domingo, maio 28, 2017

"DE COSTAS VOLTADAS" - Armando Silva Carvalho



Sempre agarrada aos dias, com o andar do tempo,
Tudo passa a ser um enigma, a idade é uma senhora meio
Amarrotada
A lamber os jornais e a trocar as linhas
Todas as manhãs.

Acabaram-se de vez as teorias sobre o silêncio,
É outra a filosofia dos ruídos do corpo.
Quem não arrebanhou as metáforas para o inverno da vida
Aquece quando aquece a língua e arde no frio.

Os dias são muito mais altos, parecem olhar para cima as
Gargalhadas
Os cães mais impacientes, mais cínicos,
O meu, que não existe, aprendeu a ralhar e já não ladra,
Quer ser meu compadre, - e é isto – um cómico forçado.

Nunca pensei fazer poemas destes, tão naturalistas.
Andei a reler o Campos, mas não sei subir à sua metafísica.
O homem estragou de vez a vida a muita gente.
O Eugénio é que dizia:
Com o Pessoa só de costas voltadas.

Armando da Silva Carvalho

“A Sombra do Mar” – Assírio & Alvim - Março 2017

quinta-feira, maio 25, 2017

A "Semântica" da Tributação dos Ricos,,,


Qualquer actividade humana, seja na linguagem falada ou escrita, na liturgia da acção política, no “determinismo” da economia, ou na imprevisibilidade das pulsões sociais, qualquer discurso vale sempre mais que o seu estrito “valor facial”…E quando os acontecimentos explodem em dimensão planetária, o sentido repercute-se numa profusão de leituras, que subvertem, tantas vezes, a expressividade originária e os acontecimentos, em si mesmos, ficam reféns das interpretações que deles se apropriam.

Por outras palavras, a “semântica” tende a encobrir esta realidade…

Explico-me. Uns tempos atrás, um multimilionário norte-americano, num artigo irónico, lançou o lancinante queixume para que os poderes públicos “deixem de mimar os ricos”, reclamando ser mais tributado para ajudar a saída da crise económico-financeira, com que o mundo se debate...

Ao que parece, o apelo repercutiu-se, deste lado do Atlântico, com abaixo-assinados dos próprios multimilionários, por essa Europa fora, a “exigirem” serem mais tributados e os governos - finalmente! – a fazerem de conta que sim, que vão tributar os ricos…

Na realidade, não sendo previsível que os multimilionários deste mundo se tenham conjugado todos para passarem, ao mesmo tempo, pelo “buraco da agulha” e, biblicamente, alcançarem o reino dos Céus, não pode deixar de causar estranheza esta pulsão generosa dos ultra ricos, quando muitas dessas fortunas assentam na exploração mais desbragada, se não mesmo na ilegalidade e no crime…

Mas compreende-se a lógica – o capitalismo não dá ponto sem nó!... Face a esburacada economia e à violência das desigualdades sociais, uns míseros 3%, mesmo que nada adiantem para resolver a crise, sempre darão para lavar a face, antes que os deserdados da história, lhes batam à porta. E não, certamente, para comerem brioches, mas para exigirem justiça…

E, se dúvidas houvesse (ou para quem ainda tenha dúvidas), estas cenas de ópera bufa demostram a evidência, a total perversão da soberania do Estado nas chamadas democracias ocidentais. O Estado foi expropriado de seus poderes, designadamente, dos seus poderes tributários. São os “donos do mundo” quem diz se e quando paga impostos.

Temos, portanto, sem disfarce, a “colonização”, do Estado pelos interesses de uma clique de poderosos. E, quando assim é, o Estado e a política estão próximos de atingir o “grau zero”

Remanesce ainda uma questão que diz respeito aos “nossos” ricos caseiros. Ao que parece, apesar do debate sobre a matéria, que prossegue por essa Europa fora, “os mais ricos de Portugal”  torcem o nariz à ideia de pagar mais impostos, quando os trabalhadores e os mais vulneráveis da sociedade apertam o cinto, em nome do esforço patriótico de recuperação financeira do País.

Mas os “mais ricos” de Portugal”, não! A Pátria para eles é o tamanho do respectivo património, a salvo de impostos em algum paraíso fiscal. Já se sabia – a nossa burguesia endinheirada é rapace e unhas-de-fome!...Tanto que até dói! Uma tristeza!...

Apetece mesmo desabafar que para os “nossos” ricos (como acontece com a relva) são necessárias várias gerações para poderem cultivar alguma categoria…

Façamos votos para que não tenham tempo!

Manuel Veiga

quarta-feira, maio 24, 2017

BLOG SEM COMENTÁRIOS - Mudar de Vida...






Este blog 
encerrou os comentários.
Por que sim!

"Andarei por aí ..."
Farei prova de vida
Se necessário...

Beijos e Abraços

"A ARMADILHA DA GLOBALIZAÇÃO"


Sabe-se que o conceito de Estado se associa a ideia de Estado de direito, cujos princípios, para além constituírem garantia “de forma” da acção estatal (separação de poderes, vinculação dos órgãos do Estado à lei e ao direito, controlo jurisdicional, etc.), detém também conteúdo “material concreto” de atribuição de direitos fundamentais aos cidadãos (direitos e liberdades políticas).

As garantias jurídicas de liberdade e de igualdade cívicas, que constituem o núcleo central da cidadania, foram enriquecidas ao longo do século XX pela ideia de Estado Social e pela missão nela contida de realizar a justiça social, de criar as condições reais para um desenvolvimento da personalidade e de concretizar a igualdade de oportunidades para todos.

Assim, hoje as constituições modernas, a par dos direitos e garantias fundamentais dos cidadãos, inscrevem também um vasto elenco de direitos económicos, sociais e culturais, designados por direitos fundamentais de segunda geração que, com os primeiros, integram o “acquis” histórico da cidadania.

Pois bem! A globalização capitalista põe em crise a ideia de Estado soberano, alicerçado ao longo do século XVIII e do século XIX e que teve o apogeu no século XX, ao ritmo da 1ª revolução industrial e da evolução das necessidades da economia emergente. Como é inevitável, a crise do Estado é indissociável da crise política e da cidadania e dos direitos fundamentais que a enformam.

No entanto, nunca como hoje se falou tanto em direitos humanos e direitos fundamentais dos cidadãos - aos direitos fundamentais de primeira e de segunda geração, somam-se actualmente os direitos fundamentais de terceira geração (os direitos do ambiente) e os direitos fundamentais de quarta geração (os direitos de protecção face à informática e o direitos sobre o património genético, etc.).

E, se isto é verdade, também nunca como hoje, os direitos fundamentais foram tão postergados, designadamente, no domínio concreto da acção política e da cidadania. As causas? Bom, serão muitas e variadas! Mas sublinho que o desemprego, a exclusão social e a miséria, põem a cidadania em perigo, sobretudo, “pela angústia que inspiram”. É o medo da despromoção social, de perda de emprego e de direitos, que alastram na sociedade global, que tornam os cidadãos dóceis e conformados...

Assim, fazem todo o sentido as prevenções daqueles que afirmam que, no dealbar do século XXI, a mais eminente missão dos políticos preocupados com a democracia será devolver aos Estados as suas funções e restabelecer o primado da política sobre a economia e domar o processo de globalização.

Caso contrário, no dizer de alguns autores, o processo de fusão da técnica e do comércio, inscrito no âmago da globalização, acabarão por impor à humanidade uma velocidade dramática que poderá lançar o planeta num imparável curto-circuito global.

E, como afirmam. “aos nossos filhos e aos nossos netos não restará mais do que a recordação da idade de ouro, esses anos 90, em que o mundo ainda parecia ter ordem e em que era possível mudar de rumo[i]...”

Profecia trágica? Talvez!... Mas quem contesta a urgência de, no meio da dificuldades incomensuráveis, agregar forças, energias e vontades e travar as batalhas do futuro, tendo em vista “tornar possível o impossível”?

Manuel Veiga





[i] “A Armadilha da Globalização”- Jean Baudrillard

segunda-feira, maio 22, 2017

quarta-feira, maio 17, 2017

Livraria Pó dos LIVROS - Convite



Uma História Simples 

Ao princípio, antes dos nomes,
Quando todas as coisas fluíam na inocência do porvir
Acordou, na margem, aos olhos do poeta,
Uma centelha (ou uma lágrima) fulgurante
Que a si própria se ergueu e se ungiu
Como Prodígio.
E Mensageira. 

E então todo o Caos se (des)ordenou.
E todas as cores e todos os sons. 
E todas as formas. E todas as fórmulas.
E todos os ritos se abriram. 

E todos barros... 

E todas as sarças foram chama a arder na boca
De todas as palavras.

Manuel Veiga


"Caligrafia Íntima" - pág.40

POÉTICA Edições






terça-feira, maio 16, 2017

"CENTO E DOIS SINAIS..."



Isabel Mendes Ferreira

consagrada escritora e minha amiga, sobre 
"Caligrafia Íntima":


“cento e dois sinais" neste livro de poesia a comunicar a grande possibilidade do verbo sensível culto e às vezes irónico mas sempre livre  mas sempre persistente no caminho da perfeição e se ela existir desarrumada e cúmplice o Manuel Veiga ensina-nos o caminho através de uma sobriedade enorme.

o Poeta insiste amplo e largo sistemático e lírico na ambiência dos seus outros livros retransportando  uma nitidez reconhecível em cada frase quase como se um risco contínuo atravessasse cada palavra escrita cada  respiração por ele e só por ele presentificada.

é a memória antiga a ser futuro neste presente que nos grita ao perto o grito do poeta. "verso e reverso" da sua fala que nos revisita como se uma pluma fosse e nós leitores acompanhamos o gráfico grito sossegado e íntimista de quem não ousa desistir de si.

cento e dois sinais vertiginosos a marcar esta obra. mais uma onde o Manuel Veiga nos decanta "cantando" o que o espanta."


isabel mendes ferreira/2017


sábado, maio 13, 2017

CALIGRAFIA ÍNTIMA...


A memória é imenso lago que nos devolve o rosto
Transfigurado. Pedra a desfazer-se
Depois das casas morrerem...

Itinerário de cinza
A despenhar-se
Por dentro...

Garganta apinhada e celeiro talvez
A explodir em pio de ave
Ou fissura por onde
O fogo arde
Ainda…

Manuel Veiga . in "Caligrafia Íntima"




Grato pela vossa presença
e o estímulo dos vossos comentários!



quarta-feira, maio 10, 2017

Raiz do Cântico


Solfejo de emoções
A alagar a alma. Chuvas estivais
Que se despenham
Sinfónicas
E dispersam
Mudas.

E se desenham
No ar. Abstracta pauta
E uma nota solta que brinca
Na pele dos dias.

E subtil
Se anuncia frágil
E se repete (dis)sonante
A subverter
O ritmo da chuva.
E a rima.

Raiz do Cântico
E matriz de Vida!

Manuel Veiga




domingo, maio 07, 2017

CALIGRAFIA ÍNTIMA


No pórtico da Palavra onde – marés vivas –
Todos os sentidos se dizem e se desfazem
E todos os naufrágios se arrimam
E se revestem de alegrias frustres.

Nesse lugar de imponderáveis e de riscos
E de matriz de água e incêndios alvoroçados.
Devolvo ao mar – a grande Cloaca que tudo devora –
O náufrago nome infrene
E lhe ofereço todos os salvados
E todos os “nocturnos despojos”.
E todas as miragens.

E todas as palavras mortas
E todas as palavras ainda por dizer.

E numa caligrafia íntima – minha flor de sal –
Deixo que meu próprio sol
Se derrame à flor da pele – carícia breve!
E bálsamo seja. E limpe.
E arda.

Fogo-fátuo a iluminar por dentro
Os dias de porvir.


Manuel Veiga

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Poema que dará o titulo ao próximo livro
a publicar  brevemente.

terça-feira, maio 02, 2017

GLORIOSO É O CÂNTICO.


Declinar amor em fim de tarde. Apenas
Meteorito. Voo rasgado na cidade
Sobre o presságio da noite
Que agora o Tempo
Se recolhe. Puro acaso
Soltando o fio
Dos dedos.

Frémito a boca
E o corpo margem…

E estas veredas
Água calma escorrendo
E o Sol dobrado.
O centro
E o vórtice…

Glorioso é o cântico.
E o palco.

Manuel Veiga





segunda-feira, maio 01, 2017

sexta-feira, abril 28, 2017

Caetano Veloso - Um Comunista




Solidariedade com o Povo Brasileiro
e todos os Povos do Mundo 
em luta pela Democracia
pelo Progresso Social

quarta-feira, abril 26, 2017

Poder Local - Espaço de Cidadania Activa


A propósito das Comemorações dos 40 Anos do Poder Local Democrático, interessa salientar a vocação do exercício do Poder Local na formulação de valores democráticos de participação política, que são em si mesmos, garante da plena realização da democracia, nas suas diversas vertentes de democracia política, económica e social.

Sem dúvida que a institucionalização do poder local, a par de outros elementos estruturantes (a legalização dos partidos políticos e das organizações sindicais, a emancipação do poder judicial e do poder legislativo) é peça essencial do regime político, instituído pela Revolução de 25 Abril. Sobretudo, pelo seu reconhecimento como subsistema vocacionado à realização das necessidades colectivas e a democratização da sociedade pela participação do cidadãos na vida colectiva.

Participação dos cidadãos, presente desde o início da Revolução de Abril, que se concretizou numa multiplicidade de realizações que deram expressão às mais genuínas aspirações populares, desde a instalação das “comissões administrativas” nos Municípios e Freguesias, passando pela intervenção directa, de milhares de pessoas, com seu trabalho voluntário na realização de necessidades colectivas básicas (saneamento básico, electrificação, estradas e caminhos, escolas, creches, etc. etc.)

A partir dos alvores da democracia, portanto, o poder local “antecipou”, por iniciativa dos próprios cidadãos, o seu estatuto e a sua vocação de “lugar institucional” privilegiado de interacção com as populações, permitindo, como em nenhuma outra instância, alimentar e estimular o funcionamento do sistema político.

Quer dizer, o poder local, pela sua situação particular no conjunto do sistema de poder, tende a constituir-se esfera privilegiada de realização democrática, onde assume o fulgor inaugural da ordem normativa, estabelecida pelo 25 de Abril, alargando e aprofundando os limites da democracia representativa.

Uma cidadania assumida, portanto, fecundada pela intervenção consciente dos cidadãos na preservação e afirmação dos direitos cívicos e políticos, mas também na efectivação dos direitos económicos e sociais, como condição essencial à realização dos primeiros e expressão de um espaço privilegiado de resolução de problemas do quotidiano das populações.

Ao longo dos anos têm sido introduzidas distorções nas competências e funcionamento das autarquias, que desfiguram a matriz democrática do poder local, acentuando a “presidencialização” dos órgãos executivos e a introduzindo tiques de “parlamentarismo” no funcionamento das assembleias municipais, na lógica de mera contraposição governo/oposição.

A verdade, porém, é que o sistema do poder local instituído pela ordem constitucional do 25 de Abril, mais que conflito, é consenso activo, mais que vocação unipolar de poder, é pluralidade e participação. E, porque não se podem fundar consensos “numa multidão de passividades” mas pelo contrário, os consensos se estabelecem pela “alteridade das propostas”, se compreende a importância da intervenção das populações na esfera do poder local.

A dimensão democrática da participação é, assim, factor de reforço da consciência social e política de cada pessoa perante o poder e de exigência dos seus direitos e da consequente recusa de sentimentos de dependência face a esse mesmo poder. Em síntese, o exercício do Poder Local Democrático constitui-se, em mesmo, como espaço de cidadania activa.

Perspectiva aliás prenhe efeitos e resultados que extravasam o quadro restrito das autarquias locais e que leva, por exemplo, o Presidente da República a sustentar que o Poder Local “tem sido o fusível da democracia portuguesa” e que “aquilo que é chamado de populismo não tem entrado no nosso país, entre outras razões porque há Poder Local.[i]

Manuel Veiga






[i] Conferência Nacional “40 ANOS DO PODER LOCAL” - Loures 21/22 Janeiro 2017 - pág. 280

domingo, abril 23, 2017

Nada é Definitivo...


Escultor de paisagens o tempo. E estes rostos
São agora sulcos a reclamar colheitas
E as mãos arados. E os punhos erguidos
O som das fábricas. Perdidas
Na voragem dos dias
Infecundos.

E no entanto esta torrente. E esta fonte
Que desce em cascata de palavras
Verbo que se faz carne. E ferve
Nos peitos a latejar
Rubros cravos
E bandeiras.

Nada é definitivo quando a rocha
Se abre ao fogo. Nem a memória
É fatuidade de um beijo.
Nem a Revolução um gesto
Inacabado.

Mas sim um poema sinfónico
Passo a passo a arder por dentro
Uma cadência sem idade.

E é este aguilhão e este alvoroço
E o rosto magoado deste Povo
A inscrever um tempo novo
Letra a letra
Liberdade.

25 Abril Sempre!

Manuel Veiga





quinta-feira, abril 20, 2017

Paisagem Íntima ...


Sobre as águas o cisne negro
E o suave marulhar das ondas sobre o lago
Azul a fervilhar sob a brisa
E a indiferença da ave.

Ao longe a tímida garça abrindo
A asa ao sol dolente. E a festiva dança
Do abelharuco de voo em riste.

Príncipe da tarde, prossegue o cisne
E a garça agora esboça o ritmo em redor
E todo o lago arde…

E tudo emudece. Até a adventícia ave
Encolhe a pena. E grasna.

E deste lado da paisagem nada
Acontece. Apenas o poeta e a gota de água
E a longa espera.

E o cântico do cisne em melopeia
Lá ao fundo.

(Paisagem íntima)


Manuel Veiga






segunda-feira, abril 17, 2017

Gato Sobre Azul







Ele, o centro. O gato
Sobre azul…

Calma distendida
Clama: veludo d´ alma…

E o dorso em arco.
Mar breve. Paisagem
Sobre a mesa.

Divagar
Sob teus olhos
E a placidez
Do gato.

Sol do beijo.

Talvez Magritte
E o sopro do Desejo!


Manuel Veiga





sexta-feira, abril 14, 2017

CÂNTICO de PÁSCOA


“Que quereis aqui, vós, portentosos sons,
Que do céu vindes procurar-me no pó?
Soai antes onde há corações bons.
A mensagem bem oiço, porém, falta-me a fé.
E o milagre é da fé o filho amado...”

“Àquelas esferas não ouso aspirar
Donde me vem a boa e doce nova;
Mas quando o som da infância se renova
À vida novamente quero voltar...”

“Então descia em mim a bênção
Do Céu, na paz do Sábado, serena,
E a voz dos sinos, de presságios plena,
E era um prazer fogoso a oração;
Um indizível anseio me impelia
A florestas e campos percorrer,
E entre lágrimas ardentes sentia
Que em mim um mundo começava a nascer...”

O canto veio lembrar-me os jogos de infância,
Da primavera a festa livre da alegria;
O ânimo infantil sustenta-me a lembrança
Que do derradeiro passo me desvia...”

“Ressoai, ressoai doces hinos do Céu!
Lágrima, corre! – Terra, aqui estou eu!...”


Johann Wolfgang Goethe - in “Fausto”


segunda-feira, abril 10, 2017

"A Sagração da Primavera", por Pina Bausch



Breves dias ausente de vosso convívio

Votos de Boa Páscoa

Beijos e Abraços

ERGO MEU ALTAR...


No surdo rumor das coisas a erguerem-se.
Sem mácula ainda. Apenas bailado a fermentar.
E inerte magma a abrir-se e a traçar o rosto do devir.
E as águas – matriz de tudo – a separarem-se
Em seu movimento prenunciador
De espaços e destinos.

Nesse alvor da palavra e murmúrio
Do fogo no interior das formas em esboço
Dos dias. Nesse trono de epifanias
E aleluias: grito apenas.
E na cintilação das esferas.
Nessa lonjura.

E na gloriosa febre em que nos sagramos.
E nos hinos. Ergo meu altar.
E fecundo minhas
Promessas nuas
E digo corola
E néctar.

E meu cântico. Flor de Cristal.
Mulher. Mátria. Liberdade
E dança. Apoteose
Sobressalto
E frémito.

E rubor de Poesia
Livre.

Manuel Veiga


quinta-feira, abril 06, 2017

ÁGUAS VIVAS ...


Ardem os dedos. E os olhos
Descem as pálpebras num mergulho
De íntimas cascatas.

Sou este rio e este eco. Sons difusos
Que as margens recolhem em cantochão
De águas vivas.

E sou a superfície do lago
Fio-de-prumo entre a montanha
E o sol fagueiro.


Manuel Veiga





DEAMBULAÇÕES - Donde Se Fala de Eça, de Viriato e do Asterix


Serpenteando a estrada, durante horas, sob o calor tórrido de Agosto, em processo inverso ao de Jacinto, nas “Cidades e as Serras”, a chegada ao restaurante é um momento glorioso e redentor…

Não pela fumegante canja de galinha que, decididamente, tem o amor do viajante, nem muito menos pelo horizonte literário (que bem conhece o viajante seus limites), nem sequer - vejam bem! - pelos cambiantes da paisagem, pois se o Jacinto arrostou seus martírios, trepando de mula, pela famosa serra de Tormes, o viajante, esse, afadigou-se circulando de automóvel (e ar condicionado) pelas fraldas da serra da Estrela, que ao outro dia haveria de subir até a majestade dos seus cumes.

Mas isso serão contas de outro rosário, se a tanto o viajante se dispuser a contá-las!...

No caso, a vaga similitude, que o viajante teima em encontrar com o enfastiado Jacinto, residirá tão-somente na benigna bênção da chegada, no alívio dos ossos doridos e na paz redentora, pois que, digam o que disserem estóicos e moralistas, um bom descanso e uma boa refeição reconfortam a alma.

Assim deveria ter sido, certamente, a beatífica emoção de Jacinto, após a canja!...

Não sabe o viajante se algum dia contou seu gosto por restaurantes. Não que seja expert ou requintado gourmet. Nada disso!... Mas desde que, em tempos idos, se aventurou pelas minudências antropológicas de “O Cru e o Cozido” sabe que a cozinha também “fala”, isto é, revela as idiossincrasias de um povo; e, sobretudo, aviva a memória de sabores e odores antigos, em que o viajante insiste em mergulhar …

Desceu, pois, o viajante as escadas interiores, que idas da recepção do pequeno hotel, levam ao desafogado restaurante, com janelas debruçadas sobre luxuriante paisagem. O viajante já ali estivera, em época de inverno. Quase deserto então o restaurante - com a lareira ao fundo, o ambiente dir-se-ia a reconstituição da sala de jantar de alguma dessas casas beirãs mais abastadas, que hoje são resquício apenas, submergidas pelo inexorável decurso das mutações sociais.

Mas desta vez não. O restaurante estava repleto. E o viajante, nesse seu jeito de dissolver contrariedades em ironia amarga, resmungou para os seus botões: - “Gosto de restaurantes cheios!...”

Porém, as palavras, que não deveriam extravasar o domínio de um desabafo íntimo, certamente impulsionadas pela veemência do desencanto, foram ecoar nos ouvidos atentos do gerente, que solicito se aproximava de carta em riste: - “Um restaurante cheio é sempre um bom sinal!...”, protestou ele com gentileza. - “Mais a mais - acrescentou – “não teria o viajante senão que esperar escassos minutos, pois estava a vagar uma mesa para duas pessoas, lá no fundo, junto à janela”…

Dulcificado um pouco no seu humor, pela sensatez da sentença e pela perspectiva de desfrutar cabrito e paisagem, o viajante amaciou o azedume. E a impulsiva réplica que, no calor das circunstâncias, procuraria saber se “o bom sinal” seria a benefício dos viajantes famintos ou do nutrido proprietário do hotel, não passou, por isso, de fingida provocação, sabe-se lá se a dissimular uma inquieta busca de cumplicidade…

Diga-se de passagem, que desde uma visita a Cuba, há uns bons anos atrás, o viajante tem excelente imagem da subtileza dos empregados de hotéis e restaurantes e da sua penetrante capacidade de lerem nas entrelinhas de um qualquer discurso.

Por isso, soltou então o viajante, carregando a ironia, ciente de que a palavra “crise” seria a chave no sentido e no fluir da conversa: - - “Pelo que se vê, por aqui não passa a crise!...”

O homem sorriu, fitando o viajante com seus olhos perspicazes. E bem percebeu então o viajante, que naquele sorriso e no (inter)dito das palavras se filtravam mensagens de (re)conhecimento mútuo, em ideário comum, imune aos percalços da vida...

- “Não se fie nas aparências, amigo!...” – E rematou, enquanto aviava uma conta: - “Hoje é dia de festa, os bárbaros desceram à cidade!”...

De facto, assim fora. Soube depois o viajante que, de manhã, uma luzidia comitiva ministerial havia percorrido as ruas da simpática cidadezinha…

Seja como for, também o viajante, por momentos, esqueceu a crise…

Haja Deus e promessas cumpridas!... Ainda os “escassos minutos” não haviam decorrido já o viajante estava sentado à mesa, no outro extremo da sala, que o seu ocasional amigo, despindo-se de cerimónias e salamaleques, que por bem achou dispensáveis, lhe apontou com o dedo, à distância.

A localização da mesa era de facto excelente, junto a uma janela rasgada, donde se alcançava todo o vale. E, do outro lado, toda a extensão do restaurante e seu infatigável borborinho. Tudo pois sinais promissores, tanto mais que a mesa fora coberta com imaculada toalha de linho, que a Mulher percorreu com os dedos, deliciada, na busca da textura do tecido e da delicadeza dos acabamentos…

Absorto na abordagem da ementa, entre um relance distraído pela sala e atracção da paisagem, o viajante não se dera ainda bem conta dos circunstantes comensais. Percebeu apenas que estava suficientemente afastado “dos bárbaros” para não ser confundido. E isso lhe bastou, de momento, perante a instância do estômago em protestos.

Acordou, pois, para a realidade circundante, apenas com o discreto murmúrio da Mulher: - “Aquela não é a Cremilde, ali na mesa ao lado?”. Entre o incrédulo e o irónico, o viajante girou meio corpo na cadeira, enquanto resmungava: “Que ideia! Isso é obsessão tua. Em cada uma mulher de bigode tu vês a Cremilde!”.

Verdade, verdadinha, a última coisa que o viajante desejaria era encontrar, naquelas paragens, a vizinha do 5º Direito (quem disse que o “pecado mora ao lado”?) do prédio onde habitam, nas proximidades de Lisboa.

Devo esclarecer que a Cremilde é viúva de um tipo da marinha, morenaça, sempre a explodir em seus tailleurs coleantes, que o viajante jurou um dia apresentar a seu amigo Zeca, alentejano de Beja, solteirão impenitente e protector de donzelas desvalidas, mas que, vá lá saber-se a razão, a Mulher detesta cordialmente, no que, advinha-se, é correspondida…

Não era, pois, a Cremilde na vizinhança, o que foi um alívio… No entanto, poderia sê-lo, tais as semelhanças dos traços fisionómicos, que remetiam de uma para a outra e que assumiam, na réplica rural, exageros de caricatura da Cremilde suburbana. E, não apenas no bigode, mas também na verruga do rosto, na expressão desconfiada do olhar, ou no porte avantajado de legionária …

O equívoco teve, pois, o condão de despertar o viajante de seu torpor. E, a partir dai, passou a prestar atenção aos comensais mais próximos, distribuídos por extensa mesa, a toda a largura do restaurante. Manifesto era terem descido da serra para os eufóricos festejos cívico-religiosos, certamente enfileirando nos arrebanhados (e por certo assanhados) aplausos à da comitiva ministerial…

Eram para cima de dezena e meia naquela mesa, se contarmos as irrequietas crianças, que exibiam o troféu das bandeirinhas, com que haviam, momentos antes, acenado, lá fora, à luzidia comitiva.

No topo da mesa, com o marido à ilharga, a “legionária Cremilde”, a quem nada escapava no horizonte do repasto - nem reclamações aos empregados, nem escolha dos pratos, nem recriminações às criancinhas, nem sequer a sequência das conversas e gargalhadas.

Luzia, pois, como um farol naquele mar de contentamento, em seu redor!... Uma "vera e fera" matriarca beirã, em seu esplendor de apascentar seu clã, sem fissuras aparentes, em sua heteróclita composição.
......................................................................

Chegado a este momento da narrativa, não sabe muito bem o viajante como prosseguir. E quando assim acontece, o viajante em vez de se calar, como o bom senso impõe, dá-lhe para transfigurar a realidade ao sabor da fantasia. Como caçador de imagens que acrescenta um ponto ao conto…

E é assim que o viajante, arrastado pela fibra e a imponência da “Cremilde”, se vê impulsionado para os Montes Hermínios e, num lance digno Asterix, reconhece a bravíssima heroína, nas hordas de Viriato, a desancar os “bárbaros do Império”, aqueles ignaros romanos, que sustentam sermos “um povo que não se governa, nem se deixa governar…”

Verdade ou mentira?

Seja como for, certo, certo é que o Céu teima “em cair sobre a nossa cabeça!...”

Manuel Veiga