quinta-feira, novembro 23, 2017

" OBSOLESCÊNCIA PROGRAMADA "


“Os que estão preocupados com a saúde do Planeta, nossa casa comum, e que lutam contra as diversas formas de poluição, por que não lutam contra a obsolescência programada?” -  K. Marx, in Das Kapital.

"Não raras vezes as empresas fazem acordos - cartel- e, com os profissionais de marketing, introduzem deliberadamente a obsolescência na sua estratégia de venda do produto, com o objectivo de gerar um volume de vendas duradouro reduzindo o tempo entre compras sucessivas. Um exemplo poderia ser o de uma máquina de lavar roupa, que é deliberadamente projectada para deixar de funcionar cinco anos após a compra, obrigando os consumidores a comprar outra máquina para os próximos cinco anos. O mesmo se passa com as lâmpadas, material informático.

...É preciso vender, obter lucro!

Não se trata de satisfazer as necessidades das pessoas, mas de obrigá-las a comprar, a poluir o planeta!"

terça-feira, novembro 21, 2017

Ne ls Steios de l Sangre ( Nos esteios do Sangue )


Teresa Almeida Subtil, talentosa Poetisa, estudiosa e incansável divulgadora da Língua e Cultura Mirandesas quis surpreender-me com a tradução de um poema de "Caligrafia Íntima".

Agradeço muito à minha amiga Teresa esta distinção, que muito honra a minha poesia e o amável gesto de amizade, que guardo com afecto. 



Ne ls steios de l sangre i nas falas de la tierra
Q'an nós móran.
Nas fondas augas
I ne l altar de las peinhas
stremuntiadas
Ne l çponer de l sol
I ne ls maçanales i
Ne ls beneiros
D’auga.

I ne ls oulores de la tierra arada
I nas marcas de la bara tiempo
I ne ls nuossos rius.

I na sequidede de ls beiços
I na sede de mil anhos
A apressiar ls passos.

I ne ls lhuitos. I ne l siléncio de las campanas.
I ne l strondo de las fiestas
I ne ls arraiales festibos
I nas antigas
Danças.

I ne l corpete de las rapazas
I ne ls lhenços bordados
I nas risadas
I nas lhuitas.
I ne ls dies ardidos
I naqueilhes outros pregoneiros

Te nomeio, Tierra, Lhéngua, Mátria
I te benero
I te guardo
I te digo

Géstio an que me rindo
I m’ antrego
I çfaço
Miu mirar
Altibo.




Nos esteios do sangue
E  nas telúricas vozes
Que em nós habitam
Nas profundas águas 
E no altar das rochas 
Tresmalhadas
No zénite do Sol
E nos pomares e
Nos veios líquidos

E nos cheiros de terra lavrada
E nas marcas da vara do tempo
E nos nossos rios.

E nos lábios ressequidos
E na sede de mil anos
A acicatar os passos-

E nos lutos. E no silêncio dos sinos.
E no estrondo das festas
E nos arraias festivos
E nas antigas danças.

E no corpete das raparigas
E nos lenços bordados.
E nas gargalhadas
E nas brigas.
E nos dias ardidos
E naqueles outros pregoeiros.

Te nomeio Terra, Língua, Mátria
E te venero
E guardo
E te digo

Gesto em que rendo
E me entrego
E deslasso
Meu olhar
Altivo.

Manuel Veiga
“Caligrafia Íntima"  - pág. 194
POÉTICA Edições







segunda-feira, novembro 20, 2017

Rumor de Águas Capilares - Pedido de Desculpa



Para a Conceição Lima

E para o talentoso elenco de intérpretes de poesia
(Maga e magos deste inesquecível Encontro)

E todos quantos me concederam o prazer e o privilégio
 De sua presença na Livraria “Flanêur (Porto),
A propósito da apresentação

Caligrafia Íntima”



No rumor de águas capilares
No interior da terra. Apta e pronta.

E na agitação febril do sangue
No reconhecimento
Das pertenças…

E na palavra imprevista
Como quem chega - visita desejada! -
Que capricha percorrer todos os recantos.

Nos dias afluentes. E nas memórias
Dos mostos. A fervilhar distâncias.
E nos odores evanescentes.

E na rebentação dos afectos a germinar
Solísticos improváveis…

E nesta sinfónica toada de vozes a aclararem
Sons que nos habitam. E nesta gesta
De partilha na desmesura
Do fogo. E água.

E nesta candura do sol a aquecer
O corpo de outonos tresmalhados.

Se inaugura o poema
E se deslassa caudal
E se ergue em flama
A inundar o esplendor
Da tarde

E os cálidos
Esteios da amizade!

Manuel Veiga

Lisboa 19.11.2017


Este regresso ao Norte –  digamos, assim! -
Permitiu-me acertar contas com Fernando Pessoa:
                    
No Porto não se  serve Dobrada Fria!
......................................................................................................................

Inadvertidamente apaguei este post, de que publico novamente o poema. Não conheço porém maneira de recuperar os comentários, o que sinceramente me desgosta e aborrece.

Peço, por isso, desculpa aos meus amigos/as que tiveram a gentileza de comentar, sem me atrever a solicitar-lhes novo comentário, embora, como se compreende, o deseje muito.

Prometo ser menos desastrado a lidar com esta "gerigonça".

Grato.


quinta-feira, novembro 16, 2017

Caligrafia Íntima na RADIO VIZELA



HORA DE POESIA - RADIO VIZELA - Manuel Veiga


Que os Deuses Escravos Sejam...

Que as esferas girem e seu percurso
Seja incandescência. E os olhares o espaço sideral
E seu eterno movimento. E a linha dos dias
Se desenhe no rosto do inesperado.
E sejamos crivo e poalha
Ardente. 

E cada onda encontre o seu reverso.
E todos os amores e todos os afectos se façam.
E cada momento seja infinito instante.
E luminosa dádiva.

E que o fogo seja alimento de poetas.
E festivo, arda. E seja marca e glória a anunciar
As alvoradas.

E o tempo se faça insígnia. E ritmo.
E a vida dança.

E os homens sejam a fecunda chave do Universo.
E os deuses escravos sejam. Gemendo as dores
Da Humanidade.

Manuel Veiga

CALIGRAFIA  ÍNTIMA – pág- 17


PO´ÉTICA Edições

segunda-feira, novembro 13, 2017

Estão Proibidos Todos os Imprevistos


Estão proibidos todos os imprevistos
E o poeta será mandante de todos os acasos
Os dias terão vinte e quatro horas
Os meses trinta dias
E os anos serão contados pelos dedos.

E quando te encontrar terei quinze anos
Teus seios serão vibrante arpejo
Em tímidos dedos
Teus lábios o mel de todas as colmeias
E tua face o rubor
De todas as auroras

E então inventarei a palavra certa
Para te nomear desmesurada mente.

Manuel Veiga


sexta-feira, novembro 10, 2017

QUANDO VIERES - Eugénia Cunhal


Quando vieres
Encontrarás tudo como quando partiste.
A mãe bordará a um canto da sala
Apenas os cabelos mais brancos
E o olhar mais cansado.
O pai fumará o cigarro depois do jantar
E lerá o jornal.

Quando vieres
Só não encontrarás aquela menina de saias curtas
E cabelos entrançados
Que deixaste um dia.
Mas os meus filhos brincarão nos teus joelhos
Como se te tivessem sempre conhecido.

Quando vieres
nenhum de nós dirá nada
mas a mãe largará o bordado
o pai largará o jornal
as crianças os brinquedos
e abriremos para ti os nossos corações.

Pois quando tu vieres
Não és só tu que vens
É todo um mundo novo que despontará lá fora
Quando vieres.


Maria Eugénia Cunhal, in "Silêncio de Vidro"



quarta-feira, novembro 08, 2017

ALVOROÇO DA TARDE


O vento. Um nome. Uma mantilha solta.
Sem outra cor...

Apenas a pele. A letra soletrada.
A flor estendida.
A oferta.

E o carmim do beijo
Antes dos lábios...

Apenas o gesto
Não a pétala
Nem a rosa profanada...

Apenas brisa em mão aberta
E um raro perfume escondido
E o sonho da montanha.
Trepando.

E o lago dos olhos. Alagando-se...

Apenas um rubor mal desperto.
E este alvoroço da tarde
Em azul aberto.

Que de tão ténue
Resiste...

Manuel Veiga

“Do Esplendor das Coisas Possíveis”
Poética Edições

Abril 2016

domingo, novembro 05, 2017

VENHAM "FLANAR" NA CIDADE DO PORTO - Escritores.Online





No próximo dia 18, pelas 14.30 horas,
na Livraria "Flanêur", cidade do Porto, a professora 

CONCEIÇÃO LIMA
falará de Poesia, a propósito do livro de que sou autor

CALIGRAFIA ÍNTIMA
edição Poética Edições

VER
ESCRITORES.ONLINE

GRATO PELA VOSSA PRESENÇA AMIGA
E O ESTÍMULO DE VOSSAS PALAVRAS

Beijos e Abraços


sábado, novembro 04, 2017

No Dorso das Palavras Transitivas...


Estátuas derrubadas e jardins de cinza
No dorso das palavras transitivas
Fortalezas traídas por dentro.

Passos de deuses ausentes
E corredores desertos.

Que nada do que foi
Hoje permanece.

Apenas Eco. Música atonal a dissolver-se
No íntimo do silêncio.

Na eloquência de tempestades
Há no entanto uma vibração insuspeita
A adejar infrene na combustão
Da Memória.

E a sangrar dores evanescentes
E o gesto inaugural
Das Palavras límpidas.


Manuel Veiga 

sexta-feira, novembro 03, 2017

CRISE SÓCIO - ECONÓMICA E POLÍTICA BRASILEIRA na Revista SEARA NOVA



A Revista SEARA NOVA nº 2018 (Outono 2017)
apresenta, no seu último númeroum artigo sobre
a actual situação económica, social e política no Brasil,
pela professora universitária brasileira,
Cristiane Tolomei
da Universidade Federal de Maranhão

Pelo seu interesse e actualidade, transcrevem-se alguns extractos e fotos que ilustram o trabalho jornalístico.




"Mais de cinco anos sendo vice-presidente do Brasil, Michel Temer finalmente realizou o seu sonho de assumir a presidência do país no dia 31 de agosto de 2016. Um pouco mais de um ano do governo ilegítimo, Temer e seus companheiros buscam (e até o momento conseguiram muitas conquistas) aprovar cortes nos direitos trabalhistas, plano de congelamento de gastos sociais por 20 anos, aumento na idade da aposentadoria, redução de direitos políticos e a lista segue.

O pacote do horror oferecido ao povo brasileiro vem em meio à uma crise social e econômica que não parece ter fim. O Brasil vive um dos seus piores momentos da sua história: taxa de desemprego subindo absurdamente e dívidas nos municípios e estados, ocasionando sérios problemas como no caso do Rio de Janeiro que apresenta um cenário de caos tanto em relação aos descasos com pagamento de salários dos funcionários públicos, com a saúde e com a segurança pública.

Ademais da crise econômica, há uma crise social preocupante, uma vez que está ocorrendo o retorno de movimentos conservadores, racistas e fascistas, que insistem em derrubar muitas conquistas sociais tanto para negros quanto mulheres e a comunidade LGBT.

É uma triste realidade (...) corrupção e mais corrupção, escândalos e mais escândalos, que se tornaram algo corriqueiro na mídia nacional (grande parte desta mídia golpista) e no cotidiano dos brasileiros. Na verdade, nada mais choca, o crime caiu na banalidade, instituiu-se e ninguém mais acredita que a situação irá melhorar de imediato.
        
O Brasil eternamente conhecido como o país do futuro (quando acreditávamos que realmente o futuro havia chegado para nós), coloca todas as suas esperanças nas Eleições de 2018 como único meio de “sacudir a poeira e dar a volta por cima”.

Destacam-se nomes como o do ex-presidente Lula e do ex-prefeito de São Paulo Fernando Haddad, ambos do Partido dos Trabalhadores (PT), como líderes populistas e de “esquerda”, contrários à onda reacionária e conservadora liderada pelo deputado federal  Jair Bolsonaro (PSC), do ex-governador do Ceará Ciro Gomes (PDT), a luta dentro do PSDB entre os nomes do Governador de São Paulo Geraldo Alckmin e do Prefeito de São Paulo João Dória, seguidos da ex-senadora Marina Silva 



Fernando Haddad
aclamado na Avenida Paulista.

O quadro nos parece repetitivo e desolador, daí a esperança do povo no retorno de Lula para a presidência, uma vez que a memória do brasileiro ainda está fresca e sabe que entre 2002 a 2010, muitos direitos foram adquiridos, a educação e a saúde melhoraram, as pessoas passaram a ter mais conforto e tudo parecia melhor.
(…)
(Recentemente) o cenário da música, o público do Rock in Rio rompeu com o silêncio das ruas, gritando para todo o mundo o seu descontentamento com o governo do golpista Michel Temer que colocou o Brasil no quadro do subdesenvolvimento e no retrocesso do cenário internacional.

Um eco ensurdecedor contra as barbáries que rompem intencionalmente com o pacto civilizatório obtido na Constituição de 1988, ocasionando o abandono explícito da população, que volta a sofrer com as desastrosas decisões políticas.


Família nordestina
sofrendo com a fome e a miséria.

A presidente legítima Dilma Rousseff adotou o lema "País rico é país sem pobreza" em seu primeiro mandato e no fim dele havia cumprido a promessa, quando o Brasil finalmente saiu do Mapa da Fome da Organização das Nações Unidas.

Dilma Roussef e Michel Temer:
de aliados a inimigos.

Essa conquista, no entanto, foi derrotada por apenas um ano do governo ilegítimo, que passou a excluir milhares de famílias do Programa Bolsa Família, reduzir o valor investido no Programa de Aquisição de Alimentos da Agricultura Familiar, que apoia os pequenos agricultores, e desempregar mais de 7 milhões de brasileiros.

Michel Temer e seus comparsas são um tsunami, destruindo tudo a sua volta, beneficiando somente as elites agropecuárias e industriais e os banqueiros, isto é, a minoria da minoria do país, enquanto o restante dos brasileiros está incrédulo diante do que está ocorrendo no país e sofrendo as consequências das más decisões políticas. A situação é a seguinte: Michel Temer destruiu o país e liquidou a imagem do Brasil no mundo.

E os problemas não são somente econômicos, há centenas de episódios de ódio, de homofobia, de preconceito irracional em relação à raça, ao gênero e à religião que, infelizmente, ganham força no país com seguidores de Bolsonaro e o grupo de políticos que tomam decisões embasadas em suas religiões, destoando do Estado laico, defendido na Constituição.



Movimento nazi-fascista visto nos Estados Unidos também surge no Brasil, em Santa Catarina, em pleno século XXI.

(…)Diante desse brevíssimo resumo do cenário desastroso brasileiro, só podemos afirmar que as vozes de mais de 700 mil brasileiros no Rock in Rio não podem assumir sozinhos uma luta popular, que deveria ser de milhões de brasileiros nas ruas de todo o país. Todavia, precisamos acreditar que depois da calmaria, vem a ressaca. E por ser brasileira, não poderia ser diferente, e me apego na esperança de que acordemos logo ou será tarde demais para resolver a avalanche de desgraças que estão ocorrendo no Brasil e não será eleições que dará conta do recado.

Acorda Brasil”

S. Paulo, 27 de Setembro
Cristiane Tolomei

quarta-feira, novembro 01, 2017

Um Poeta Que Muito Estimo...


Um destes dias um poeta, que muito estimo,
Meio por graça disse-me que minha poética caligrafia
Era escrita à mão ainda e, se por acaso, eu sabia
Que a poesia, toda ela, hoje em dia, salta
Das entranhas do computador e se derrama
Pelas ruas citadinas em gigantes placards
E montras, não de chocolates, mas de iguarias
Bem recicladas, como noticias esventradas,
Ou bombas por explodir algures em qualquer lugar
Ou esquina do mundo. E se consome sem sal
Em fulgor hiper-realista. E se ilumina consumista
Nas escórias do luxo. E do lixo.

Eu não sabia, por isso, saí da refrega com
O rabo entalado qual cachorro de feira enxotado
Pela cozinheira, a polvilhar a mistela do dia.

Mas fiquei a matutar na minha. E como no fado
Dedilhado em que o fadista se esganiça, fingindo
Que chora, o que então não disse, vou pois
Dizer-lhe agora que prefiro a poesia me venha
À mão como “dobrada fria” em vez do arrepio
Fervilhante dos bits a formigar nas teclas
Dos computadores. E que dispenso o incenso
E contorcionismos do hip-hop. E a borbulha tardia.
E que a culinária literária me faz azia a derreter-se
Nas bocas hipermodernistas.

Ou nas tretas da grande farra das letras.


Manuel Veiga

(reedição)
..............................................................

AVISO: 

O "poeta que muito estimo" não publica em blogs !

terça-feira, outubro 31, 2017

domingo, outubro 29, 2017

Apenas a Curva da Tarde....


Nada. Absolutamente nada
Na vibração da tarde. Apenas o caprichoso melro
A saltitar de galho em galho
E um rio cá dentro...

E o céu a abrir-se na miragem
E o assédio da ave…

E o queixume do cello a lamber o ar…

Nada. Absolutamente nada!
Apenas curva da tarde a arder em febre
De lume e mar…


Manuel Veiga

sexta-feira, outubro 27, 2017

FRAGMENTOS L


Apressemos então os passos, Maria Adelaide e desembaracemos de África, que a narrativa, em que nos fingimos vida, por nós reclama e pelas veredas da escrita havemos de chegar ao afago que fomos, reviver ainda alguns momentos colhidos em contramão e cujo eco ainda vibra, como acordes longínquas de uma sonata e a dolência do violoncelo, a desenhar, no íntimo, as emoções que foram e que ambos sabemos memória reinventada.

De resto, que fazemos em Africa? Temos nossas contas ajustadas com África, tu que a vida narrada de Dona Rosalinda te permitiu espreitar para a tua própria vida e resolver o enigma de teu nascimento, pacificando a tua angústia, permitindo-te sublimar o amor de mãe, que não tiveste, no amor de mãe que te preenche. E, de facto, que te importa a ti, Maria Adelaide, a Tabanca, a degradação da situação militar, os bombardeamentos cada vez mais frequentes e intensos, as operações de patrulhamento, os dias contados pelos dedos dos militares da Companhia de Cavalaria, a dois meses da “peluda”? Um universo de causar tédio, sem qualquer claridade que possa acrescentar entendimento aos lances desta narrativa, que já de si, dizes entediante. 

Deixemos pois África e evoquemos nossos passos, num tempo outro, de refluxo de promessas revolucionárias, ali à mão de colher, “um pouco azul e seria Céu”, tempos que se finaram “capelas imperfeitas”, e “revolução inacabada”, tempos assim, então, de refluxo e apascentação de ócios, num anódino Departamento da Administração Central do Estado, tu eras quem eras, que dizer, mulher de teu marido, a enfileirar, com algum sucesso, nas hostes do novo poder político e o Alferes, que alferes já não era, mas um jovem licenciado em Direito, comunista, a que o zelo apostólico-político do Director Geral, nem um papel na secretária lhe consentia que justificasse o horário e o vencimento e que, por isso, tal secretária e tais ócios, os meus e os teus, melhor foram ocupados, em vez dos burocráticos papéis, pela graciosidade da exibição de tuas pernas, quando, num gesto de distraída “coquetterie”, sobre a mesa te sentavas, inflamando o olhar e os sentidos de teu novel amigo, pária que fosse para o Director Geral, no entanto, para ti um “must”, que nunca conheceras um comunista “assim tão perto”, de tal jeito que se, de África e da guerra colonial houvera traumas, nessa tua dádiva e no encruzamento de nossas vidas (e descruzamento de pernas), tais traumas se evaporariam.

Sim, é verdade, por África nossa, de guerra e batalhas outras, travadas na luta corpo a corpo pela sobrevivência física e de superação anímica, forjando o carácter e arrostando riscos maiores que os medos, calando fundo afectos, rostos, lugares, pedras, cheiros e sons que eram os seus e ainda hoje permanecem como uma segunda pele, nessa dialéctica entre o que somos a aquilo em que nos transformamos, nesse indizível tempo de todas as esperanças, dele e dos outros, algumas bem mais largas que seus ombros, nesse fruste lugar da guerra e vidas roubadas, por essa África, Terra-Mãe ubérrima e madrasta de seus filhos, nessa macabra dança dos homens e seu destino, nesse acaso ou nesse acinte da sorte, nessa generosidade imaculada e nessa amizade impoluta, o Alferes perdeu o seu irmão de armas, que irmão de sangue nunca teve e cuja morte, a dois de dias de regresso, ficará para sempre como eco de uma balada (nunca cantada) e o gesto tão eloquente de “acender no seu, o meu cigarro”.

Adivinho-te, Maria Adelaide, sei que te escalda a pergunta nos lábios “mas para que serve agora, num momento em que é suposto abandonarmos África e a Tabanca este repisar de uma amizade, dita e redita, com o Valentim? Apenas o teu gosto de remoer, como serpente mordendo a cauda, numa insensatez amarga que te consome sem que nada possas fazer para alterar os dias ardidos. Há mais vida para além da vida vivida, apressa-te por isso, antes que fiques prisioneiro de ti próprio, dentro desse redemoinho em que te comprazes, quando a tua lucidez fica embotada na morbidez de uma culpa sem motivo. O Valentim morreu por que assim estava escrito, não por que, em teu lugar, se ofereceu a evitar-te uma situação, que ambos sabiam ser-te incómoda, sendo que tu próprio farias o mesmo, no caso de uma situação inversa. Esquece por isso esses momentos dramáticos da morte de teu amigo, que nada, nem ninguém pode desfazer, pois que vida é para sorver nos momentos bons e cuidar, sem amargura, os momentos maus! Anima-te, meu amigo, há um tempo, lá atrás, de um beijo suspenso e um livro roubado que exijo, nessa ardência de corpos, que então éramos.”

“Sim, sim, Maria Adelaide, voltaremos, breve que seja, aos lugares onde fomos felizes, a essa impetuosa entrega, a essa dádiva pagã de nossos corpos, a esse tempo sem tempo que fingimos e, fingido somos, no milagre das palavras em que nos inventamos. Mas antes deixa que escorra a ferida, como punção dolorosa, mas tão necessária, para sarar o sofrimento e, por escassos momentos, reinventemos, nas palavras em que nos jogamos, os últimos dias da Companhia de Cavalaria, em Bissau, de regresso a Lisboa.
Sem esses momentos de escrita, toda a narrativa seria maculada de traição a uma amizade e não seriam dignas de nós, nem palavras em que nos jogamos, nem os reflexos de vida, que nunca seremos”.

O “Quartel da Amura”, instalado na fortaleza com o mesmo nome, à entrada do Rio Geba, em Bissau, que, outrora fora entreposto do comércio de escravos, era agora entreposto de chegada e partida de tropas, mistura de insígnias e militares em trânsito, ostentando fardamentos diversos, conforme o destino de cada unidade militar, de “camuflado” os militares na eminência de seguirem para o mato, invejando, por antecipação, os que estavam de partida, outros, com farda de caqui, amarelo-torrado, ou seja, os militares em gozo de férias ou em trânsito para embarcarem rumo à “peluda”, misturados com o traje civil dos oficiais e sargentos, em regime de fim-de-semana, ou em gozo de férias, pontuada a diversidade de fardamentos, aqui e ali, por uma farda branca de algum marinheiro em qualquer diligência, ou, até mesmo, um ou outro oficial do Exército, envergando a farda branca, por uma qualquer razão protocolar.

Um verdadeiro bric-à-brac de fardas e atitudes militares, pois que, como bem se sabe, conforme uma paisaníssima regra, o que nos cobre o corpo, de cada um “fala”, regra de tal forma verdadeira que contamina o próprio status militar, certos de que na sociedade civil ou na sociedade militar, tal regra deslassa na exacta medida em que se sobe na hierarquia, no estatuto e no “lugar social”, em que cada um se veste (ou despe, também).

A dois dias de embarcar para Lisboa, a Companhia era pois viva excitação. Os Oficiais e Sargentos, libertos de obrigações militares que não fossem as de rotina e reduzidas ao mínimo, passavam as horas fora do quartel, vestidos à civil, apascentando as horas, bebendo cerveja e aqueles outros mais dados a fixar recordações, fazendo fotos e comprado souvenires. As praças, está bom de ver, seguiam percurso paralelo aos oficiais e sargentos, limitados, como é certo, à sua condição básica, isto é, obrigadas à autorização de saída e ao recolher obrigatório.

Também o Alferes, adjunto do Comandante da Companhia de Cavalaria, por acaso de graduação militar e herói a contragosto desta narrativa a fazer que anda mas não anda, qual cavalo em trote em picadeiro, conforme as judiciosas opiniões de Maria Adelaide, licenciada em Línguas e Literatura Modernas, também o Alferes, Adjunto do Comandante da Companhia de Cavalaria estava desejoso por se libertar da farda e apressar os dias da “peluda”, mas ossos de ofício são mesmo ossos, quer dizer, não há forma de os evitar que não seja roê-los, de tal sorte que o Alferes, enquanto seus camaradas de armas “queimavam os últimos cartuchos” quer dizer, despendiam os últimos “pesos” e as últimas horas, na moleza descontraída, das ruas de Bissau, colhendo as últimas imagens e arrecadando as últimas emoções de África, o Alferes, herói a contragosto desta narrativa, estava amarrado à sua condição e múnus de Adjunto do Comandante da Companhia, sobre quem impendia, em primeira instância, a elaboração de relatórios diversos, descrevendo a situação militar na Tabanca, que, depois de ler, reler e assinar o Capitão Mascarenhas levaria ao Comando de Batalhão e daí para o Quartel-general e também garantir a adequada apresentação das contas e espólio de equipamento e armamento, a cargo do 1º Sargento, Chefe de Secretaria, adjuvado pelo Furriel Miliciano amanuense, pois já se sabe que, subsidiários à carreira militar de Oficiais e Sargentos do “quadro permanente”, os milicianos, fossem eles graduados em Alferes, na classe dos oficiais, ou Furriéis, na classe de sargentos, seriam eles a roer os ossos de ofício, para glória do Exército e lustro da Pátria.

Não havia pois maneira do Alferes apressar a “peluda,” agarrado que estava, por dever de ofício e ordens expressas do Capitão Mascarenhas, aos exigentes trâmites e tarefas administrativo-militares, que o regresso da Companhia de Cavalaria a Lisboa, finda a comissão de serviço, requeriam com a força e a urgência das marés e das águas do rio Geba a marcarem a hora de embarque. E, no entanto, bem sabia o Alferes que, algures na cidade, passado o eixo de pouco mais que um quilómetro de via alcatroada, nas bermas do qual se erguiam umas moradias de tipo europeu, passada a Praça do Império, espaço ajardinado, dominado pelo Palácio do Governador, nessa zona de transição, metros adiante, onde a dominância branca acaba e o crioulo começa, se erguia, em sólida arquitectura europeia, a Pensão Estrela de que Dona Rosalinda, era proprietária e gestora única e que bem poderia ser graduada em “instituição de serviço público e quiçá condecorada com a Cruz de Guerra, tão relevantes os serviços prestados à Pátria, como depósito de ejaculações e sofá psiquiátrico que, qual penso rápido, se não cura, pelo menos conforta e esconde a ferida. Enfim, desejava ardentemente o Alferes despedir-se de Dona Rosalinda, não por qualquer apetite de suas carnes flácidas, mas por que o jovem Alferes não podia esquecer que a milhares de quilómetros do gineceu familiar, em que fora criado e dos cuidados e bênçãos de sua Mãe e de suas santas Tias, ambas solteiras e virgens e zeladoras do Santíssimo Sacramento, não podia o Alferes esquecer, que algures no Mundo, num buraco negro de sua vida, uma outra Mulher sofrida, mundana e generosa, amaciou seus dias, com desvelo e carinho, e o protegeu com suas devoções e saciou seu corpo e apaziguou seu sangue, e lhe deu ânimo e afectuosos conselhos, sem os quais os primeiros tempos na Tabanca seriam porventura marcados pelo registo da Derrota. Como poderá, pois, o Alferes, mesmo em memória calcinada e de recriação do tempo vivido, num tempo, que sem rebuço, se quer literário, como poderá assim, dessas mulheres, fazer escolha de afectos, se todas elas o quiseram como filho? “Que lindo és meu filho!...” assim o quisera Dona Rosalinda, na mesma maternal ternura de passar os dedos nos seus cabelos. Julguem o Alferes, todos aqueles que, do amor de Mulher, lhe espartilham as águas …

Andava, por isso, o Alferes descorçoado. Ainda tentou uma abordagem ao Capitão Mascarenhas, que cortou cerce “nem pensar nisso, nem duas horas nem cinco minutos, você Alferes Viegas, sabe muito bem que é aqui indispensável…”. O máximo que arrancou ao Capitão Mascarenhas foi autorização para o Valentim ir em seu lugar e poder utilizar o jeep, atribuído ao Comando de Companhia. “Se ele que ir que vá e pode levar o jeep, sim”, rematou o capitão Mascarenhas, remetendo-se de imediato a outro qualquer assunto.

E o Valentim, foi. Por razões de fraterna amizade e por outras bem suas, a que não eram estranhas, certamente as notícias de que Dona Rosalinda renovara o elenco de meninas residentes.

(Continua)


Manuel Veiga

quarta-feira, outubro 25, 2017

Devoto de Meus Altares


 De sons longínquos recolho o eco e deles
Faço cítara em meus dedos. Que de minhas dores
Não sei. Nem de medida que me meça
Peregrino eu sou. E devoto de meus altares.
Nunca aio. Ou súbdito.

E a bruma que em meus olhos
Se desvanece assume então a forma de um veleiro
Que nas procelas se enfurece e vai além  
Das rotas. E amacia os ventos bem sabendo
Do furor das tempestades.

E perdulário de sonhos desenha o perfil
Das enseadas e das margens e dos portos
Em que altaneiro se despoja.

E festivo se incendeia!


Manuel Veiga

sábado, outubro 21, 2017

Cinzel de Fogo...


Gota a gota o calcário
A desprender-se da água. Murmúrio
Sobre pedra lisa. Estátuas frias
A correr por dentro.

Desenho de improváveis dedos
Num arpejo. Crisálida e ponto-fuga
A organizar o Acaso

Asas de pedra. E cinzel de fogo.
E o sopro indizível. Nome sem nome
No devir das ocultas formas.

Cântico mudo das coisas
E o gesto demiúrgico.

E a magia Palavra
A iluminar
O Mundo.

Manuel Veiga