima a noite e seus longos dedos
A urdir o espaço e o tempo na urgência dos corpos
Gramática de um canto novo
E da secreta língua
A arder no palato 
Das palavras...

Frémito a transbordar
Caudal e pétalas a inundar a boca
E a colher o gosto...
............................................
Já não poeta
Poema apenas…


Manuel Veiga