quarta-feira, dezembro 30, 2015

LEMBRANDO NATÁLIA CORREIA...


“O Livro dos Amantes” – Excertos

 II

Harmonioso vulto que em mim se dilui.
Tu és o poema
E és a origem donde ele flui.
Intuito de ter. Intuito de amor
Não compreendido.
Fica assim amor. Fica assim intuito.
Prometido.

III

Príncipe secreto da aventura
Em meus olhos um dia começada e finita.
Onda de amargura numa água tranquila.
Flor insegura enlaçada no vento que a suporta.
Pássaro esquivo em meus ombros de aragem
Reacendendo em cadência e em passagem
A lua que trazia e que apagou.
 (...)

VII

Tu pedes-me a noção de ser concreta
Num sorriso num gesto no que abstrai
A minha exactidão em estar repleta
Do que mais fica quando de mim vai.

Tu pedes-me uma parcela de certeza
Um desmentido do meu ser virtual
Livre no resultado de pureza
Da soma do meu bem e do meu mal.

Deixa-me assim ficar. E tu comigo
Sem tempo na viagem de entender
O que persigo quando te persigo.

Deixa-me assim ficar no que consente
A minha alma no gosto de reter-te
Essencial. Onde quer que te invente.
(...)

VIII

Eis-me sem explicações
Crucificada em amor:
A boca o fruto e o sabor.

(...)

Natália Correia

13.Set.1923/16.Mar.1983

...............................

Por quê lembrar Natália Correia? Por que sim!...

Gosto. Muito!...

sábado, dezembro 26, 2015

EM CADA NOME UM RASGAR DE ÁGUAS...


Fecundemos as palavras. E seus nexos.
Na decifração dos sinais que habitam
As coisas por dizer.

Em cada nome um rasgar de águas
Qual placenta. E o grito surdo do barro sob os dedos
Talhando o rumo por ora encoberto...

E deste lado onde o poeta se agita
A espera. E a palavra inominada. E a palavra outra.
A que demora. E a que em trânsito se liberta.

Amplexos são os movimentos inversos
Em que o Verbo se faz sarça.
E lume...

Assim o dia. E o bago em bocas pregoeiras.
E as emoções aladas em cascata de sentidos.

Manuel Veiga


quarta-feira, dezembro 23, 2015

terça-feira, dezembro 22, 2015

NO GOSTO DA FAVA / QUE NA BOCA NOS CALHA...



No gosto da fava
Que na boca nos calha
Haja dente para ferrar o naco
E guardanapo para limpar
A migalha...

De queixo caído
Que fique o Cavaco
E sua tralha
A mastigar raivinhas
E o perdigoto
Que caiu no goto
Cá da maralha...

Que pouco come
Mas ninguém cala!...



domingo, dezembro 20, 2015

FRAGMENTOS XV - A conversão política de Maria Adelaide...


Vem agora, Maria Adelaide, mergulhemos neste perfume evanescente de uma solarenga tarde de Outono, deixemos que o rio passe e os ramos do salgueiro suspirem suas mágoas, entrelacemos os dedos como se Lydia foras e eu Caeiro e o calor das mãos que abandono em teu regaço nos baste como refrigério e ignoremos por momentos, ou horas, ou para sempre o Aspirante, aprendiz de Oficial de Cavalaria e fazedor de versos em segredo, o Assobio em seu doloroso percurso de “encomenda extraviada” a recruta, carne para canhão de uma castradora guerra sem fim vista, o grupinho de “reguilas” alfacinhas, com seu líder, o “Bonanza”, tipógrafo da Imprensa Nacional, ali à Rua da Escola Politécnica e, que um dia, Maria Adelaide, num tempo outro, já refeitas as mazelas da guerra, e abertas outras, ainda hoje por sarar, se é que vão sarar um dia, pois nesse tempo outro, o “Bonanza” nos causou o incómodo embaraço de confundir-te com minha Mulher, tu de óculos escuros disfarçando o choro e a mágoa e a marca negra no rosto, que os cremes mal encobriam, nesse dia te convenci que não podias admitir, que era forçoso o teu divórcio.

Esqueçamos, porém, por agora, esse dia e o João, teu marido e meu espúrio companheiro da adolescência e as personagens que por aqui se arrastam, sejam o “Bonanza” ou o “Assobio”, ou a “Papa Alferes” que espreita, ou a longínqua Lia, a gloriosa Lia, companheira das minhas brincadeiras de infância, ou o santo Padre Manuel e seu rebanho, roído pela “ferida ruim” na garganta, que o haveria de levar, não ao rebanho, que esse o levou o Demo pelos caminhos da emigração clandestina, mas a ele Padre, servo de Deus e seu ministro na Terra, a quem a ferida ruim levou garantidamente para o Céu, ou Tabanca com o “Camenino” e outros filhos da puta, com quem, por vezes, se tropeça no caminho, mas que para aqui não são chamados, ou Dona Rosalinda, em quem, Maria Adelaide, já todos percebemos, procuras, como numa imagem replicada, o “mistério” da tua vinda ao mundo, ou o senhor Gomes, que por aqui há-de passar, condenado não às galés, mas com a pena de degredo para a inóspita Guiné, ou o alferes Valentim, amigo de todas a horas, gravado no peito e que “jamais será possível, acender o meu no seu cigarro”, ou a “panache” do capitão Mascarenhas, comandante da Companhia e vagas pretensões a cavaleiro tauromáquico, ou o valente médico “Cartuchadas”, ou o coronel “Cuequinha”, comandante de Batalhão, de galões até ao sovaco e “borradinho” até aos tornozelos, todos eles se hão-de encontrar a final, em apoteose dantesca, cada um em sua barca, pó, cinza e nada, quando o veio que percorre estas linhas se extinguir e a narrativa implodir qual castelo de cartas mal-ajeitado e o autor (se autor houvesse) arder na fogueira, amarrado ao pelourinho, por entre os esgares e os impropérios do povoléu, ávido, não de sangue, mas de “sexo, mentiras e vídeo”, a escorrer na pantalha.

Mas, por enquanto, não, Maria Adelaide. Espraiemo-nos, hoje ainda, nesta onda que nos embala e nos mantém à tona e, sem cuidados, naveguemos por entre a espuma de nossos dias e os escolhos de nossos de (des)encontros e a caruma que alimenta o fogo, quase cinza, colhendo amoras tardias, sorvendo até ao âmago as limalhas que ainda queimam.

“Não te esqueças de votar no Domingo...” – soltas, inesperada, do outro lado do telefone, na tua voz aveludada, entre o sobressalto da emoção e o riso irónico.

- “Ah, és tu, Maria Adelaide! Não esquecerei. Celebraremos, de novo, juntos “a minha derrota?”... – Sorrio, com mal disfarçada ternura, bem sabendo eu o que ditava a tua preocupação cívica.

(Era assim, noutros tempos. Antes de tu, Maria Adelaide, em lucidez determinada, teres colocado ponto final na nossa relação sentimental. Marido e amante eram as duas faces da mesma moeda. A tua emancipação pressupunha a “morte” dos dois. Mas antes disso, quando tu saltavas de margem para margem, quando o João, teu marido, se afadigava em ambições políticas e, eu próprio, em campo oposto, me expunha na luta política, balançavas entre o dever e o voto do coração. E, prodigiosa, inventaste a fórmula exacta: “celebrar a minha derrota”!.. O meu campo, ainda que ganhasse, nunca ganharia!... A minha vitória seria a celebração contigo. E o João ganharia, claro, perdendo-te...

E celebrávamos, então. Retiravas da garrafeira o champanhe, acolhias-me, fremente, no apartamento da praia, em ritual de transgressão. Palpitava o desejo no brilho do olhar, no teu riso nervoso e, como gazela ferida, expunhas o gozo de beber comigo o champanhe de teu marido. Impúdica e excessiva, sempre! Como se a entrega do corpo fosse catarse da alma. Em ultraje às convenções.

O João, teu marido, não te merecia, bem cedo o compreendeste. Afinal, filho de quem era e com a promessa assumida, desde a juventude de que “haveria de casar rico” de ti se aproximou avaliando o dote, quer dizer, os “sinais exteriores de riqueza”, que tu, Maria Adelaide, ostensivamente, exibias, no decurso da tua vida académica, na Faculdade de Letras, com apartamento nas “avenidas novas”, automóvel à porta e chofer fardado. E nunca lhe perdoaste o logro. Sobretudo, quando, com a independência de Angola, a tua família regressou, ainda bem abonada, mas com o fundamental da fortuna, em café e imobiliário, perdidos no turbilhão da guerra civil e a independência da colónia. A partir daí, o João passou a ser “outro”, me confessavas, calando num sorriso amargo a mágoa e a raiva. E disso te vingavas no meu corpo.

E, quando, num momento irreflectido de maior tensão, lhe atiraste, numa estocada de ferir fundo, que, tu e eu, eramos amantes, o João, teu marido e meu “velho” compincha de férias na adolescência, passou da violência psicológica à agressão física. E garantia não te dar o divórcio, pois que nenhum “comuna lhe roubaria a mulher”, bem sabendo nós que a bombástica proclamação não passava de arruaça, com que pretendia camuflar o propósito de continuar na administração de teus bens. A situação era, porém, insustentável. Não podias admitir. Não podíamos consentir. O teu divórcio era inevitável e a melhor protecção para ti e o teu filho, que te amarrava ao casamento).

Despertei das minhas evocações, com a tua gargalhada:

- “Não, o champanhe esgotou! E o Pedro navega nas tuas águas. A tua derrota é a sua derrota”...

(Vi sinceridade na tua expressão de voz! Terias acertado, finalmente?! Depois do divórcio, duas ou três experiências de que saíste magoada! E isso doía-me. Agora o Pedro. Tremo por ti, Maria Adelaide. Oxalá...)

- “Então o Pedro não pode ser mau rapaz!”- gracejei.

(Surpreendendo-me, com a minha sinceridade):

- “Sou feliz com a tua felicidade, bem sabes!” – E, em íntimo temor:
-“E este te telefonema, Maria Adelaide!... Será que não “precisas” de falar comigo?” - Acrescentei, acentuando as sílabas.

(Que não!... Que está tudo bem. Que gostas de dar aulas e que o Pedro é carinhoso. E o teu filho gosta dele. São dois compinchas...)

Senti a tua voz embargada: -“Um dia destes falamos!” - Murmuraste, bem sabendo, tu e eu que “um dia destes” não tem prazo, nem horizonte...

-“Claro, Maria Adelaide, claro que falaremos. Sempre... Até lá, procuremos comemorar as nossas “vitórias” – acrescentei, em amarga ironia.

(Ficamos assim em silêncio. Minutos, de séculos. Depois, ambos recompostos, falamos de tudo e de nada. Dos amigos comuns. Das velhas e novas amizades. Do quotidiano. Inquiriste. Disse o que devia...)

Do outro lado, o veludo da tua voz. Excitada. Quente. Acolhedora:

-“Tenho que ir. Cuida-te...” - e, num assomo de provocação, que tanto cultivavas: -“Fica sabendo que, desta vez, vou votar no “teu” Partido. O Pedro merece...”

Despedes-te com uma gargalhada...

(Que posso dizer-te, Maria Adelaide? Que és sempre bem-vinda!...)



terça-feira, dezembro 15, 2015

FRAGMENTOS XIV - O Baptismo do "Assobio"...


Regressemos, pois, ao Alferes, que ainda não era, mas apenas Aspirante, e à “tropa fandanga” em que o pelotão, sob seu comando, se estava a transformar. Ainda mal sarado fora o “medir de forças” com o grupinho de reguilas alfacinhas do bairro de Alcântara e aparecia agora aquela “encomenda extraviada”, provinda dos cumes da Gardunha, que, em vez de falar, grunhia e trocava os pés pelas mãos e para quem a voz de comando do jovem oficial ou a paciência dos “instrutores”, graduados em cabos milicianos e, em devido tempo, furriéis, quando, a dois dias de embarcarem para a Guiné, também os doirados galões em diagonal do Aspirante, forem substituídos pelos horizontais e também doirados galões de Alferes, com o esplendor de todo o Batalhão em farda de gala, formado na parada, numa cerimónia ilustrada pelos mais altos galões, dragonas e estrelas dos generais da Região Militar e a solene e inestimável bênção do Cardeal Cerejeira, Patriarca de Lisboa, que Deus haja, cerimónia essa, (que mais tarde seria), voz de comando ou paciência evangélica dos denodados cabos milicianos, futuros furriéis, ocupavam o mesmíssimo plano na casmurrice horizontal do Assobio, que outra dimensão não atendia que não fossem as subtis hierarquias estabelecidas pelas leis da sobrevivência no alto da serra da Gardunha, que ele, Assobio, (antes de o ser), bem conhecia e, a seu favor, supinamente manobrava.

É que outras regras, o Assobio não conhecia, nem elas – as regras – se importam com Apoucalhados, pois que outra coisa não visam, as regras ou normas, que não seja estabelecer a normalidade universal, ou seja, que cada recruta não “mije fora do caco” e, em prontidão absoluta, as ordens de comando seja cumpridas – Ámen! - seja quem for que no poder esteja investido, cabo miliciano, comandante de secção de um pelotão em recruta, Alferes, Capitão ou General, ou o todo-poderoso Hamurabi com seus códigos e leis.

As coisas, porém, estavam a ficar feias no pelotão. O “Apoucalhado” recruta, em vias de ser Assobio, amuava, ficava nas suas realíssimas tamanquinhas, não tugia, nem mugia, sendo previsível que, no seu íntimo, soltasse um valentíssimo manguito para as vozes de comando, os gritos ou à chacota dos seus camaradas ou às soleníssimas cerimónias militares.

O mais grave da questão, porém, era a influência nefasta que contaminava a ”ecologia” do funcionamento do pelotão, pois bem se sabe que, em qualquer organismo vivo, social ou orgânico, quando qualquer das componentes, por desprezível que seja, não se encontra devidamente integrada, pode ser o pequeno grão de areia, que emperra todo o sistema, máxime, destruindo toda a sua orgânica e funcionamento.

Disso se dava conta e velava o capitão Mascarenhas, comandante da Companhia, com vagas pretensões a cavaleiro tauromáquico, oriundo de velha cepa monárquica do Douro, que solenemente proclamava que “os homens, como os cavalos, se educam com ração e chibata” e, se não prestam para o “volteio”, sempre servem para a carga e, senão para a carga, certamente para o talho e, então, batendo com o pingalim na bota de cano alto, proclamava alto e bom som que o Alferes, que ainda não era, estava a ficar mole com o recruta tresmalhado, provindo dos cumes da Gardunha.

Ora, o Alferes tinha por bem certo que o recruta tresmalhado cavalo de volteio jamais seria, porém, alguma coisa, nas linhas do rosto, no olhar inquieto e tímido e na expressão da linguagem corporal de animal acossado, mas não vencido, sim, alguma coisa, intuição ou fezada, lhe dizia ao resiliente Alferes que a criatura, cavalgadura ou apoucalhado, poderia ser recuperada; em suma, o jovem Aspirante, que Alferes ainda não era, negava-se, em sua generosidade, a enviar o Assobio, que estava prestes a sê-lo, para o matadouro, isto é,  recambiado, como encomenda inútil, para os cumes da Gardunha, onde desceria mais um degrau na escala da desgraça e da desconsideração social, pois não se iria livrar do labéu que “nem para a guerra servia”... E, então, qual a rapariga casadoira o iria pretender, ainda que, como ele, “apoucalhada” pela vida?  

O ponto, para o Alferes (que meses depois seria), estava assim em saber decifrar, num ou outro assomo de sociabilidade do “apoucalhado” recruta, logo, tal assomo, recolhido à mínima interpelação por amigável que fosse, a pequena diferença escondida, a latência de possibilidades inesperadas, com que sabiamente a Natureza compensa seus desvios perversos ou os disformes aleijões que as humanas criaturas a si próprias se infligem. No caso, a questão era, portanto, saber, exactamente, qual o quid, o código secreto, o subtil movimento, ou pequeno grão de coisa nenhuma que iria iluminar a mente descuidada do Alferes, de forma a poder organizar a gramática de entendimento do “apoucalhado”, enconchado em permanente em tensão defensiva, como amiba em meio hostil, que não consente tubo de ensaio ou lupa.

Acontece que o jovem oficial, desde os tempos de rapaz, quando, briosamente, alimentava, todos os anos, pela Primavera, desafios de vida ou de morte com um melro trocista e cantador, estimulado pelo Zé Fardela, pastor na casa paterna, (que outra casa, ao longo da vida, outra o rapaz teve tão sua) aprendera a imitar o assobio trocista do melro, talento indispensável para a peleja, canto em que ainda hoje se refugia quando alguma amarga inquietação o toma, como que a “assobiar para o lado”, de tal sorte que o Alferes, manifestamente preocupado, face à incapacidade em dar “aparência” de soldado ao casmurro do Assobio, mínima que fosse, que lhe evitasse o açougue, quer dizer, que lhe evitasse a remissão à procedência, nos cumes da Gardunha, como encomenda perdida, acontece assim que, num momento de evasão, com o pelotão descontraído na parada, em intervalo de exercícios militares, inadvertidamente, tombam dos lábios do jovem oficial, denunciando a sua preocupação de momento, umas distraídas e mal audíveis notas assobiadas do que se presume fosse o cantar de um melro.

Como se compreende, indiferentes ao canto dos pássaros e aos desígnios das ocultas veredas da alma do assobiador, nem os recrutas, nem “cabos milicianos”, comandantes de secção, futuros furriéis meses mais tarde, nem o próprio Aspirante, ele próprio, que Alferes ainda não era, se detiveram naquele despercebido e inconsciente assobio, desenxabida imitação de cantar de melro. Apenas o Apoucalhado recruta, que Assobio ainda não era, mal caída a primeira nota daquele arremedo de canto, disparou como uma mola contida, narinas fumegantes e fogo nos olhos, como se alazão fosse, a quem assentam, pela primeira vez, a sela e, em inquieto alvoroço, fixou o Aspirante, não se sabe se para o fulminar, se para lhe agradecer o conforto de um som familiar.

Assim, o considerou o jovem oficial que, em tão veemente reacção, pressentiu ser o canto do melro, distraidamente soprado em ruminação de seus cuidados, a pedra de toque, o signo e código secreto, gatilho ou espoleta, seja o que for, que haveria de abrir a mente do “apoucalhado” recruta, a jogar-se, como promessa retardada, no destino das humanas criaturas e seu atávico desígnio de apenas poderem sobreviver em sociedade. Insistiu, por isso, o Alferes, no sopro, arremedando o pássaro, observando os mínimos sinais e a distensão do rosto do recruta, que em breve seria entronizado como Assobio, e atreveu-se a um cúmplice piscar de olho, quando o rosto daquela encomenda extraviada se iluminou, por momentos, no que, ao jovem oficial, se lhe afigurou como tímido sorriso.

E, então, inesperadamente, como por encanto, provindo dos confins do Universo musical, como se de uma flauta mágica se tratasse, ou pífaro de prata, caldeado pela divina Euterpe, o harmonioso canto do melro, em todos os seus timbres delicados, desprendeu-se, afinado e arrebatador, no cristalino sopro dos lábios do “Apoucalhado”, com o Alferes procurando dar réplica, em seu frustre talento de assobiador.

E, assim, se mantiveram, por largos minutos, como dois “apoucalhados” fora do Mundo, o Apoucalhado, ele próprio, como primeiro pífaro, a repenicar o canto esquivo do melro e o Aspirante assobiador, a tropeçar nas notas mais subtis do canto. Agora era visível o rubor de contentamento no rosto do tresmalhado recruta, perante o restante pelotão, que atraído pelo insólito espectáculo rodeava o Assobio, que naquele transe iria sê-lo, e o jovem oficial, comandante de pelotão, que persistia e insistia no concerto, perante a perplexidade dos seus comandados.

- “Agora o canto da Cotovia!...” – sugeria o Alferes, entre o desafio e a sedução. E resposta vinha imediata, no assobio treinado do “Apoucalhado”, que, perante a cumplicidade do jovem oficial e o alagar do circulo de recrutas, que escutavam embebecidos, requintava nos trinados. E depois da cotovia, a toutinegra, o pintassilgo, o faustoso gaio, o estorninho, o arrolhar dos apaixonados pombos, o voo espantando de perdizes e por aí fora, num matizado naipe de sons e cantos que surpreendiam pelo primor da execução e pelo inesperado talento de um “apoucalhado” recruta em risco de ser recambiado, como encomenda fora de prazo, por incapaz e má figura militar.

Como facilmente se compreende, o grupinho dos alfacinhas reguilas do bairro de Alcântara eram, entre os recrutas do pelotão, os mais embebecidos e entusiasmados admiradores do inesperado talento do recruta “apoucalhado”, pois que, fora o grito murcho das gaivotas, adivinhando tempestades, ou o piar de algum pardalito ladino, caçando migalhas por entre as mesas da esplanada, ou o canto colorido do canário da menina, em alguma janela do bairro, a despertar pulsões de desejo aos gatos vadios, outras aves canoras, ou outros cânticos campestres, os alfacinhas conheciam, nem a superioridade da sua condição urbana e operária, lhes permitia admitir que o campo e a serra pudessem criar outra coisa digna de registo, para além dos nabos. Tinham, porém, ali, à vista de todos, o desmentido dos desmentidos e a prova provada de que todos e cada um tem seu préstimo e seu oculto talento e quando o sol nasce a todos deve, por isso, cobrir com a mesma dignidade.

E, então, os reguilas alfacinhas, como se celebração iniciática fosse, rodearam o “apoucalhado” num círculo fechado, deram as mãos e o reconheceram como seu.

E logo ali o nomearam:"ASSOBIO".  




domingo, dezembro 13, 2015

TORNA VIAGEM...


Encobre-se o poeta em seu nome
E assim emboscado
Recolhe a graça
E se faz Mar
E barco...

E se unge
E se alcança
Marinheiro...

Torna-viagem de si próprio arde.
E na amurada do sonho funde as rotas
E todos os mapas. E em todas as praias
Aporta. Peregrino...

Em cada enseada se derrama.
E em todas as ilhas cativo.

E é mastro altaneiro. E gávea.
E é o alvoroço inaugural das ondas.
E o corpo em flor de Nereide.
E o canto enfeitiçado...

Tece agora em seu diário
A ortografia da viagem.
E o assombro. E a vertigem.

E em registo cifrado
Tabelião de desacertos
Resguarda-se.

E desdizendo-se se faz rota.
E do sangue incendiado
Se faz Grito.

É companheiro de brumas
E Argonauta de todas as demandas.

E de todas as âncoras
O prodigioso dia!...

Manuel Veiga





sexta-feira, dezembro 11, 2015

"QUANDO VIERES..." - Maria Eugénia Cunhal....


“Quando vieres
Encontrarás tudo como quando partiste.
A mãe bordará a um canto da sala...
Apenas os cabelos mais brancos
E o olhar mais cansado.
O pai fumará o cigarro depois do jantar
E lerá o jornal.

Quando vieres
Só não encontrarás aquela menina de saias curtas
E cabelos entrançados
Que deixaste um dia.
Mas os meus filhos brincarão nos teus joelhos
Como se te tivessem sempre conhecido.

Quando vieres
Nenhum de nós dirá nada
Mas a mãe largará o bordado
O pai largará o jornal
As crianças os brinquedos
E abriremos para ti os nossos corações,

Pois quando tu vieres
Não és só tu que vens
É todo um mundo novo que despontará lá fora
Quando vieres....”

Maria Eugénia Cunhal - in "Silêncio de Vidro" – Edição da Autora - Lisboa, 1962
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O poema de Eugénia Cunhal foi dedicado a Álvaro Cunhal, seu irmão, 14 anos mais velho.

Álvaro Cunhal sofrera, durante 11 anos consecutivos o horror das prisões fascistas, donde, com outros camaradas, se evadira, dois anos antes, numa saga heróica. E, entretanto, tinha saído clandestinamente do país, no desempenho de suas tarefas de direcção do Partido Comunista Português.

Regressou, finalmente, ao País em 1974 – e o poema cumpriu-se!


Faleceu agora a Poetisa, Maria Eugénia Cunhal.

Sobre Vida e Obra de Maria Eugénia Cunhal ver  Centenário A.Cunhal

quarta-feira, dezembro 09, 2015

GRAÇA PIRES - "UMA CLARIDADE QUE CEGA..."


“Trago na areia uma linha em movimento
De onda e rodo sobre mim mesma
Quando as marés me bailam nas ancas.
Esta dança é em mim errática sedução.
O interlúdio da seda perfumada
Em que me envolvo.
O jogo sensual no chão do peito,
Como grito erguido sobre a língua.
Vem, cadência de música!
Suspende o silêncio que escorre
Em pausas onduladas como água.
Acrescenta-me à partitura
Ou ao gesto ensaiado e cerzido
Nas rugas de meu corpo.
Vem e desliza inteira no êxtase de luz.”

Graça Pires – “Uma Claridade Que Cega”- Poética Edições – pág.13

“Cravo as unhas na carne da indiferença.
Escrevo sangue
Com lápis gasto pela culpa acorrentada
À cegueira que desfoca os olhares
Na bastardia dos abraços.
Digo fome
Com os dentes colados à secura dos trigais
E às sobras rapadas nas latas de lixo.
Leio dor. Dolorosamente.
Em lugares desabrigados,
Em portas franqueadas aos rasgões
Da vida rondada pela morte”

Graça Pires – “Uma Claridade Que Cega”- Poética Edições – pág. 33


Parabéns, GRAÇA. Belo teu novo livro! 

domingo, dezembro 06, 2015

FRAGMENTOS XIII - Sermão em Louvor dos "Apoucalhados"...


Passemos, então, por cima dos dicionários e, salvo seja, por cima da insigne doutora Maria Adelaide, licenciada em Línguas e Literatura Modernas, heroína desta fita e amiga dilecta do autor seria, se autor existisse, lavrando assento, uma vez por todas, que o Assobio é mesmo “Apoucalhado”, isto é, o Assobio não é diminuído ou apoucado das normais qualidades psíquicas, que cada um de nós exibe e arrasta, por vezes, florindo em meio propício, outras definhando em meio hostil, de uma qualquer inóspita Serra da Gardunha. O Assobio, “pobre de espírito” que é, não reflecte, porém, um “apoucalhamento” consequência ou reflexo de um qualquer desejo maligno e perverso de vontade humana em apoucar os pobres de espírito, ou semelhantes, mas antes constitui exuberante afirmação do “estado da natureza”, que lhe moldou a personalidade e o carácter, dignos, aliás, em sua íntima fusão, natureza e “personalidade apoucada” de sábios estudos e doutas opiniões antropológicas. Dir-se-ia, assim, para não ferir a erudição sensível dos gramáticos mais atentos ou, mais grave ainda, para não ferir as susceptibilidades de Maria Adelaide que o “Assobio” é um “pobre de espírito”, o que só o engradece, pois que a humanidade está repleta de “pobres de espírito” e, não raras vezes, na história, a sua sorte, dela humanidade, esteve dependente do capricho de um qualquer “apoucalhado”, perdão, de um qualquer “pobre de espírito”. Aliás, como bem se sabe, na antiguidade os apoucalhados eram seres de eleição e, por eles, os deuses enviavam recados aos restantes e ajuizados mortais, a anunciar desgraças ou a vinda de dias faustos, como também a Bíblia reserva, aos “apoucalhados” especialíssimo lugar no Além, pois que “bem-aventurados são os pobres de espírito, que deles é o reino dos Céus!...”

“E se bem reparares, Maria Adelaide, a tua própria sina é marcada indelevelmente pela constância dos “Apoucalhados”. Não carregues a contrariedade, minha querida, pois é mesmo como te falo, bem como esta narrativa, que outra coisa não pretende ser senão o embotado reflexo do espelho em frente do qual nos desnudamos teria justificação ou sentido, nem, porventura, haveria narrativa, pois que, nela, a tua existência não seria sem um "apoucalhado" a intervir no âmago de tua vida. Bastaria, para tanto, que, algures perdido num lugar distante, não nos inóspitos cumes da Gardunha, mas noutro local mais interior ainda, onde o santo padre Manuel, tio de Lia, a sereníssima e imperial Lia da minha infância, já roído da “ferida ruim” que o haveria de levar, não tivesse ungido, com o nome João, na antiquíssima e românica pia baptismal da Igreja Matriz, um robusto infante, filho do Zé Manhas, jogador da batota e cantador de fado, sem nada de seu que não fosse sua desempenada figura e a poderosa “lábia”, casado com a senhora tua sogra, donde saíra o rebento, que teimou, a exemplo do pai, na ganância de que “haveria de casar rico” e que a ti, Maria Adelaide saiu na rifa, para descanso de teu extremoso Pai e o amaciamento de tuas “verduras” contestatárias, como jovem universitária, que fostes.

Ora todo o enredo da tua vida, todos os nós de acaso, apenas ganham sentido porque um “apoucalhado” lhes dá coerência e sentido, pois se ele não fora, se “pobre de espírito” não fosse, nunca, por todos os “nunca” possíveis, o Zé Manhas, jogador de batota e cantador de fado, por afinada que fosse sua “lábia”, jamais levaria ao altar a mãe do João e tua futura sogra e com ela o robusto património dos três irmãos órfãos, pois que, se “apoucalhado” não fosse o irmão do meio, de sexo masculino, seria dele naturalmente, pela sua condição de homem a administração da próspera casa de lavoira e não da irmã mais velha, valente senhora, mas mulher, e então o “vivaço” senhor teu sogro, conhecido pelo Zé Manhas, se ao assédio sentimental se atrevesse, levaria uma exemplar corrida de pau, face ao atrevimento de ousar órfã, sua irmã, rica e prendada, fora do alcance e dos sonhos de um qualquer “pilha galinhas”, perdão, pilha donzelas, e tal inadmissível casamento não seria realizado e, portanto, não teria sido e, então não existiriam, nem sogro, nem João, teu marido, meu amigo de infância, nem certamente aproximação entre nós, nem as tuas pernas descuidadas teriam oportunidade de se sentarem no tampo da minha secretária, para deslumbre e prazer meu, nem haveria a gloriosa Monica Vitti, nem Antonioni, nem o “Eclipse” no cinema Quarteto, nem beijo ardente, nem nossos corpos, nem febre do desejo e nossas vidas outras seriam e outros os fragmentos, se fragmentos houvessem, em vocação de literatura.

Por isso, Maria Adelaide, não julguemos os “apoucalhados”, nem queiramos a barca que levarão suas almas, nem menosprezemos os seus poderes (ocultos), que muito bem podem, sem nos darmos conta, determinar o destino do Mundo, quiçá do Universo. E se, outro mérito não tiverem, servirão, ao menos, os “apoucalhados” para testemunhar a fragilidade dos “acasos”, em que nossas vidas de despenham.

Aliás, Maria Adelaide, o próprio “Assobio”, o “apoucalhado” ou “pobre de espírito”, que chegou à recruta militar, com três dias de atraso, como encomenda extraviada e de que temos vindo a falar, pois dele decorre o emaranhado fio que mantém à tona a narrativa, que, aliás, no tempo e no modo, lhe é absolutamente estranha e que apenas o “corpo mítico” da escrita lhe permite o (in)sustentável peso para nela figurar, irá ter, como adiante se saberá, decisivo lance na evolução deste enredo, abrindo o palco à crepitosa “Papa Alferes” e sua zelosa tia, que teimam em assomar ao proscénio, como que fazendo-te pirraça e a atrasar a tua performance. 

Mas, por enquanto, não. Desvendemos primeiro o “mistério” do nome do “Assobio". 

Breve, breve!...


quarta-feira, dezembro 02, 2015

LEVE PESTANEJAR DO SONHO...


Nada. Nem um suspiro. Nem um bulício...
Apenas o leve pestanejar do sonho como onda breve
A espraiar-se em azul-turquesa.
Ou será verde?

E aquela ilha!
Secreto coração do mundo em toda a parte
Batendo em alvoroço de lume...

Nem ontem, nem hoje! Nem a distância.
Pois que nada contém o peito dos amantes
Nem a palavra volátil que se anima
No arfar das silabas...

E no murmúrio das correntes subterrâneas
Onde nascem paisagens tão fluentes como rios
Ou corpos sem margens desnudados
Capricha o poeta. E arde...

E funde-se. E finge-se na dor branca (ou será verde?)
Que deveras sente...


Manuel Veiga

segunda-feira, novembro 30, 2015

FRAGMENTOS XVII - o "Assobio" em Cena!...


O “Assobio”, que chegou com três dias de atraso, como encomenda extraviada, provinha dos picos da serra da Gardunha, sem outra vida, nem oportunidade dela que não fora guardar ovelhas, ao serviço de uns tios de alguns parcos recursos, que o acolheram quando, aos três anos de idade, ficou órfão de pai e mãe, arrebatados ambos pela “Ceifeira”, na mesma funesta hora, quando a mulher, já noite dentro, alumiados pela tremulante luz da candeia, procurou salvar o seu homem, engolido pelos vapores e pelo cangaço das uva, em fermentação de vinho. Ambos lá ficaram, no lagar, abraçados um ao outro, vítimas da mesma hora de má sorte, quando aos corpos cansados por um dia trabalho sol a sol, se exige ainda um “um pouco mais de azul”, perdão, se exige um pouco mais de esforço, antes do sono reparador. A irmã, um tudo nada mais velha, foi recolhida por umas instituição religiosa, feita noviça e freira, a quem se perdeu o rasto...

Pastor de ovelhas, desde criança, nos despovoados montes da serra da Gardunha, o “Assobio”, que ainda não era, passou, portanto, os dias da sua jovem vida, durante largos períodos (semanas? meses? anos?), sem ver vivalma, que não fossem as criaturas de Deus que, “poverello”, estavam a sua guarda e apascentava como destino, que a vida, afinal, é uma escura gruta, onde, episodicamente, pequeníssimas intermitências de luz e sombras habitam nossos olhos, vindos esses pequeníssimos grãos de claridade sabe-se lá donde e onde, em tal gruta, os homens apenas captam a imagem invertida de si mesmos e a sua grandeza se reduz afinal à dimensão das “urgências” que a natureza reclama. De vez em quando, qual “padre padrone” saído de um filme dos irmãos Vitorio e Paolo Tavaniani, o tio, no mesmo acto de avaliar cordeiros e outros ganhos, deixava também o pão negro e o parco conduto, que, por largas temporadas, o jovem pastor teria que administrar com zelo.

Perdido, portanto, nos cumes da Gardunha, nem Regedor, nem Padre cuidaram ter em boa nota o “aviso” de incorporação militar do jovem mancebo, tão naturalmente era aceite, na comunidade, a sua não existência cívica, pois que, enjeitado pela sorte e guardador rebanhos perdido nos montes, como os animais que guardava, era mera res nullius, isto é, coisa nenhuma.

De forma que a instituição militar, na falta do mancebo, tratou de o mandar procurar, se vivo ou morto estaria, para a elaboração dos competentes autos e tramitação subsequente, tarefa que o posto da GNR daquela circuncisão cumpriu com prontidão e, assim, passados três dias e três noites, sobre a expedição da ordem militar, entregue por estafeta, com os respectivos códigos e assinaturas de reconhecimento, uma garbosa patrulha daquela força ordem, fazendo jus à sua divisa “pela Pátria e pela Grei” e que, noutros contemporâneos espaços, se traduzia em zurzir à bastonada uns estudantes barulhentos e contestatários, ou uns quantos recalcitrantes operários que teimavam em comemorar o 1º de Maio e o “Dia do Trabalhador”, eis que a gloriosa GNR, esmerando-se nos seus deveres para com a Pátria, entregou o jovem mancebo manus militari, quer dizer, aos desígnios do recrutamento militar, não sem que antes, porém, tivesse sido desinfectado, no pátio do picadeiro, com exigente banho de agulheta e corte das crinas, como se alazão, ainda não desbravado, se tratasse.

E assim chegou o “Assobio” ao quartel, compelido pelo zelo das instituições, que foi para isso que elas se fizeram, para meter em “ordem unida” a vida em sociedade e a natureza espúria dos homens rebeldes e incivilizados, sejam eles “apoucalhados”, ou génios incompreendidos. E, manifestamente, o Assobio, que em breve iria sê-lo, era garantidamente um “apoucalhado”.

Não falava, grunhia. Apenas duas palavras audíveis, “sim e não”. O restante discurso, embora coerente, exigia esforço desumano de atenção para se poder decifrar, em sua cantilena e cerrado sotaque, palavra de cristão. Os movimentos eram desarticulados, também. A garbosa meia volta, que em Cavalaria, se exige que seja modelo de aprumo militar, com os movimentos cadenciados e lentos, rondando sobre a ponta de um pé e o calcanhar do outro, um, dois, e o bater forte do tacão das botas ao movimento um, era para o Assobio um tormentoso movimento brusco de rotação completa sobre o próprio corpo, a mais da vezes desequilibrando-se e, depois firme e hirto, cheio de brio, perante a admoestação do instrutor e a gargalhada geral da maralha – ah, seu grandaaaaa nabo!...

Nem esquerda, nem direita, pois que os sinais de referência e orientação para o Assobio eram o sol e as estrelas, não as mãos que apenas servem para o uso que delas fazemos ou com elas tecer afagos e carícias, que no caso não subiriam além dos instintivos movimentos com que celebrava o seu próprio corpo num jacto de prazer solitário e, para o efeito, tanto servia a mão esquerda como a direita. De forma que, à voz de comando volver esquerda ou volver direita, o Assobio nunca acertava na mão e, era então certo e sabido, que sairia desenfiado, no seu andar desconjuntado, para um lado e pelotão a marchar para o lado oposto. Enfim, uma paródia de tropa...

“Ora cá temos nós a tirada neo-realista em que te resguardas, meu caro Manuel, como crença literária, quando a narrativa engasga e te debates nas encruzilhadas, prisioneiro na tua própria teia, pois que não deverias ignorar que o leitor não mais pretende que uma boa história, numa escrita linear, com antes e depois, amores desencontrados e um final feliz, pois que se a vida é o que é, cada um, ao menos em fantasia, pretende amenizar a sua. Mas tu teimas, no teu gosto pelo melodrama e em teu jeito de levar as emoções ao limite, em cerzir tempos, memórias e espaços e fundir a narrativa num amálgama desconexo e contraditório de vidas e emoções passadas, marionetas que te propões recuperar, como quem num museu de figuras cera, pretendesse colher a flor viçosa, “creme de la vie”. E depois essa tua petulância, desculpa o desagradável adjectivo, de te negares como autor e negares as tuas próprias personagens mais não é que uma manifestação tardia dos arquétipos culturais que te moldaram a mente e de que ficaste prisioneiro. Mas a vida e a literatura mudaram, meu caro! Que diabo, estamos na segunda década do seculo xxi! Será que não dás conta? Será que nada tens a dizer dos dias de hoje? Será que te intimidam, assim, tanto? E já agora que soltei o verbo, “intimo-te” a dizer que teima essa em “inventar” palavras? “Apoucalhado”? Em que dicionário foste descobrir? Ser “apoucado” não basta?

“Touché, minha amiga! Compreendo muito bem, Maria Adelaide, esta “feroz” estocada. De que não me queixo, pois bem sei que a veemência é proporcional ao grau da tua frustração. E, como se não bastasse eu deixar-te um pouco fora de cena, pois, realmente, apenas foram verdadeiramente nossas escassas páginas, esquecidas lá atrás, sentes-te abandonada na narrativa, tu que foste talhada para ocupar o centro. Receio porém não ser apenas isto a causa do teu mau humor, pois sabes de ciência certa, que voltarei a ti sempre e que ocuparás o espaço que ocupas, plenamente, pois a ti pertence a glória desta narrativa em que me “engasgo” – como sugestivamente proclamas – pois não fora tua a “estória”, nem fora o acaso de nosso encontro e, sobretudo, os casos de nossos desencontros, a narrativa, neo-realista ou “post moderna”, seja o que for, não existiria. Mas pressinto que a verdade é outra. Dona Rosalinda e a sua “estória” intrigam-te, não é? Não por qualquer ciumeira sem sentido, que sempre muito bem soubeste superar, mas estiveste – pressinto – a remoer memórias e os objectos feitiche que povoam como mistério por desvendar algumas zonas mais guardadas da tua vida? Estiveste a revolver, não é verdade? a caixa onde entre bagatelas, misturadas com a condecoração com que Salazar distingui teu pai com o vistoso título de comendador, foste também descobrir, em final da tua adolescência a “famosa” fotografia no Maxime, onde reconheces o senhor teu pai, com uma bailarina, emplumada e semi-nua sentada nos joelhos? Quem será essa mulher? E tens um negro pressentimento que a vida de Dona Rosalinda se possa replicar noutras vidas...

Aí voltaremos, Maria Adelaide, à  tua materna orfandade e à dor que dói e aos passos, que não sendo nossos, os nossos determinam. E voltaremos à Tabanca e à Dona Rosalinda, pois se algum lugar existe, esse é lugar mítico, em que a narrativa se justifica.

Mas por enquanto, não. Deixemos ainda brilhar o Alferes, que ainda não era, e se aclare o “mistério” da alcunha do “Assobio” . 


quinta-feira, novembro 26, 2015

NOTÍCIAS DE BABILÓNIA LXXV


Para se salvar, Babilónia muda de rumo. Os babilónicos, exauridos, decidiram empurrar o barco e afastar os que sempre quiseram secar o rio...

Democraticamente defenestraram Hammurabi, “o legislador” e as suas “inevitabilidades” e concederam o poder a um novo Príncipe – Sir Tony, “o dos Sete Costados”...

E, com renovada alegria, anseiam voltar a amassar o barro...

Hannibal, o “coiso raivoso”, geme rancores e debate-se, como amiba, em estertor catatónico...
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E um velho intelectual, algo empolgado, evocando sabedoria antiga: “as dívidas devem ser diminuídas, a arrogância das autoridades moderada, os pagamentos ao estrangeiro reduzidos para a nação não ir à falência; e as pessoas devem, novamente, aprender a trabalhar, em vez de viverem por conta pública...” (Cícero)


terça-feira, novembro 24, 2015

segunda-feira, novembro 23, 2015

Discurso do (pequeno) filho da puta - Alfredo Pimenta



 "O pequeno filho da puta
 é sempre
 um pequeno filho da puta;
 mas não há filho da puta,
 por pequeno que seja,
 que não tenha
 a sua própria
 grandeza,
 diz o pequeno filho da puta.

 No entanto, há
 filhos-da-puta que nascem
 grandes e filhos da puta
 que nascem pequenos,
 diz o pequeno filho da puta.
(...)
 O pequeno
 filho da puta
 tem uma pequena
 visão das coisas
 e mostra em
 tudo quanto faz
 e diz
 que é mesmo
 o pequeno
 filho da puta.
(...)
 No entanto,
 o pequeno filho da puta
 tem orgulho
 em ser
 o pequeno filho da puta.
(...)
 Todos os grandes
 filhos da puta
 são reproduções em
 ponto grande
 do pequeno
 filho da puta,
 diz o pequeno filho da puta.

 Dentro do
 pequeno filho da puta
 estão em ideia
 todos os grandes filhos da puta,
 diz o
 pequeno filho da puta.

 Tudo o que é mau
 para o pequeno
 é mau
 para o grande filho da puta,
 diz o pequeno filho da puta.

 O pequeno filho da puta
 foi concebido
 pelo pequeno senhor
 à sua imagem
 e semelhança,
 diz o pequeno filho da puta.

 É o pequeno filho da puta
 que dá ao grande
 tudo aquilo de que
 ele precisa
 para ser o grande filho da puta,
 diz o
 pequeno filho da puta.

 De resto,
 o pequeno filho da puta vê
 com bons olhos
 o engrandecimento
 do grande filho da puta:
 o pequeno filho da puta
 o pequeno senhor
 Sujeito Serviçal
 Simples Sobejo
 ou seja,
 o pequeno filho da puta".

Alfredo Pimenta