terça-feira, setembro 19, 2017

Colhe o Poeta a Cor do Sonho ...






Colhe o poeta a cor do sonho na paleta
Com as nuvens sobe a esfera onírica porém presa
E na nesga rasgada sem saber se sai ou entra
O mar ao longe...

Advinham-se corpos irreais em transparência
Reclinados sobre colchas sem memória
Como sombras pressentidas na luz imensa
Que o dia clama...

Talvez crianças caprichosas ou velhos faunos
Desfaçam a cortina ou a subtil brisa nos descubra
Desnudados sem culpa ou sem remorsos
Bárbaros e puros...

Talvez deste lado da paisagem onde beijos correm
Como ondas e os dedos do poeta se deslassam
O azul capriche no tempo breve e em suave tarde
Apenas os corpos reinem...


Manuel Veiga

domingo, setembro 17, 2017

SERENAS VÃO AS BARCAS ...


Correm límpidas as águas e leve brisa
Se anuncia nos ramos dos salgueiros.
Deslassemos os dedos, Lydia, e soltemos velas
Que serenas vão as barcas!...

De rosas coroemos a fronte
E o cais de pétalas e lírios.

Sopremos, Lydia, as barcas.
E arrostemos, sem mágoa, o destino.
Pagãos e puros.

Evoquemos os deuses. E partamos, Lydia.
Abraçados. Que serenas vão as barcas
E as águas cristalinas.

Para trás ficam despojos. E o tabuleiro tombado
E os dados. E o viciado jogo. E o tributo pago.
Cativos, fomos! Que assim, Lydia,
O quiseram os fados.

Nunca escravos.
Que poder algum reconhecemos.
Apenas o capricho dos céus e os ventos
Que nos guiam…

Provámos insidiosos frutos. E seus enganos.
E os venenos. E em sua perfídia nos jogámos.
Inteiros. E perdemos. E tudo pagámos.
Que nada devemos
Nem tememos.

Louvemos, Lydia, os deuses
Que nos quiseram lúcidos.

Mergulhemos nas cristalinas águas
E partámos, Lydia. De corpos perfumados
Amemo-nos!

Antes que a noite aconteça
E as Parcas venham…

Serenas vão as barcas
E as águas cristalinas.

Manuel Veiga

Nota: Lydia é uma criação literária de Ricardo dos Reis






sexta-feira, setembro 15, 2017

RIBEIRAS EM FLOR...


Estende-se a tarde em avental de luz coada.
E no ar, trazido pela brisa, o perfume de erva-doce
Colhida entre orvalhos e o gosto macio
De lenções amarrotados. Marcas
Indeléveis da explosão dos corpos
Ao arrepio das horas soletradas
Em contramão dos dias.

Estende-se agora a tarde como águas
Inundando as margens. Aluvião a fecundar
Desertos e sedes antigas. Que os dias se contam
Por horas. E são esparsas as marés
No alvoroço das nascentes
Em seu borbulhar festivo.

Derrama-se a tarde em cântico de matinas
E colho essa sinfónica ternura despojada. E todos os timbres.
E todos os afluentes e o murmúrio
Das cascatas dentro da memória
A declinar em madura espera

Percurso das barcas tresmalhadas
E ribeiras em flor. A arderem
Em delírio dos sentidos.


Manuel Veiga



quarta-feira, setembro 13, 2017

VESTE-SE O OUTONO DE MOSTOS


Veste-se o Outono de mostos e fermentam
Sabores na glória dos frutos que as bocas
Sequestram. Tão macios
Que se desprendem
Em promessas
Atordoadas

E permanecem no mel colhido
E nas línguas. Suculentas...

Impúberes os sonhos. Ainda.
Que humedecem os olhos
De tão claros.

Azul na vertigem. E no alvoroço
Cinzento na hora da chegada
Como restolho depois do dia
Ou despojos. Diurnos.
Antes da noite
E do frio...

De nada vale o doirado das vinhas
Nem a plangência do sol
Nem o vigor íngreme
Dos passos.

Nem a vindima.
Nem os cestos...

Outono é esta memória cálida
Fogueira onde soletro meu corpo aceso
Dulcíssima flama em que me embalo...


Manuel Veiga





terça-feira, setembro 12, 2017

FRAGMENTOS XLVIII


À hora certa, o helicóptero da Força Área, trazendo no bojo o General, Comandante em Chefe do Comando Territorial da Guiné, atordoou os céus da Tabanca e, por entre uma fumarada de poeira e calor húmido, poisou, numa dança de ave pré-histórica, no centro do aquartelamento, parada militar e campo de jogos da criançada indígena, que, à distância, observava a insólita ave e o aparato com olhar virgem, um pouco atemorizado, como quem recebe dos céus algum prenúncio misterioso e trágico, e o general-visitante fosse o deus da guerra, o que, de certa forma não deixava de ser verdade, sendo porém certo que, por outras linhas de conhecimento se manifestava a sua majestade, pois os sinais de poder e a liturgia do seu exercício atravessam todas as culturas e tempos e latitudes, bem se sabendo, no entanto, que quanto mais sofisticadas as culturas, mais subtis os sinais do poder simbólico de que os “feiticeiros”, as “divindades” e os “chefes” de todas as épocas são investidos.

O General, fardado de camuflado e as estrelas de general do Exército Português discretamente cerzidas, em cinzento, nos punhos da farda, foi  recebido naquela missão semiclandestina, que não iria constar, nem em relatórios, nem de “Ordem de Operações”, ou desenho, ou esquiço, ou despacho do Estado-maior, quando muito uma discreta nota escrita pelo seu Gabinete classificada de imediato como top secret, foi recebido à saída da aeronave, “sem pompa nem circunstância”, pelo Capitão Mascarenhas e pelo “Oficial de Dia”, na ocasião o Alferes Berros da Selva, nitidamente frustrado pela ausência do cerimonial militar, ele jovem alferes miliciano, dotado de poderosa voz de comando e apuradíssimo zelo militar, desde os tempos da recruta, nos exercícios de “ordem unida” com o pelotão, sob seu comando, a brilhar em impecável posição sentido, quais homens estátua, soldados “firmes e hirtos”, sem pestanejar, nem mexer um cabelo, “ainda que um regimento de c.lhos lhes passasse pelos lábios”. Militarão dos sete costados, a espreitar, pelo buraco da agulha, as oportunidade de “ascensão social”, mais militar que qualquer oficial, saído dos bancos e da tarimba da Academia Militar, que glória imensa seria, para o Berros da Selva, jovem miliciano, natural das Furnas, nos Açores, reciclado em Alferes, pela sua destreza física e apuro militar, provindo da Escola de Sargentos de Tavira, pois que o permanente aumento de efectivos para fazer face às necessidades da guerra, “devorava” oficiais, milicianos que fossem, para enquadrar as tropas expedicionárias e havia que fazê-los, nem que fosse à martelada, que glória imensa seria pois para o empertigado Berros da Selva, impante de solarina (e graxa) e garbo, poder escoltar o General Comandante em Chefe, dois passos atrás, como determina a etiqueta militar, a “passar revista” à guarda de honra, em apresentação de armas.

Porém, o General, em visita discreta, dispensou o cerimonial militar, para frustração do jovem oficial miliciano, de forma que, enquanto o capitão Mascarenhas e o General Comandante em Chefe trocavam palavras de circunstância, à saída do helicóptero, ou ave pré-história, conforme a perspectiva de quem olha, ambos oficiais de Cavalaria e ambos, em tempos outros, ainda na pele dos dias, a anunciar a queda do Império “do Minho a Timor”, o capitão, ainda Alferes e o General, então coronel do Estado Maior, do Corpo Expedicionário do Exército Português no Estado da Índia, ambos General e Capitão, dizia-se, ambos prisioneiros, por alguns meses, do exército da União Indiana, mil vezes superior às tropas portuguesas, a que um general outro, patriota, com sentido de dignidade nacional e sentido da História, se negou ao combate e ao massacre tão desejado pelo Salazar em vista a, no tabuleiro da política internacional, aparecer aos olhos do Mundo com mártir, derrotado embora por poderoso Exército, mas alardeando a basófia de se considerar digno dos heróis de antanho e, por não embarcar em tal logro, o patriota Governador e Comandante-chefe do designado Estado Português da Índia pagou nos calaboiços do fascismo, arrastando e arrostando a ignomínia do epíteto de general “Vacilo e Salva”, abusivo trocadilho de seu honrado nome, General Vassalo e Silva enquanto, pois, à saída do helicóptero, os dois oficiais de Cavalaria, o General Comandante em Chefe da Província da Guiné e Capitão Mascarenhas, Comandante da Companhia de Cavalaria arrastavam prolongada conversa de circunstância, o alferes miliciano Berros da Selva, provindo da Escola de Sargentos de Tavira que não da Escola de Recruta de Oficiais Milicianos em Santarém, aguentou firme e hirto, por largos minutos, em estóica posição de sentido, até que o General num gesto distraído, levando a mão direita estendida à testa, num simulacro de saudação, desarmou o impecável aprumo militar do brioso alferes, que pode assim desfazer a empertigada continência e seguir, dois passos atrás, o capitão e o general, que, em inesperada pose de paisanos, seguiam de braço dado, rumo à messe de oficiais.

“Pressinto a urgência e o teu tédio, Maria Adelaide, com esta prosa em que teimo, arredondada e recorrente, como espiral ou turbilhão que a si próprio se consome, sem deixar rasto ou marca, a não ser a poeira em que arde, e que depois de ardida se perde sem glória ou rasto, ou marco que a detenha. E sei também não ser este o “regresso a África” que desejavas, tu, Maria Adelaide, amamentada por ama negra, menina e moça, que cedo te levaram da roça de teu pai “para longes terras” em Lisboa, interna num Colégio de freira, órfã de mãe, que nunca conheceste, nem nome, nem registo, amputada assim de cuidados maternos e confidências e cumplicidades como apenas a Mãe sabe, carente de afectos que faz de ti uma mulher arisca e felina e ao teu corpo concedeu Deus a graça da expressividade de uma corça, tanto apta a render-se, como a explodir em fuga desenfreada. E sei também, Maria Adelaide, quanto te foi intrigante a personalidade de Dona Rosalinda e a sua sofrida vida, que através desta prosa arredonda, a “fazer que anda mas não anda”, como piruetas de alazão em picadeiro, te foi dado conhecer e que, sabe-se lá por que subtis fios ou caprichosos atalhos, ou acasos de vidas paralelas, ou que fascínio tentador, receias vislumbrar, não os traços diluídos do rosto de tua mãe, mas as pegadas esbatidas de tua maternidade, segredo bem guardado de que nunca soubeste e apenas uma foto amarelecida pelo tempo de teu pai, ainda jovem, no Maxime, com uma mulher seminua sentada nos joelhos te faz suspeitar.

Que te importa a visita do General à Tabanca, ou as calças do capitão Mascarenhas que não gosta de ser apanhado com as ditas (calças) na mão, ou os solilóquios do Alferes, herói acidental desta escrita sem objecto, nem sujeito, pois se sujeito houvera, na primeira pessoa seria dito, que te importa a ti, Maria Adelaide, o desafiante nó górdio que emperra os rodízios da guerra, ou a manha, que não a heroísmo – helás! – do General Comandante em Chefe de visita à Tabanca e o enorme e cavaleiresco “manguito” que o espera, que te importa a ti tudo isso atrás narrado nesta escrita redonda que tantos engulhos te causa e através de ti tantos outros e outras que te olham com simpatia, mas detestam a mão que te dá vida. Que te importa, pergunto, como se de pleonasmo se tratasse? Definitivamente – nada! A tua “guerra” é outra! É essa dor, essa ferida, que não sara, de ter uma infância solitária e mimada, nascida em África e criada com os indígenas, que o dinheiro e poder do pai, te permitia todos os caprichos, mas sem nunca conheceres a doçura de uma resposta à palavra mãe que nunca conheceste, nem nome, nem registo. Esta é a tua ferida e tua dor, cujo bálsamo aqui vens buscar numa febre de entendimento, como se a escrita em que digo e a literatura fossem fogo demiúrgico que pudessem suprir e apagar as dores do Mundo, quando – pobre literatura e pobre escrita – das dores do Mundo se alimentam.

Não, Maria Adelaide, nada te posso valer, em tua dor profunda. Apenas te digo como te vejo e apenas posso apressar o teu destino. E, por ti, abandonar definitivamente África, neste roteiro de escrita, em si mesmo, a requerer a pena capital.

Os liames da escrita, porém, são poderosos. E, nesta luta corpo com a escrita, não se pode claudicar, nem ser desleal e frustrar a emanação cristalina do seu curso e os lances ainda por dizer. Por isso, um pouco mais de paciência ainda…



   

  

sexta-feira, setembro 08, 2017

SOU LINHO ESTENDIDO...


Sou linho estendido sobre a pedra. (Como mesa...)
E o suor dos rostos em círculo. Como mito. Sei agora...
E o pão avaro.
E o rito das mãos de boca em boca
E as gargantas ressequidas.
Sou o vinho...

E sou a sombra. E a gota de água.
E a agitação do freixo. Sou a canícula e sou a raiva.
E a boina descaída sobre os olhos – basca.
E a precária sesta na aragem do dia.
Sou a ceifa...

Sou os tordos espantados de meus olhos
E a voz do amo
E o sol que já declina...

Sou os corpos debruçados sobre a terra
E o crepitar do caule e da espiga.
Sou o fio da revolta
Que não sabe ainda...

E neste horizonte de mágoa
Sou sopro de bandeira
Sou esta linha quebrada que explode
E me incendeia...

Sou este signo vazio de tudo ou nada.
E o canto das cigarras que teima...

Manuel Veiga

"Do Esplendor das Coisas Possíveis"
POETICA Edições - Abril 2016



quarta-feira, setembro 06, 2017

Sei Que Minha Liberdade...


Sei que a minha liberdade é a minha palavra
Acesa. Por vezes, serena. Porém,
Certeira – nunca justiceira!
E é a minha vontade
Que ninguém domina!

E os dados tombados sobre a mesa.

E sei que Deus e o Diabo moram nos pormenores
E em cada esquina. E que a ambos sirvo
Na minha condição de humanidade.
Em cada lance da vida.

E sei que no Juízo Final a escolha
Será minha.


Manuel Veiga

segunda-feira, setembro 04, 2017

METAMORFOSE(S)...



Sorriso flor aberta
A render-se em festa
E olhar-mágoa. Febre e lágrima
A desfazer em água.

E o poeta. Espera pura
A arder em palavra nua
E a beber o fel e o mel
Nessa metamorfose
Líquida.

Já não lágrima. Apenas
Febre e dádiva.

Manuel  Veiga



terça-feira, agosto 29, 2017

Perfeitas São as Horas ...


Alquímicas cores debruçadas sobre
O balcão dos dias.

Nesta ternura de sol poente
Perfeitas são as horas. Murmúrio dos lábios. Apenas.
Calando o tempo.

E o arfar descuidado do poema
Sobre o peito. Como ave migrando.
Contrafeita...


Manuel Veiga


segunda-feira, agosto 28, 2017

ÀS VEZES, TANTAS VEZES...


Às vezes, tantas vezes
Subo ao cume mais alto das palavras
Para dizer-te...

Nuas as palavras
E sede em nossas bocas...

Telúrico o bailado
E suaves os gestos
E os rios ...

Às vezes, tantas vezes
São tantas as supinas
Confluências…

Manuel Veiga


quinta-feira, agosto 24, 2017

ANOTAÇÕES DE VERÃO V


O vale é percurso de nascentes
Íntimas. Murmúrios de água sobre a pele
E os corpos distendidos
Estátuas tombadas
Em abandono
Como heras.

E sol de estio
À superfície.

Projecção de verde
Sobre azul no Céu. Sou esse tule.
E o sonho dessa árvore a agitar prodígios
E a clamar distâncias.
E o silêncio da tarde
A arder em febre.

Frondosas
Águas.

Manuel Veiga


segunda-feira, agosto 21, 2017

FRÉMITO DE VIDA


No dorso das coisas imperecíveis um frémito
Ligeira agitação como se invisíveis dedos
Profanassem sua quieta permanência...

Uma subtil ruptura tímida que oscila
Sem ser fenda nem passo. Ainda.
Apenas dança
A abrir-se
Em promessa
Contida.

E o palco. Aberto. Esquivo
Nesta espera
Entre a fria noite
E o claro dia...

A (re)fazer –se
Em frémito de vida.


Manuel Veiga


sexta-feira, agosto 18, 2017

FRAGMENTOS XLVII

(...)
Assim concluía o Alferes, sem que para tal fosse intimado, num tempo outro, ainda na flor dos dias, quando, balançando-se entre o voluntarismo romântico da deserção e a palavra venerada do “senhor Gomes”, o velho marinheiro, revolucionário e desterrado, “meteu na ordem” as suas verduras revolucionárias e lhe esfriou as veleidades de deserção e a empolgada ambição de se colocar no lugar certo da História, ao serviço da guerrilha.

FRAGMENTOS XLVII

Pois é, Maria Adelaide, na acção dos homens, é muito curta a distância que separa a coragem da cobardia, a glória do vitupério, a celebridade do ostracismo, o amor do desamor, ou a vida da morte e muito estreita também a linha que separa os “deveres” que vinculam e os“ direitos”, que libertam e cada um colhe ou paga de tributo à sociedade, bem se sabendo que bastas vezes uma ligeira oscilação, um capricho cerzido sabe-se lá em que acaso, ou dimensão, para que, na consciência do homens, a “realidade”, seja lá isso o que for, fique de “pernas para o ar” e o que ontem era tido como verdade hoje não passe de harpejo de dúvida quando não mesmo reverso de graníticas certezas que nos aguentam inteiros e de pé. Por vezes uma aragem, uma leve agitação das asas de uma colorida borboleta é suficiente para que, no outro lado da Terra, se houver condições para tanto, pois também as coisas e os acontecimentos são eles e as suas circunstâncias, se desencadear violenta tempestade, como hoje em dia, no tempo real desta descosida narrativa, bem se sabe, face ao reino pletórico da física quântica e seus extraordinários efeitos e feitos, que aceleram o tempo e nos lançam em permanente regurgitar de “acontecimentos” que nos submergem e, onde tantas vezes, naufragamos, mergulhados na espuma dos dias.

Calo-te o gesto e a palavra, Maria Adelaide, pois que, depois de me zurzires com o epiteto de neo-realista serôdio, pretendo evitar-te a tentação fácil de vires agora acusar-me de devoto da “post modernidade” e de um certo “relativismo moral” em que todas as ideias e valores morais se equivalem, de tal forma que nada justificará que neles nos detenhamos mais que a breve avaliação do prazer que nos proporcionam, e nos lancemos assim, sem norte, a celebrar um “hedonismo” de pacotilha para consumo imediato, pronto a usar e a descartar. A verdade, porém, é que, Maria Adelaide, tanto na literatura, aquela que é de facto literatura e não enjeita a “responsabilidade”, palavra malquista, como na vida, existem veios profundos e seres fecundos que, se não determinam eles o tempo longo da narrativa literária ou o “devir” da história, lhe conferem, porém, o rosto e a inteligibilidade, uma espécie de esteio ou pedra angular que dão sentido à narrativa ou à expressão da vida, bem se sabendo que não é a singularidade das coisas que transforma, mas a raiz delas e a seiva de que se alimentam ou a matriz em que se inscrevem. Captar, pois, a dialéctica das coisas perante o meio em que se inscrevem ou a actuação dos homens em sociedade é ler os sinais da sua evolução e naquilo em que os homens se distinguem das coisas, também os sinais da sua emancipação, enquanto ser social, o mesmo será dizer, a consciência de si próprio e do mundo que os rodeia.

Não julgues pois o Alferes, Maria Adelaide, e a sua aparente pusilanimidade, face ao seu desígnio e empolgada ambição de se colocar no lugar certo da História, ao serviço da guerrilha, pois que, no processo de maturação das ideias, o auto conhecimento das limitações e contradições dos homens e a sua vontade de superação constituem a pedra de toque por onde se afere o carácter e a personalidade de cada um. Compreenderás, assim, por certo, quão fecunda terá sido, apesar de breve, a conversa do Alferes com o velho revolucionário, Senhor Gomes, marinheiro e desterrado, que, nos idos anos de 1936, provou o fogo dos deuses e perdeu e pagou, com seu corpo, nas prisões fascistas e, depois, com o degredo naquele “cú de Judas” que é a Tabanca, ele cujo crime foi a ousadia de, com outros camaradas de armas e ideais, pretender antecipar o tempo longo da História no sonho de uma Pátria livre e justa e, por ela se bater e perder, fazendo da Tabanca a sua Pátria, que outra não reconhecia, madrasta de seu Povo e fazedora de guerras contra os povos das colónias que oprimia.

Quem, pois, o insensato que insistiria em suas “verduras” revolucionárias e no “infantilismo voluntarista”, depois de conhecer a opinião autorizada do Senhor Gomes, forjada no terreno concreto da rebelião política e nos longos anos de degredo, em que pela firmeza de carácter e consistência de suas ideias, soube granjear o respeito de brancos e negros, e sua voz autorizada e sábia era procurada e seguida, quem porventura tão néscio que sobrepusesse, à razão e à sabedoria, os insipientes e imaturos passos de uma aventura inconsequente, que leituras apressadas e uma mente imaginativa e exacerbada alimentavam? Não por certo o Alferes, que bebera, com o leite materno, a veneração pelos velhos que, na falta de outras capacidades, sempre distribuíam bênçãos e bons conselhos.   

“A Revolução aqui em África é deles e tu se amas a Revolução terás tua oportunidade em Portugal” e a frase, assim dita, com olhar cortante do velho revolucionário a atravessar-lhe a alma, ficou gravada como consigna ao longo da vida do Alferes, jovem oficial miliciano do Exército Português, Adjunto do Comandante da Companhia por acaso de graduação militar e estudante de Direito em Coimbra por passada larga de seus pais, ”aprendendo, aprendendo, sempre” com os livros e as lições de vida, dele e dos outros e, assim, ficando a saber que há “um tempo para semear e um tempo para colher” e que a História dos homens, em seu perpétuo rumor, não é uma linha recta, mas nada trava o seu turbulento fluir.

Sei de teu enfado, Maria Adelaide, bem sabendo eu qual o universo que te motiva e as razões pelas quais pacientemente me escutas. Nesta luta corpo a corpo em que esta narrativa (sem sujeito) se despenha existem umas “velhas contas”, apenas nossas, a ajustar e tu espreitas o momento. Que chegará, Maria Adelaide, maduro que esteja o tempo desta escrita circular, em que tu és o “alfa e o ómega” e a pedra angular que a sustenta.

 Mas, entretanto, regressemos à Tabanca. Temos um General à espera. E não é de bom-tom fazer esperar um General, tens razão!


Manuel Veiga  

quinta-feira, agosto 17, 2017

DEIXO QUE OS RIOS SECOS


Deixo que os rios secos e as tempestades de sons ausentes
Na memória de outros maios se inscrevam na saliva
Das palavras balbuciadas em que digo amor em fim de tarde.
E assim administrando amoras tardias em círculo de sol
Lábios ciosos destes gestos que se derramam inesperados
Frutos desprendendo-se de maduros ou chuvas
Em deserto absorvidas.

Viajo caminheiro sem pressas recostado nas bermas
Celebrando as sombras e as festivas giestas outonais
Sorvendo o mel das silvas soltando revoadas
Tordos espantados que riscam o abismo dos olhos.
E ai me perco nessa voragem matizada de cores quentes
Nos odores persistentes na humidade translúcida dos beijos
Na generosidade dos seios no declive dos lábios e no cio
Das colheitas e na sofreguidão de cestos antes das uvas-

E nas ondas que arrebatam e na ferida aberta
E nesta lava e neste de lume que me consome e nesta festa
Que explode em pulsão de madrugada.

"Gracias a la Vida!"


Manuel Veiga

terça-feira, agosto 15, 2017

VIOLENTA BRANCURA DO AZUL


Abrasa o sol nesta miragem. A distância é o voo
E a canícula. E a ave soletrando o círculo.
E o zénite...

E a violenta brancura do azul no fio de meus olhos
Agitando a brisa cálida...

E o esqueleto calcificado no restolho
Abandonado.
E o cardo seco
E a poeira...

E a gotícula lambendo a pele nua.
E os lábios gretados. E a sede das horas
E os passos sobre o eco...

E o arfar solitário.
E este latir de condenado...

Infinita esta paisagem em que me detenho
Como planície inventada
Ou voo quebrado...

Estridência de cigarra acesa
Ou secreta cotovia em alvoroço
Adejando por dentro.

E o milagre
Do canto
Inesperado...


Manuel Veiga

"Do Esplendor das Coisas Possíveis" - pág. 17
POÉTICA Edições - Abril 2016

segunda-feira, agosto 14, 2017

Anotações de Verão IV


O horizonte é uma linha curva,
Ou um ponto de fuga
Bem se sabe...

Ou talvez as velas de um barco sem leme
Enfunadas de Distância e azul breve
Roteiro além Dor
E Poeta maior!

Um pouco mais de azul
E seria Céu o dito poeta-maior.
Na tarde que arde

A esbracejar, é certo, assaz perdido
Nas águas bravias do Bojador.
Sabe-se lá com que lágrimas de sal
Ou fogoso ardor!

E que fadário é o meu! Sem barco,
Nem meta, na bocarra infecta
De um qualquer Macaréu!

Ou entre ilhas nuas e graciosas loas
Ancoradas em gentil Camaféu.


Manuel Veiga



sábado, agosto 12, 2017

Anotações de Verão III


 Cada onda um corpo aberto
Em combustão mordente. E o céu
A derramar-se num azul invertebrado.

E uma litania benigna
A tomar conta
Dos sentidos.

De súbito
Desprendem-se uns seios.
Impúdicos.

Solo de jazz. Vermelho vivo.



Manuel Veiga

Anotações de Verão II


Amável a vibração das coisas simples
E nelas o poeta laborioso bichinho alado
A afadigar-se na glória de ser.

A eternidade é um momento breve
A declinar-se em soberbo azul da tarde
Colhido na carícia breve
E na fugaz curva
Do tempo

A incendiar-se
Em sol poente.


Manuel Veiga

quinta-feira, agosto 10, 2017

Anotações de Verão I


Benignos os deuses na placidez dos corpos
Zénite de azul às golfadas de Céu e Mar

E esta brisa de sal e lume na paleta dos sentidos
A esculpir o murmúrio das marés
E a cartografia das distâncias

Paisagem de um tempo breve
No prumo solar
Dos dias.


Manuel Veiga



domingo, agosto 06, 2017

ESSA PALAVRA INSUBMISSA


Na outra margem do silêncio
Onde a palavra ferve e indomável se arrisca
A arder em fervor de penitência
E a dissolver-se inócua no magma corrosivo
Onde todos os sentidos se aniquilam –
Jogo de significações espúrias –
E no entanto teima.

Essa palavra insubmissa
Que na outra margem de todos os silêncios
Queima os lábios dos poetas e se liberta insana
E descarnada se faz cinza
Sem mais nada que a detenha
Que não seja arder
Sem mácula.

Nesse ponto-fuga da palavra exacta
Que na outra margem do silêncio explode
E se faz nuvem ou paixão acesa
Já não palavra – abre-se rosa de lume
Nas dores do Mundo –
E tempestade.

E recolhe-se exaurida e livre
E nas ardidas pétalas
Do poema –

Coisa de nada!...


Manuel Veiga


quinta-feira, agosto 03, 2017

SEI DE MEU CAMINHO


Alimento-me de gestos que meus olhos
Estão cansados do contrabando das palavras
E convenientes silêncios.

Em cada passo guio-me por prenúncios
E pelo voo das aves e seus presságios
E pelo canto das auroras no carmesim
Das nuvens.

Meu bordão é apenas o cajado a que
Me arrimo. Vara do tempo onde registo
O deve e o haver de cada encontro
Peregrino.

E as devoções que em mim visito.
E que ficam.

Nada temo!
Que nada tenho, nem nada devo.
E pouco valho.

Nem os homens, nem os bichos.

Respondo quando interpelado e distingo
O eco de meu nome. Ainda que soletrado
Num murmúrio. Ou descartado nas invejas
Ou pequenas vaidades do mundo.

Quando jogado com raiva – confesso!
Sinto gozo.

Sei ser grato, julgo. Mas para espelho
Não sirvo. Nem da festa sou o bombo.

Bem sei de meu caminho. E das pedras
Que ousam, colho estímulo
E passo.

Eu sei que passo!

Manuel Veiga

quarta-feira, agosto 02, 2017

FRAGMENTOS XLVI


Deixara pois de haver razão ou motivo aparente para as calças do capitão Mascarenhas ficarem desguarnecidas e, eventualmente, ser apanhado com as ditas calças na mão e, oficial de Cavalaria, ficar assim exposto à indignidade paisana de um qualquer desleixo. De facto, fazendo fé na argúcia do Alferes, sempre duvidosa, é verdade, que ser miliciano é congénita impossibilidade de percepção das subtilezas militares, mas acreditando que a unanimidade formal recolhida sobre os desígnios do General Comandante em Chefe na sua visita relâmpago à Tabanca, pese embora a circunstância de o Alferes não ter ainda aberto o livro de suas razões sobre a adventícia questão “onde foi desencantar ideia tão óbvia”, questão aliás que perdera fervura face ao alcance de descoberta da um novo “ovo de Colombo”, concluiu o concílio ser doutrina assente, face às razões longamente elaboradas, pois em qualquer questão, quanto mais óbvia a resposta mais elaboradas teses e profundas análises, concluiu pois o concílio de oficiais da Companhia de Cavalaria, após o bridge e o conhaque, que a ideia do General só poderia ser o incitamento à destruição da base da guerrilha, no outro lado da fronteira, “passando a bola” da iniciativa para o Comando da Companhia de Cavalaria.

E não poderá dizer-se que a maquinação do General Comandante em Chefe e dos seus conselheiros mais próximos, a ser confirmada pelos factos, pois como se sabe, os factos giram de narrativa em narrativa, quer dizer, cada qual escolhe os factos que melhor lhe servem, poderá pois dizer-se, no tempo desta prosa a marcar passo, que a maquinação do General Comandante em Chefe fora mal engendrada, não senhor, pois que os generais para isto mesmo se fizeram, para engendrarem soluções de último recurso, ou seja, desfazerem os “nós górdios” desta vida, sejam eles tecidos por capricho dos deuses ou maldade dos homens e, se é certo, que o general Alexandre, o Grande, se fez grande e dominou a Ásia Menor pelo gesto ousado de, na impossibilidade de lhe encontrar as pontas, desfazer à espadeirada o nó górdio da época e assim fazer saltar a “gerigonça” (da História), presa ao fatalismo das profecias e, bem se sabendo, por outro lado, que a solução eficaz de velhos problemas, exige tantas vezes a subversão de regras e dos métodos antigos, deverá reconhecer-se ao General Comandante em Chefe do Comando Territorial da Guiné exemplar engenho na urdidura do destino da guerra, sem a bravura, é certo, do General Alexandre, o Grande mas, em qualquer caso, brilhante na manha, digno de fazer inveja ao próprio Manholas.

Como os factos até agora vistos e aqueles outros que por aí hão-de vir no fio escrita, pese embora o fastio de Maria Adelaide, heroína a contra gosto desta prosaica narrativa, ela cujos olhos apenas vêem poesia e que tem demonstrado apuradíssimo tacto na busca do “melhor poema”, comprovam pois tais factos, conhecidos e a conhecer, que a base militar da guerrilha, instalada do outro lado da fronteira, a escassos quilómetros da Tabanca não poderia deixar de constituir espinho cravado na garganta dos Altos Comandos Militares, pois como suportar que um bando de “turras” maltrapilhos e apátridas, ao serviço de Moscovo e da expansão do comunismo internacional, “pusessem em sentido”, salvo seja, e controlassem os passos de uma unidade militar do Exército Português, tendo o Santo Condestável seu patrono, garante da protecção divina na defesa da Nação Una e Indizível do Minho a Timor e dos valores da Civilização Ocidental?

Em abono da verdade, deve esclarecer-se, que a Companhia de Cavalaria, desgastada por ano e meio de intervenção nas zonas mais activas da guerrilha, como Companhia “à ordem” do Comando-Chefe da Província e colocada agora na Tabanca para apascentar os restantes meses da comissão de serviço militar, em patrulhas de mera rotina, numa zona territorial de dominância Fula, onde até então não havia registo de guerra, aguentava estoicamente as morteiradas e ataques vindos da base militar dos guerrilheiros, no outro lado da fronteira, que, sabia-se pelas informações militares, que os boatos em circulação empolavam, pois bem se sabe que informação militar tem muitas vezes o mesmíssimo recato de uma honorabilíssima senhora que todo o mundo sabe descair-lhe o pé e gosto para “pistoleira”, mas que toda a gente finge desconhecer para assim poder manter-se a honra da dita senhora, sabia pois toda a Companhia de Cavalaria e, por maioria de razão, toda a Tabanca que a base da guerrilha fora reforçada em homens e material, mas ninguém falava no assunto para assim salvar a “ordem das aparências”. É certo que, por enquanto a guerrilha ainda não atravessara a fronteira, mas eram constantes e inesperadas as flagelações e os bombardeamentos com armas pesadas, criando permanente desgaste psicológico dos militares e das populações, de tal forma que, gradualmente, quase sem dar conta, em poucos dias, a Tabanca ficara praticamente deserta, apenas povoada pelos elementos da Milícia indígena e seus familiares, sustentados e pagos pelas autoridades coloniais. No entanto, o estradão, em terra batida, vindo do interior leste da Província, que outrora fora o principal eixo de penetração comercial, através do Senegal, rumo à Gâmbia e ao Mali, encontrava-se, do lado de cá da fronteira, por enquanto, sob o controle das tropas do Exército Português. Assim, a situação da Companhia de Cavalaria, embora desgastante, em termos estritamente militares, não era particularmente desesperada, pois, enquanto pudesse ser municiada por terra resistiria aos ataques da guerrilha sem dificuldades de maior. E, em hipotético caso, de ataque massivo da guerrilha que a Companhia de Cavalaria não pudesse suportar sempre estaria aberta uma linha de recuo e apoio terrestre. O busílis da questão, ou seja o “nó górdio” que apertava a garganta do General Comandante em Chefe e embaraçava as calças do Capitão Mascarenhas, que não gostava de ser apanhado com as ditas na mão, era a singela circunstância de a Companhia de Cavalaria não se encontrar propriamente cercada pela guerrilha, mas bloqueada pelos “ventos da História” e pela peculiar localização em cima da fronteira.

Quem em seu juízo, fora os casos de cego fanatismo nacionalista ou furor de brio militar, em verdade nunca de excluir, ousaria dar ordem de fogo eficaz de armas pesadas em direcção à fronteira, numa clara violação da soberania de um Estado Independente, reconhecido pela comunidade internacional e com posições militantes contra o colonialismo português no quadro da ONU e na imprensa internacional? 

Quem iria colocar a cabeça no cepo? Não por certo o Capitão Mascarenhas, cada vez desiludido com “os filhos de puta, instalados no Quartel-general que se estão a foder para quem arrisca o pêlo e apenas pensam nas respectivas carreiras!” e, em profundo processo de metamorfose de personalidade, designadamente, o esboroar de certezas em que fora educado e, especialmente, o ruir do ideal militar que tinha as Forças Armadas como esteio de virtudes cívicas e escola de formação de elites. Manifestamente não se vislumbrava vontade, nem força anímica, no capitão Mascarenhas para desatar o apertado nó.

Esta era, portanto, a convicção do Alferes, fundada no conhecimento dos homens e das coisas e da circunstância delas, de que o Capitão Mascarenhas, comandante da Companhia de Cavalaria jamais mexeria uma palha que fosse do outro lado da fronteira, muito menos ordenar um comprometedor bombardeamento, ainda que para aliviar a pressão da guerrilha sobre os homens e o território colocados, em termos militares, sob seu comando e protecção. E se não o faria o Capitão Mascarenhas por estritas razões militares de auto defesa, muito menos se arriscaria para o outro lado da fronteira em perseguição de um desertor, nem que fosse Alferes e seu Adjunto, em razão de acaso de graduação militar.

Assim concluía o Alferes, sem que para tal fosse intimado, num tempo outro, ainda na flor dos dias, quando, balançando-se entre o voluntarismo romântico da deserção e a palavra venerada do “senhor Gomes”, o velho marinheiro, desterrado e revolucionário,  “meteu na ordem” as suas verduras revolucionárias e lhe esfriou as veleidades de deserção e a empolgada ambição de se colocar no lugar certo da História, ao serviço da guerrilha.

Manuel Veiga