domingo, dezembro 27, 2009

Tempo de Vésperas...

busco antigos sinais e exorcizo o tempo
e as entranhas da palavra que soltam o grito
e a noite com seu manto estrelado...

calam-se os nomes que soletro!...

bem sei que o galo canta noutro ritmo
que (me) dizem diurno - apenas adornos coloridos
e um céu estranho...

a alvorada não lhe pertence
nem decifra as cores
nem a mágica poção
nem o cálice
que erguemos...

deixo assim que o tempo vadio
traga o regresso - que em delírio expio!
e recolho as vestes
para em esperança nua
beber a hora (in)certa!

quinta-feira, dezembro 17, 2009

"Eu tinha umas asas brancas..."



“Sim, a natureza foi avara connosco, e é difícil transformar em searas de trigo fragões de granito ou de xisto. Isso, porém, não é razão para lhes acrescentarmos a nossa esterilidade...

Há gente cá na pátria que, em vez de cobrir de desânimo e renúncia as lajes onde nasceu, faz delas a peanha duma vontade fecunda”.


Miguel Torga – in “Diário X”
Foto - Georges Dussand

FELIZ NATAL

terça-feira, dezembro 15, 2009

deixo que rios secos...

deixo que rios secos e
tempestades de sons ausentes na memória
de outros Maios se inscrevam
na saliva das palavras
como vibrações de azul em fim de tarde...

assim administrando amoras tardias
em círculos de sol...

lábios ciosos de mostos
inesperados como frutos desprendendo-se
de maduros ou chuvas de deserto...

viajo caminheiro sem pressas
recostado nas bermas
celebrando as sombras e
as festivas giestas outonais
sorvendo o mel das silvas
soltando revoadas de tordos espantados
que riscam o abismo dos olhos...

e me perco nessa entrega matizada de
cores quentes nos odores persistentes
na humidade translúcida dos fetos
na generosidade dos seios
no declive dos trilhos...

e no cio das colheitas
e na sofreguidão de cestos antes das uvas...

e nas ondas de lava
e neste de lume que consome
e nesta festa que explode
em pulsão de madrugada...

sexta-feira, dezembro 11, 2009

A Paz e os Direitos do Homem... pois claro!

Estamos confrontados – dizem os historiadores – não com o fim da História, mas porventura com algo mais catastrófico, ou seja, com uma espécie de “rarefacção dos acontecimentos” perante a qual a história se tornou impossível.

Explicitemos esta ideia. Com a queda do Muro de Berlim e a falência do sistema soviético, o capitalismo canibabilizou todo o sentido de negatividade. Onde até então existia dialéctica ergue-se agora um percurso de sentido único. Onde até então a densidade dos factos se projectava nas consciências e empolgava militâncias, hoje os factos despenham-se na sua profusão e nos efeitos especiais com que a comunicação social os apresenta, banalizando-os, encharcando o quotidiano com marasmo do idêntico por toda a parte.

Na política, na cultura, na média, na moda e até nas próprias causas que, mesmo quando se apresentam como “fracturantes”, são as mesmas, seguindo o mesmo padrão de sentido único...

Hoje, tudo se passa em tempo real. Já não há mais lugar à verdade real dos acontecimentos. Tudo se resume agora à coerência dos factos, imediatamente apreensível no alinhamento dos telejornais. Sabemos tudo, a toda a hora, na espuma do quotidiano ...

A história fica paralisada, não por ausência de acontecimentos, mas pela lassidão das consciências, empanturradas de informação. As chamadas maiorias silenciosas, a imensa indiferença das massas humanas, a falta de mobilização cívica têm certamente diversas explicações. Mas a inércia social não resulta seguramente por falta de motivos para acção cívica e política...

Nesta espécie de auto dissolução da história, todos os mecanismos da democracia política se degradam. E, nessa degradação, se precipitam valores políticos, cívicos e morais. As próprias exigências do exercício da liberdade e de respeito dos direitos do homem não passa de um simulacro.

A democracia planetária dos direitos do homem está para a liberdade real está como a Disneylandia está para imaginário social” – escreve Jean Baudrillard num livro célebre (A Ilusão do Fim ou a greve dos acontecimentos).

Se com o colapso do sistema soviético, o capitalismo devorou, como uma paródia universal, a dialéctica e a história, ao assumir todos contrários, numa grotesca síntese sem alternativa, é porque, na sua veleidade de dominação totalitária, devora a própria substância do ser humano para o reduzir à sua essência de ser produtivo...

Salva-se, porém, a cultura da liberdade e dos direitos do homem! Mas salva-se?!...

Que os digam os milhões e milhões de “gente descartável” , que à escala planetária são afastados, como excedentes (mercadoria portanto) do processo de produção e de consumo.

Que o digam as prostitutas na Tailândia, os índios no Brasil, os escravos na Mauritânia, as crianças e as mulheres em Ceilão, no Paquistão ou na Índia! Que o diga África! Que o digam, nos Estados Unidos da América, os muros de milhares de quilómetros electrificados e a vigilância electrónica (e os rifles) apontados aos emigrantes mexicanos!...

Da liberdade já só resta a ilusão publicitária, isto é, o grau zero da ideia, a que regula o regime liberal dos direitos do homem" (...) – exclama o autor referido, ou seja, “a promoção espectacular, a passagem do espaço histórico para o espaço publicitário, passando os media a ser o lugar de uma estratégia temporal de prestígio...”

Construímos a memória síntese dos nossos dias, mediante a profusão de imagens publicitárias que nos dispensam da participação dos acontecimentos realmente transformadores da vida e da sociedade

Talvez, a esta luz, se perceba melhor a aceitação acrítica de como “um discurso de guerra pode celebrar um Prémio da Paz” e o Nobel seja atribuído por antecipação do acontecimento celebrado (a Paz), que afinal não se vislumbra...

Nesta antecipação publicitária, se canibaliza o futuro e se procede à reciclagem dos "detritos" da história e dos mitos. Também os pais fundadores da nação norte americana, em nome da liberdade, permitiram a escravidão!...

Resta-nos a convicção que, ao longo dos tempos, sempre os escravos se revoltaram... E que, em seu "surdo ruído",a História prossegue seu caminho.

Bem se sabendo quão duras são suas dores...


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Bom fim de semana! (se possível...)

quarta-feira, dezembro 09, 2009

Carta de José Saramago a Aminetu Haidar


Se estivesse em Lanzarote, estaria contigo. Não porque seja um militante separatista, como te definiu o embaixador de Marrocos, mas precisamente pelo contrário.

Acredito que o planeta a todos pertence e todos temos o direito ao nosso espaço para poder viver em harmonia. Creio que os separatistas são todos aqueles que separam as pessoas da sua aterra, as expulsam, que procuram desenraizá-las para que, tornando-se algo distinto do que são, eles possa alcançar mais poder e os que combatem percam a sua auto-estima e acabem por ser tragados pela irracionalidade.

Marrocos em relação ao Sahara transgride tudo aquilo que são as normas de boa conduta. Desprezar os Saharauis é a demonstração de que a Carta dos Direitos Humanos não esta enraizada na sociedade marroquina, que não se rebela com o que se faz ao seu vizinho, e que é a prova de que Marrocos não se respeita a si próprio - quem está seguro do seu passado não necessita expropriar quem lhe está próximo para expressar uma grandeza que ninguém jamais reconhecerá.

Porque se o poder de Marrocos alguma vez acabasse por vergar os saharauis, esse pais admirável por muitas e muitas coisas, teria obtido a mais triste vitoria, uma vitoria sem honra, nem gloria, erguida sobre a vida e os sonhos de tanta gente, que apenas quer viver em paz na sua terra, em convivência com os seus vizinhos para que, em conjunto, possam fazer desse continente uma lugar mais feliz e habitável.

Querida Aminetu Haidar,

Dás um exemplo valioso em que todas as pessoas e todo o mundo se reconhecem. Não ponhas em risco a tua vida porque tens pela frente muitas batalhas e para elas és necessária. Os teus amigos, e os amigos do teu povo, defender-te-mos em todos os foros que forem necessários.

Ao Governo de Espanha pedimos sensibilidade. Para contigo, e para com o teu povo. Sabemos que as relações internacionais são muito complexas, mas há muito anos que foi abolida a escravidão tanto para as pessoas como para os povos. Não se trata de humanitarismo, as resoluções das Nações Unidas, o Direito Internacional e o senso comum estão do lado certo, e em Marrocos e em Espanha disso se sabe.

Deixemos que Aminetu regresse a sua casa com o reconhecimento do seu valor, à luz do dia, porque são pessoas como ela que dão personalidade ao nosso tempo e sem Aminetu todos, seguramente, seriamos mais pobres.

Aminetu não tem um problema. Um problema tem seguramente Marrocos. E pode resolvê-lo... terá que resolvê-lo. Não se trata apenas de um problema de uma mulher corajosa e frágil, mas sim o de todo um povo que não se rende já que não entende nem a irracionalidade nem a voracidade expansionista, que caracterizavam outros tempos e outros graus de civilização.

Um abraço muito forte, querida Aminetu Haidar.


José Saramago

sexta-feira, dezembro 04, 2009

Aminetu Haidar



De Espanha chegam notícias inquietantes sobre o estado de saúde da resistente saharaui, Aminetu Haidar, que se encontra em greve de fome, desde 15 de Novembro, no aeroporto de Lanzarote.

Com a sua acção, a militante da causa saharaui pretende chamar a atenção para a luta do seu povo que, há mais de 35 anos, luta pelo direito a um território e à autodeterminação do seu Povo, subjugado por Marrocos.

Se há situações que são um espinho cravado na consciência dos Povos civilizados e dos homens e mulheres, dotados de princípios e valores democráticos, o caso de Sahara Ocidental deveria ser uma delas: mais 200 mil refugiados, permanentes atentados com os direitos humanos perpetrados pelo regime retrógrado de Marrocos, com centenas de torturados e presos políticos.

Todos que acreditam ser cidadãos de corpo inteiro, que acreditam na força da solidariedade e da justiça, não poderão ficar indiferentes à situação inquietante, por que está a passar Aminetu Haidar.

O caso do Sahara Ocidental é, por múltiplas razões, um caso paradigmático de hipocrisia da comunidade internacional, bem como da duplicidade de comportamentos individuais e colectivos.

Será que memória dos povos é tão curta e que, em Portugal, toda a gente tenha esquecido a heróica luta do Povo timorense e as abnegadas jornadas do povo português? Será que ainda alguém se lembra da luta de Timor?

E, no entanto, bom seria que a nobreza de carácter do povo português viesse novamente ao de cima, pronto a vibrar pela causa saharaui. De facto, desde do governo espanhol, passando pelo governo português, da União Europeia à ONU, todos eles detêm a sua quota de responsabilidade por um dos conflitos mais antigos do planeta, tolerantes e coniventes como são, com a reaccionária monarquia marroquina e os seus generais torcionários.

Ou não foram os fosfatos e outros minerais no território do Sahara Ocidental tão cobiçados...

Vemos, ouvimos e lemos, não podemos ignorar”, proclamamos muitos de nós, como expressão da nossa inquietude e sinal do nosso engajamento contra as injustiças e o arbítrio. Pois bem, a causa do povo saharaui e a solidariedade com Aminetu Haidar é um daqueles casos que nos pode ajudar a resgatar a mediania e o cinzentismo do quotidiano em que mergulhou a sociedade portuguesa e a restaurar a confiança e vigor da nossa participação cívica.

Em Lisboa, realizou-se ontem, dia três de Dezembro, uma vigília de solidariedade, em frente ao Consulado de Espanha, na Avenida da Liberdade, promovida pela Amnistia Internacional e outras entidades e individualidades de diversos sectores políticos.
Nos dias anteriores, várias personalidades da vida portuguesa tomaram posição e solidarizaram-se com a militante saharaui.

José Saramago, deslocou-se ao aeroporto de Lanzarote e expressou, pessoalmente, a sua solidariedade para com luta de Aminetu Haidar, tendo declarado, posteriormente, à imprensa “que a encontrou animada e que está disposta a aceitar o pior e o pior é a morte, sem que lhe tremam as mãos”...

Também o Alto-comissário da ONU para os Refugiados, António Guterres, qualificou de “verdadeiramente dramática” a situação dos refugiados saharianos ocidentais no Sul da Argélia e considerou que se encontram “bastante esquecidos” pela comunidade internacional.

Aminetu Haidar, considerada por muitos como a “Gandhi Saharaui”, descreve a situação actual no Sahara Ocidental como alarmante e denuncia a escalada da repressão policial e militar.Poderá o mundo fechar os olhos ao drama dos refugiados saharauis? Poderá o mundo fechar os olhos a tragédia de um Povo, objecto de uma repressão violenta e que o único “crime” é desejar a sua autodeterminação e independência e poder viver em paz.

Poderá a nossa consciência calar?


Foto - DN.

segunda-feira, novembro 30, 2009



Nada
Apenas Magritte na paisagem
Sob a árvore
E a majestosa gralha
Cuidando as penas depois da chuva
Breve

E o caprichoso melro circular
Em voo trinado
Assediando o galho
E o sol ligeiro.
Por certo o beijo

Apenas melro e gralha

No céu
O anjo negro cavalgando a nuvem
Assim eu descendo nas asas do milagre
Sem outra grandeza ou glória
Ou outro instante de lume

Apenas
A repentina gralha
E o voo do pássaro
Ou a neutra rosa
Afadigando-se em ser

Talvez Magritte
Tecendo apenas as cores da árvore

quinta-feira, novembro 26, 2009

Sobre o Crucifixo nas Escolas...

“Um recente Acórdão do Tribunal Europeu de Direitos Humanos de Estrasburgo causou um grande escândalo ao admitir a denúncia de uma cidadã italiana sobre a presença de crucifixos nas escolas como um atentado contra a liberdade dos pais para educar seus filhos de acordo com as suas convicções e contra a liberdade de religião dos próprios alunos.

Os católicos apostólicos romanos fizeram grandes protestos de escândalo. Não os cristãos. Porque também há cristãos que não são apostólicos romanos e não consideram que o símbolo da cruz seja um valor essencial. E no que respeita ao acórdão do Tribunal Europeu está longe de ser ofensivo para aqueles que, como eu, são ateus, ou não têm religião. Tão pouco me parece ofensivo para os que professam outra qualquer religião.

O extraordinário desta sentença destinada a provocar não só escândalo, mas também debate e confronto, é que irrompe na realidade italiana que vive - viverá? - inveteradamente à sombra do poder da Igreja romana.

Visto assim, a sentença é uma crítica profunda a seu símbolo por excelência, a cruz. Uma simbologia imposta, colocada em todas as escolas, colégios, hospitais e oficinas como senha de identidade de nossa cultura. Uma omnívora cultura de Estado. E os católicos não renunciarão facilmente à ideia de que são os gestores da religião de Estado.

Mas o Tribunal Europeu dos Direitos do Homem entendeu, não por acaso, que alunos de todas as idades poderão considerar a presença dos crucifixos nas aulas como evidente símbolo religioso e que, por isso mesmo, os poderão condicionar nas suas opções: ainda que estímulo para as crianças católicas, a presença do crucifixo poderá ser um condicionamento e um transtorno para as crianças de outras religiões ou para crianças de famílias ateias.

Estala então a ira do Vaticano. O governo de centro-direita acusa a oposiçao democrática e balbucia (“e uma questão de cultura, de tradição”). Muito bem; abramos, pois, o livro negro dessa cultura e dessa tradição.

O catolicismo da Igreja romana esconde, por detrás do crucifixo interpretado como redenção, uma cultura e uma história de violências, atropelos e guerras. Em nome da cruz se hão cometido grandes malfeitorias, cruzadas, inquisições, saques e matanças no Novo Mundo, a bênção aos impérios e aos “homens providenciais” (ditadores, digo eu).

Sem esquecer que até ao século XIX, o catolicismo proibiu traduzir a Bíblia e os Evangelhos nas línguas comuns.

Em nome desse “símbolo” se têm cometido os crimes mais atrozes. E se continuam cometendo agressões contra os direitos dos homens e a condicionar o conhecimento e a liberdade individual e sexual.

Se é “nossa cultura”, segundo declaram a intrépida ministra Gelmini e o “pontífice” Buttiglione, quem, por cima, qualifica de “aberrante” a sentença de Estrasburgo, - porque não falamos do lado obscuro da cruz como simbologia de poder? Para estes paladinos, é como se disséssemos: o espaço do visível, da iconografia quotidiana da realidade, é meu, a manipulação (ideológica) eu a coloco nos emblemas que eu decido

Aí é que está o erro...

A Conferência Episcopal esganiça-se: a sentença é “ideológica”. Que nos fale da violência na cultura histórica da Igreja apostólica romana, das fogueiras contra a razão herética, que fez avançar a Humanidade. Se o que se quer defender é a sua origem de salvação para todos, então há então aceitá-lo e adaptá-lo ao presente, porque, inicialmente, a cruz não era mais que o sinal para identificar os lugares clandestinos de oração e culto; não um símbolo imposto, que poderia valer como ritual (...) hostil aos demais, a outras culturas, histórias e religiões.

Oxalá a realidade que nos rodeia e, sobretudo, a realidade formativa das escolas, seja um espaço criativo, livre de religiões, sem impor, a quem quer que seja, obrigações opressivas oriundas de valores religiosos”


Dario Fo, escritor e dramaturgo italiano, Prémio Nobel de Literatura em 1998

ver SinPermisso
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Ora aqui está um "tema fracturante" que seria bom ver incluido na agenda do Governo e debatido no Parlamento!

quinta-feira, novembro 19, 2009

"Alegre" Justiça a do País...

"O Diario de Noticias, jornal que tem imposto aos seus correspondentes o hábito das informações escrupulosas e sérias, inseria ultimamente uma carta de Gouveia em que era narrado este caso: “Um marido matara sua mulher, partira-a aos pedaços, fora preso e condenado” .

E reparem bem: “É condenado a varrer as ruas de Gouveia!”

De modo nenhum queremos limitar os maridos no direito de decepar suas mulheres. São miudezas domésticas em que não intervimos. Nunca se dirá que as "Farpas" se arrojam indiscretamente sobre o seio das famílias. Que os maridos, quando lhes convenha, para melhor organização do seu interior, partam suas mulheres aos pedaços - coisa é que nem nos escandaliza, nem nos jubila!

Talvez não imitássemos esse exemplo: não por nos parecer fora das atribuições maritais, mas por se nos afigurar excessivamente trabalhoso o partir aos bocadinhos uma consorte estimada! E entendemos que quando um marido se sinta dominado pelo desejo invencível de partir alguma coisa - é mais simples ir à cozinha trinchar o roast-beef do que à alcova retalhar a esposa!

Não nos espanta também o castigo infligido pelo meritíssimo juiz de Gouveia. Nós não temos a honra de conhecer Gouveia. O código, é certo, marca uma pena diversa, não prevendo esse castigo de varrer as ruas de Gouveia - de resto todo local. Mas quem sabe se não será uma tremenda penalidade - o limpar as ruas de Gouveia!

Talvez mesmo o juiz - por lhe parecer insuficiente degredo perpétuo - rompesse no excesso arbitraria de entregar aquele facínora ao suplício imenso de limpar as ruas da sua vila. Bem pode ser que aquele marido esteja cumprindo uma sentença pavorosa, e que o devamos lastimar mais que os infelizes que S.M. Alexandre II da Rússia (que Deus guarde e muitos anos conserve em prosperidade e gloria) manda trabalhar, ao estalo do chicote, nas minas de Orilieff! A imundice da província tem mistérios.

Limpar as ruas de Gouveia será talvez a pena que de futuro adoptem, em substituição da pena morte, os códigos da Europa. Que grande honra, meus amigos, para a sujidade nacional!

Mas uma coisa nos ocorre: - e é que, d'ora em diante, varrer as ruas deixa de ser um emprego municipal, e começa a considerar-se uma pena infamante. E pode acontecer que os Srs. varredores de Lisboa - não querendo, por uma susceptibilidade exagerada, passar por terem assassinado suas esposas, deponham com gesto de desdém o cabo das suas vassouras nas mãos atarantadas da câmara municipal!

Por outro lado, dada esta greve, nenhum cidadão se quererá incumbir de limpar as ruas. Há gente tão meticulosa, tão escrupulosa, que embirraria que os vizinhos a suspeitassem de ter empregado o trinchante na pessoa da sua consorte. A única pessoa que afoitamente ousaria varrer as ruas seria aquela de quem se não pudesse suspeitar um crime, aquela que fosse pela lei do Reino declarada irresponsável.

Ora há só uma neste caso. É o chefe do Estado! Esse é o único que poderia varrer as ruas sem que ninguém se lembrasse de pensar que elas andavam ali, ás vassouradas, por sentença de um tribunal. Esse é irresponsável: não comete crimes, nem sofre penas.

Mas seria realmente atroz que S. Exª. se visse obrigado, depois do teatro, a ir, por essas vielas, melancolicamente seguido da sua corte, levando, de vassoura em punho, adiante de si, em nuvens de poeira, a imundície dos seus vassalos!

Que a justiça pois nos esclareça sobre estes pontos: se limpar as ruas é uma penalidade nova, e se, a troco de quatro vassouradas, qualquer cidadão pode ter a vantagem de espatifar sua esposa: se a imundice especial e pavorosa das ruas de Gouveia torna realmente essa pena igual à de degredo: ou se o sr. Juiz de Gouveia entende que matar a esposa é acto tão meritório que merece um emprego remunerado pela câmara.

Esperamos, modestos e respeitosos, as respostas dos poderes públicos"


Eça de Queiroz – “Uma campanha alegre” – in “As Farpas”

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Não há dúvida que a nossa Justiça tem tradições de vanguarda! Hoje, nossos doutíssimos juízes já não condenam ninguém a varrer ruas. Mas nas mais altas instâncias judiciais, ao que parece, defende-se a anulação das provas do crime. Sempre é mais eficaz. E higiénico, convenhamos...

Ao ritmo do tempo, que da imundície faz lucrativa sucata...

domingo, novembro 15, 2009

A Consciência é a voz da alma?

Um amigo da "velha guarda" remeteu-me este video que quero partilhar convosco, com os comentários que o acompanham...

Acrescento apenas que, tal como a arte, também a política interpela a consciência e a "voz da alma". Sem o que a auto alienação (da política) levará "à sua própria destruição", ou seja, ao fascismo...

Grato, E.B.

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"Ao ver este magnifico video sobre a estetização da violência, que também comporta a sua banalização fui buscar este texto escrito por Walter Benjamin em 1936.

”Fiat ars, pereat mundus” (Que a arte se realize, mesmo que o mundo deva perecer) diz o fascismo e, como Marinetti reconhece, espera que a guerra forneça a satisfação artística da percepção dos sentidos alterados pela técnica.

Isto é, evidentemente, a consumação da l'art pour l'art.

A humanidade que, outrora, com Homero, era objecto de contemplação para os deuses do Olimpo, é agora objecto de auto contemplação. A sua auto alienação atingiu um grau tal que lhe permite assistir à sua própria destruição, como um prazer estético de primeiro plano.

É isto que se passa com a estética da política, praticada pelo fascismo.

O comunismo responde-lhe com a politização da arte..."


Walter Benjamin, in "A obra de Arte na Era da sua Reprodutibilidade Técnica"

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La conciencia? Es la voz del alma? El "suicidio" moral de la humanidad al olvidar la ética para pasar a la "estética"...

Que cada quien saque sus propias conclusiones de éste, que bien podría serun documental muy representativo sobre aquello en lo que nos hemos convertido
.

terça-feira, novembro 10, 2009

Somos o que somos...

Densa a poalha agora
Cortada na liquidez do ar
Pingos de tempo na memória inútil...

E no entanto breve
Solta-se o horizonte
Abraçando as margens...

Quem nesta miragem se perde?
Quem inatingível
Declina o verbo na paisagem?

Quem das veredas os sons
Inaudíveis e a fúria azul
Dos tambores?

Somos o que somos:
Apenas o que nos braços cabe
E o fios que tecemos em cada rosto...


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Uma breve ausência. Boa semana...
Beijos e abraços!

sábado, novembro 07, 2009

Uma agenda invertida...

Foi aprovado, na Assembleia da República, o programa do Governo, saído das últimas eleições legislativas, presidido, pela segunda vez, como bem se sabe, pelo Eng.º José Sócrates. Tudo conforme com as regras e os ditames constitucionais.

De facto, o Partido Socialista foi o partido mais votado no contexto do espectro político concorrente às eleições, o que, naturalmente, lhe confere legitimidade constitucional para formar governo.

Indiscutível e consensual, portanto, como aliás consta dos anais da Pátria, quer dizer, das páginas do Diário da República e das crónicas dos “fazedores de opinião”.

Porém, nestas coisas da política, (como nas banais coisas da vida) há sempre um “mas” que, perversamente, vem perturbar os desejos mais cálidos e a lançar a perfídia da dúvida nas mais quentes perspectivas. Mal comparado, já se vê, os “mas” funcionam como uma espécie de “Caim” (saravah, José Saramago!) que desafia a ordem universal das coisas previstas, para não falar nos altos desígnios de Deus...

Enfim, os mas são uns desmancha-prazeres...

No caso que é aqui nos traz, há um mas que corre o risco de provocar sérios engulhos na sempre expedita palavra do Eng.º Sócrates e perturbar a jactância da sua acção política.

É que, tendo embora a apoiá-lo o partido mais votado, o que lhe permite formar Governo, a verdade é que, nas últimas eleições, deu um enorme trambolhão e, de uma fagueira maioria absoluta, tombou para uma arreliadora maioria relativa, perdendo umas largas centenas de milhar de votos e um vasto leque de deputados.

Ora, “perder é o contrário de ganhar” como diria a conhecida colunável...

De forma que, o Eng.º Sócrates tem a legitimidade necessária para formar Governo. Porém, quanto à substância da coisa, quer dizer, quanto ao exercício do poder, magna questão de que toda a legitimidade política se reclama, é que a porca torce o rabo.

“Hoc opus, hic labor est”, já diziam os romanos, quando confrontados com as duras realidades da escolha nas encruzilhadas da vida. Sem maioria, Eng.º Sócrates está metido, portanto, numa camisa de onze varas (salvo seja...), pois que, à esquerda e à direita, parece que ninguém quer, para já, assumir as suas dores políticas ...

Mas o homem, como bem sabemos, é pertinaz. E não vai esmorecer por múltiplos que sejam os obstáculos, reais ou talhados à medida, que a Assembleia da República, ou a comunicação social, lhes semeiem pelo caminho.

Presumo até que, qual Colombo de velas emproadas, descobriu uma nova fórmula do ovo para manter o equilíbrio: piscar à esquerda para guinar à direita, na “melhor” tradição, aliás, do Partido Socialista no post 25 de Abril...

Ao que consta, neste seu desígnio, reservará, magnânimo, às esquerdas os chamados “temas fracturantes” mais uns pozinhos de perlim pim pim na área social e concederá à direita as alavancas da economia, com a agenda, mais ou menos conhecida, das privatizações do que resta do sector público e manutenção do Código do Trabalho.

E a enfeitar o cenário, uma luzidia Secretaria de Estado para a Igualdade, ou não fora o Eng.º Sócrates um paladino da igualdade, como demonstram sobejamente os quatro anos de governo anterior e as estatísticas europeias que, como se sabe, nos dão como país vanguarda em matéria de desigualdades...

Seremos, então, decididamente “pra frentex” na proclamada “igualdade de género”, introduzindo na ordem institucional o casamento entre pessoas do mesmo sexo, enquanto que vergonhosamente se rasgam valores históricos de igualdade nas relações de trabalho, que afectam milhares de pessoas, desprotegendo cada vez mais a parte mais vulnerável da sociedade portuguesa...

Com respeito devido pelas opiniões (e opções) que não são as minhas, poderá o Eng.º Sócrates alargar assim a sua base de apoio a gays, lésbicas e afins e, expedito, ocupar o espaço mediático com os temas fracturantes, mas decididamente “não passará” na rua sem vivos protestos e luta decidida, pela sua acção política deletéria, em termos económicos e sociais...

É que “modernidade” é mais que lantejoulas vistosas, que se podem usar e descartar em desfiles de vedetismo; traduz, sobretudo, o compromisso fecundo com a emancipação do Povo a que pertencemos e que as desigualdades económicas, sociais e culturais (que prevalecem), desenham sem horizonte, nem glória, como inelutável destino...

quarta-feira, novembro 04, 2009

80 anos - Agenda

ZECA AFONSO

Participe... Divulgue...

domingo, novembro 01, 2009

Cálida brisa...

Solitária escrita de teus passos
Ténues marcas sobre a praia ainda virgem
E a descoberta do infinito manto de nada
E o prazer íntimo de caminhar descalço
Pura sensação de tudo...

Nada nos pertence. Apenas o solicito olhar
Sobre o grão de areia que somos
E a cálida brisa no rosto
Onde derramamos os afectos...

Assim a vida,

António.

quinta-feira, outubro 29, 2009

Proença, Cortesão, Sérgio e o Grupo Seara Nova


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Entretanto, foi publicado o nº1709 da revista SEARA NOVA - Outono/2009 . De destacar neste número, o documentado dossier "Que Futuro para Portugal", um conjunto de artigos de destacados especialistas em matéria de desenvolvimento económico e social.

domingo, outubro 25, 2009

Triunfo do inÚTIL...

Esplêndido o relâmpago e voo das aves
E o estertor do grito nos abismos do silêncio
E as impolutas neves e os fundos vales.
E as máquinas modernistas celebradas em poema.
- Meteóricas claridades!...

(E também o senhor Álvaro de Campos, engenheiro...)

Gloriosos são os tempos sem memória
E o gesto puro que se esgota no nada que é tudo..
E a altivez das estrelas em seu gelo derramado
Na profusão de brilho sem mistério...

Dor mater dos medos na inocência das crianças
Virginal o pudor dos passos que se abrem.
E a espera das amoras antes de acontecerem.
E as palavras escavadas. E o fogo das rochas.
E a líquida emoção das horas suspensas nesse enredo...

Gloriosas são as águas no ventre das montanhas.
E as viagens dos barcos. Soberbos os guindastes.
E o camartelo arrancando chispas nas margens do futuro...
Glorioso o pão e vinho. E as máquinas. E a opulência das estátuas.
E a febre dos archotes rangendo fúrias...

(in)Úteis Odes Triunfais. Minervas sem alma.
Gares e os cais. Desertos. Que não sendo certo
São toda a gente em toda a parte embora!...

quarta-feira, outubro 21, 2009

" A outra vida..."

(...)

A ameaça do inferno e o aceno do céu são um dos temas mais frequentes na literatura religiosa medieval. Um “Tratado de Devoção” existente em Alcobaça insiste particularmente nos castigos e descreve de maneira patética a hora pavorosa do “Juízo Final” e lembra, para concretizar a ideia da vida para lá da morte, uma visão de um cavaleiro chamado Túndalo ou Túngulo, a quem fora dado o privilégio de visitar o céu e o inferno e regressar à vida para contar o que por lá vira:

- Um cavaleiro pecador morreu. E enquanto a alma era levada por muitos lugares o seu corpo esteve aguardando o enterro por causa de algum calor que ainda conservava no lado esquerdo. Mas ao terceiro dia o corpo começou a suspirar.
(...)
Vamos ouvir o que entretanto lhe acontecera. Naquela hora em que saiu do corpo começou a Alma a sentir grande medo e a querer voltar para a carne, sem poder. Desamparada, chorando e gemendo ao lembrar-se dos pecados, viu vir uma multidão de demónios que enchiam não só a câmara mortuária, mas as ruas e praças.

Assim falaram eles para a Alma: - “Porque não és já soberbo como eras, e porque não fazes fornicação, nem adultério, nem causas escândalos? Onde estão as tuas virtudes? Onde está a tua vã glória? A tua vã alegria onde está? O teu vão rir onde está? O comer e o beber em que te deleitavas, e de que tão pouco davas aos pobres, onde estão? As loucuras que fazias onde estão? Tudo é já passado, e por tudo isso sofrerás".

Encontrando-se assim aturdida e sem saber que fazer, a pobrezinha viu chegar um anjo. - "Ai meu senhor e meu pai, disse chorando, dores do inferno que me cercaram, e fui em grande temor". - Era o Anjo da guarda, que logo a repreendeu porque agora lhe chamava pai, quando dantes nem o conhecia. E estendendo a mão para agarrar um dos diabos mais escarnecedores, o Anjo mostrou à Alma o mau conselheiro que ela seguira: "Mas Deus teve piedade de ti..."

Quando isto ouviram, os diabos começaram a dizer mal de Deus, porque entendiam que aquela alma era deles de direito, e que Deus não procedia direitamente tirando-lha. Mas o Anjo ordenou à Alma que o seguisse, e a Alma caminhou na escuridão alumiada só pela claridade do Anjo.

Passaram por um vale de trevas, coberto por um tampo de ferro incandescente sobre o qual as almas se derretiam e ferviam como azeite escoando-se para os carvões abrasados do fundo. Era o castigo dos matadores. Subiram a uma montanha por um caminho estreito, batido pelo frio e pelo vento, donde os diabos tiravam as almas com gadanhos para as mergulhar no fogo e depois na água gelada...

Prosseguiram por um caminho torto e mau, envolvido na escuridão. A Alma, quebrantada, só via diante de si a claridade do Anjo. E pararam diante de uma besta, maior que todas as montanhas que até então tinham visto, tão forte e feroz que nenhum homem vivo a poderia imaginar...

Os seus olhos eram como colinas acesas. Pela sua boca cabia um exército de nove mil homens armados. Saíam dela labaredas de envolta com os gritos das almas que se consumiam no ventre da fera. A Alma queria fugir desta visão espantosa, mas o Anjo abandonou-a aos diabos. Os tormentos que ela passou no ventre da besta não há homem vivo que possa conhecê-los...

Sem saber como, a Alma achou-se de novo na presença do Anjo. Outra vez recomeçou a caminhada da alma lacerada e quebrantada. Deparou-se-lhe um mar bravo de ondas tão altas, que tapavam o céu, sobre o qual se estendia uma tábua a servir de ponte, longa de dez mil côvados, estreita como a palma da mão, eriçada de bicos de pregos.
(...)
Ela mostrou os pés chagados, que a não deixavam andar. - «Devias-te lembrar, respondeu o Anjo, de como os tinhas ligeiros para os prazeres do mundo». E caminhando na escuridão chegaram a um forno grande como um monte, por cuja boca saía uma labareda altíssima. A entrada demónios com aparência de carniceiros, com grandes cutelos esfolavam as almas e cortavam-nas em postas, que atiravam para dentro do lume.

Era o castigo dos gulosos e luxuriosos.

A Alma não conseguiu fugir ao suplício. Retalhada sofreu dentro do forno o fumo, frio, calor, fedor e açoites, muito mais do que se pode contar. Dali saiu para a escuridão, até que veio a claridade do Anjo. "Ai senhor, queixou-se ela, onde está aquela misericórdia que nos dizem que há em Deus, pois que já tantas penas e tantos tormentos passei?"

Respondeu o Anjo e disse: - "Ó filha minha quantos se enganam com essa confiança que têm que Deus faz misericórdia. Porque bem que Deus seja misericordioso não deixa por isso de fazer justiça a cada um como merece".

E o Anjo apressou a Alma porque ainda tinham muito que ver. Era agora uma besta com um par de asas e dois pés, boca chamejante, posta sobre um lago gelado. Engolia as almas para dentro da fornalha do seu ventre, e deitava-as depois, pelo traseiro, no gelo do lago. Quando aqui caíam, todos, homens e mulheres, pariam pelos braços, pelo peito, por todo o corpo, no meio de dores sem nome, serpentes inumeráveis, que logo lhes cravavam os dentes de ferro até ao tutano dos ossos.

Este era o castigo dos sabedores, que mal usavam da sua ciência e da sua língua.

A Alma não escapou ao espantoso castigo...”

(...)


História da Cultura em Portugal” – António José Saraiva – Edição de “Jornal do Foro” – 1950.
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É o que espera a José Saramago na outra vida, estou certo disso. Rebolo-me de gozo a imaginar a sua alma a ser cuspida em fogo pelo traseiro da besta...

O que é muito bem feito! Quem o manda ser sabedor, usar mal sua ciência e a sua língua?!...

domingo, outubro 18, 2009

Barack Obama –“O Sonho e a História...”

O texto seguinte são extractos do artigo aqui que vivamente se recomenda na sua versão integral em castelhano.

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Não deveria levar-se a mal o Prémio Nobel da Paz a Barack Obama , (...) porque o homem apenas teve nove meses para cumprir os seus deveres imperiais – de forma mais concreta despejar explosivos de grande potência em Hindu Kush – enquanto outros premiados, como Henry Kissinger, estiveram a massacrar gente (...), com superlativa diligência, durante anos e anos.

Woodrow Wilson, o imperialista liberal do qual Obama cultiva tantas afinidades, ganhou Prémio Nobel da Paz em 1919,apesar de ter metido os EEUU na carneficina da I Guerra Mundial. O presidente que antes tinha conseguido o Prémio Nobel da Paz foi Teddy Roosevelt, que conseguiu o galardão em 1906, como recompensa por ter patrocinado a guerra hispano-norteamericana e ter desencadeado, com ardor, um verdadeiro banho de sangue nas Filipinas.

A Teddy Roosevelt foi atribuído o prémio Nobel da Paz não muito depois de demonstrar a sua infinita compaixão pela humanidade, patrocinando, na Feira Mundial de São Luis de 1904, uma exibição de “homens-mono” filipinos, apresentados como o “escalão perdido” na evolução do Homem (...): dolorosamente necessitados, portanto, de assimilação forçada, a que o estilo de vida nortemaricano não deixava outro remédio.

Por outro lado, antes de receber o prémio, Teddy Roosevelt diligenciou o envio da “Grande Frota Branca” em volta do mundo a fim de demonstrar as credenciais imperiais do “Tio Sam”, com o que antecipou em pouco mais de um século, as crendiciais para o prémio Nobel da Paz a Obama, que se dispõe agora a impor a Pax Americana ao Afeganistão e a partes do Paquistão.

A gente espanta-se com a idotia destes galardões do Nobel da Paz. Porém, há método nesta insânia, vinda da Noruega, porque ao fim de contas habitua as pessoas a aceitarem sem revolta, ou alarde de protesto, o absurdo como fazendo parte integrante da condição humana. É um mito(...) destinado à juventude: também tu podes matar filipinos, os palestianos, ou vietnamitas, ou afegãos e sem embargo ganhar um prémio da Paz.

É a audácia da esperança, superlativamente aviltada.

Obama, quando aparecem assuntos candentes (...), teme, sobretudo, os poderosos. E não está com os seus quando estes são ferozmente atacados pelo núcleo duro da direita; defaz-se deles, como coisa incómoda, e então o seu secretário de imprensa vem declarar que partiram por vontade própria. Pode ser que isto impressione os pacifistas de Oslo, mas na perspectiva norteamericana, não é mais que indecisão pulsinânime .

A política afegã de Obama foi evoluindo durante a sua campanha do ano passado com o propósito de repelir qualquer acusação de que era um pacifista na intervenção do Iraque. E (...) quando no resguardo da Sala Oval da Casa Branca, Obama, apelando ao bipartidarismo, apressou-se a acenar a bandeira branca, mantendo no seu posto Robert Gates, o secretário de Estado da Defesa, nomeado por Bush.

E constutiui uma equipa de política externa composta basicamente por falcões liberais da era de Clinton, encabeçados por Hilary Clinton e Richard Holbrook. O passo seguinte foi afastar o comandante dos EEUU no Afaganistão, general David McKierman, e nomear o general Stanley McChrystal, conhecido sobretudo por ter dirigido a secção epecializada de assassinatos do comando conjunto de Operações Especiais (...) .

Com desbragada insolência, o general McChrystal desenvolve agora uma campanha para mais 40.000 soldados adicionais no Afaganistão.

Harry Truman foi um presidente que lançou desnecessariamante bombas atómicas sobre Hiroshima y Nagasaki (...) . Lançou também a corrida armamentista da Guerra Fría em 1948. Apesar de tudo, os norteamericanos veneram-no, por duas coisas: pela advertência (referindo-se aos horrores da 2ª Guerra Mundial) “aqui termina a batata quente” e pela espectacular destituição de um herói da guerra, general Douglas MacArthur, por insubordinação, ao por em questão a direcção da guerra da Coreia por parte de Truman.(...)

Ora McChrystal não é um herói de guerra, como MacArthur. A gente necessita de uma prova de que Obama tem fibra na alma. Alto risco, talvez, mas a (demissão de McChrystal) seria, potencialmente, um grande êxito para Obama num momento políticamente muito complicado; e também uma airosa saida para a humilhação com o fracasso da candidatura de Chicago aos Jogos Olímpcos de 2016.
(...)
Não se alcança luz no fundo do túnel. A guerra dos robots, dos mísseis Predator enfurecem todos os afegãos (...). Com mais tropas e mercenários agora no Afaganistão que durante a presença militar soviética no seu ponto culminante, não há a menor possibilidade de que os Estados Unidos da América do Norte possam terminar o conflito e jogar um papel construtivo de largo prazo no Afaganistão. A pesença dos Estados Uidos não é senão pretexto de propaganda para recrutamento de mais e mais talibans (...).

No entanto Obama está rodeado pela mesma estirpe de intelectuais que persuadiram Lyndon Johnson a destruir a sua presidência com a escalada bélica no Vietname...”

Alexander Cockburn: editor da Revista CounterPunch
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CounterPunch ("Contra-golpe" em português) é uma revista bisemanal publicada nos Estados Unidos da América do Norte, dedicada a temas políticos.

CounterPunch é famosa pela sua crítica radical a Republicanos e Democratas e pelas suas extensas reportagens sobre o meio-ambiente, sindicatos, política externa e o conflito Israel-Árabe.

segunda-feira, outubro 12, 2009

Meu amigo Zeca - empresário (parte 2)

Vocês lembram-se de meu amigo Zeca?

A última vez que dele vos falei aqui deixei-o em afanosa tarefa de deslindar as pegadas dos moiros nas insígnias de um município no norte do País. Como não vos quero privar da sequência de sua saga, eis-me em solicito cumprimento de meu múnus de relator...

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Aquilo era demais, convenhamos - virem, assim uns “bárbaros” sulistas a dar lições de história local!... Suprema humilhação!

O distinto Presidente, como quem apanha um murro no estômago, titubeou, mas não se deu por vencido. Saiu da cadeira, sibilando – “essa agora!... essa agora!” -fez minuciosa análise à bandeira e, perante a contrariedade da evidência e a perplexidade dos circunstantes, exclamou:

- “E eu que nunca tinha dado por isso!... Mas já vou tirar tudo a limpo”...

Bamboleando as nádegas, tal odalisca fora de prazo, o Presidente atravessou a sala em direcção ao telefone. Do outro lado, titubeante, o vereador da Cultura replicando à pergunta inesperada:

- “Moiros?!... Se houve moiros no concelho?!”...
- “Sim. Moiros no concelho!... que sabes tu disso?!...” – insistiu ansioso o Presidente.

E tapando o telefone, enquanto aguardava, expectante, a resposta que se adivinhava frustrada, o Presidente alargou o olhar aos circunstantes e, em desabafo contido:

- “Tanto que me bati para nomear este gajo como vereador da Cultura e querem ver que não sabe se existiram moiros no Concelho...”

E, de facto, depois de uns momentos de silêncio constrangedor, pressentindo-se em ebulição os (parcos) neurónios do vereador, chegou a resposta, embrulhada em titubeantes desculpas: que não, que não sabia! e nem nunca lhe constara terem havido moiros no Concelho... Mas se ele, Presidente, assim o desejasse, dentro de momentos a Dr.ª Filomena, directora dos Serviços Culturais, estaria na sua presença para completa elucidação do assunto.

- “Manda-me cá essa gaja... “ - ordenou o Presidente, em voz de falsete e tom desabrido, suspeitando-se pelo esgar a enorme contrariedade que a presença da Directora lhe provocava.

Ainda o charmain insistiu, cerimoniosamente, ansioso seguramente por entrar no assunto que ali os trazia para o "Presidente não se incomodasse..., que não valia a pena... que por certo a Presidente tinha toda a razão e que nunca por ali houvera moiros..., que a sua leitura das insígnias municipais assentava, por certo, nalgum equívoco de alguém que não era especialista...”:

Mas o Presidente foi peremptório:

- “Não! Agora faço questão! Este assunto tem que ficar esclarecido. Eu não sou homem para deixar para depois o que pode ser resolvido já!...

Entreolharam-se os circunstantes, aceitando o destino com bonomia, bem sabendo eles que se “Paris vale uma missa” também os interesses económicos em jogo justificavam os desconchavos de um Presidente da Câmara...

O silêncio, cortado pelos olhares cruzados e os semi-sorrisos dos visitantes, foi entretanto interrompido por um discreto toque na porta e a entrada triunfal da Dr.ª Filomena, uma balzaquiana espampanante, emoldurada em tailleur laranja, sobre os qual se derramava uma opulenta cascata de cabelos negros, longos e encaracolados.

Afogueada e empenhadíssima, no alto de seus tacões, lançou sobre a sala, povoada de ilustres forasteiros, soberbo olhar famélico, em jeito de leoa que, na floresta, tivesse detectado, plena de lascívia felina, a novidade da caça... “Uma lua crepitosa em noite quente e plena de Agosto”, como o Zeca, em arroubo poético, distinguiu a aparição!...

Porém, sobre “quarto crescente” nas insígnias municipais, a Dr.ª Filomena prestou uns esclarecimentos confusos. Que talvez sim, ou talvez não, que a única hipótese admissível era a de que os cruzados, nos tempos da reconquista, terão atravessado o concelho; ora, como se sabe, onde há cruzado há moiro, logo é possível que...

Nesta fase da erudita explicação, quiçá prolixa, o Presidente pigarreou e, sardónico, soltou o chicote de seu falsete, zurzindo, impiedoso, o denodado esforço da Dr.ª Filomena que, com manifesto prazer, exibia seu charme e sua erudição...

- “Ó doutora, deixe lá essa treta dos cruzados!... A questão e simples e clara: houve ou não moiros no concelho?! ... É que se não esclarece esta magna questão, a mim e aos nossos visitantes, terei de concluir que não passa de uma burra com saias...”

O silêncio, até então oscilando entre o divertido e o enfado, gelou. A “pobre” doutora ainda ensaiou uma desculpa qualquer e, em sua fragilidade de vítima de um mais que evidente erro de casting, teve a ousadia de invocar a penúria do orçamento municipal para actividades culturais.

Antes o não fizera:

- “Ó sua... ó sua... incompetente! Pois atreve-se?!...” - casquinou o Presidente, qual cascavel cuspindo veneno - “eu não lhe admito, ouviu?! ... As minhas ordens são para cumprir, não para discutir!...”

E, colérico, com o dedinho roliço espetado:

- “Trate de saber imediatamente se houve moiros no concelho, antes que a reunião termine e estes senhores partam. Era o que me faltava!...”

E, descorçoado, atirando-se para o presidencial cadeirão:

- “Estou rodeando de incompetentes!...”

Era demais!... Como poderia o Zeca, fulminado pelos prenúncios crepitosos do vulcão pronto a explodir, aceitar o vexame aquele soberbo exemplar do “sexo fraco”?!...

Reagiu, portanto...

E perante a surpresa dos presentes e a apreensão do chairman, que sobretudo velava pelo bom resultado da diligência que ali os trazia, o Zeca insinou-se .

- “Ó senhor Presidente, tenho uma sugestão para resolver as preocupações, que nós inadvertidamente lhe causamos – o senhor presidente coloca no estandarte do Concelho o imponente menir que daqui se avista e nós levamos a connosco a malfadada lua...”

(Referia-se o meu amigo Zeca a um desse monumentais falos pré-históricos apontados ao Céus, que pululam no país rural e que, no caso, decorava a entrada dos Paços do Concelho, ao alcance do olhar através da janela aberta.)

A insólita proposta apanhou todos de surpresa. E intrigados entreolhavam-se. Apenas as longas pestanas da Dr.ª Filomena se moveram para o Zeca, num doce e cúmplice pestanejar, prenhe de promessas...

Entretanto, os sorrisos abriam-se, no rosto dos “bárbaros” visitantes sulistas! E, após fecunda ponderação, para pasmo dos presentes, o Presidente, confiando o queixo, exclamou em exaltada anuência.

- “Ora aí está uma sugestão a ter em conta...”

Depois de firmado o contrato, já de regresso a Lisboa, o chairman para o Zeca:

- “Francamente, Zeca! Você é um exagerado! Um menir, hã? Não lhe bastaria um bom boneco do Bordallo?!...

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Acaba de me telefonar o Zeca anunciando-me que, no concelho em causa, as eleições autárquicas foram ganhas pelo presidente de sempre. Que o contrato vai de vento em pompa! E que, assim, as suas visitas ao norte irão continuar.

Para proveito próprio e alegria da “competentíssima” Dr.ª Filomena que tem dado sobejas provas de seu talento...

Um sortudo, meu amigo Zeca, não acham?

domingo, outubro 04, 2009

“Vibrato"

Que as palavras sejam
Canto de pássaros sob a máscara
Ainda quente de outros cantos
Recidivos...

Que se cumpram os prenúncios.
E a polpa dos dedos
Seja arrepio de pele sobre o dorso
Da vertigem...

E violoncelos tangendo a combustão
Dos corpos...

Livro de Horas
No mistério dos sentidos...

quinta-feira, outubro 01, 2009

Os homens, as coisas e os nomes...

A Revolução liberal de 1789, como se sabe, aboliu os privilégios pessoais. E, na sua pulsão libertadora, fundou uma nova ordem social e proclamou a Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão para a qual “os homens nascem e permanecem livres e iguais em direitos; as distinções sociais não podem ser baseadas senão na utilidade comum.” Em consequência, o direito ao nome, no conjunto dos direitos de cidadania, não será mais objecto de outorga, mas antes considerado como direito natural, inerente a todos os indivíduos.

Sinal imprescindível da personalidade, o nome pessoal extravasa, porém, a palavra que o enuncia. Representa, sobretudo, aquilo que somos; ou seja, o nome é o símbolo de que reveste seu titular e unifica o indivíduo: estrutura corpórea, mas também a dimensão psíquica e conjunto de valores éticos, políticos, intelectuais e morais, que definem o carácter.

Por outras palavras, o nome constitui o sinal mediante a qual a sociedade nos interpela, a evocação pelo qual somos reconhecidos durante toda a vida e, de alguma forma, nos propaga no tempo, pois que, como símbolo da identificação e da individuação pessoal, nos vincula à nossa vivência e ao mérito (ou demérito) da nossa participação colectiva.

Na sua dimensão simbólica, o nome pessoal é também expressão de uma ideologia: de classe, de grupo ou de uma família. Os nomes pessoais falam para além das pessoas que designam. Revelam mais do que afirmam. Desde logo porque, hoje em dia, para as grandes massas aculturadas pela ideologia dominante são um fenómeno de moda (“Maria Albertina porque foste nessa/ de chamar Vanessa/ à tua menina?”).

Noutros casos, sobretudo, nas classes dominantes, o nome pessoal é a projecção social de um futuro que proclama, por isso, no nome de baptismo se inscrevem as referências familiares dos antepassados mais distintos, num processo que (dir-se-ia) da mesma natureza com que os primitivos usurpavam o nome dos animais ou fenómenos naturais que os seduziam. Em boa medida, é verdadeira a expressão “diz-me como te chamas dir-te-ei quem queriam que fosses...”

Este fenómeno é replicado nos processos democráticos ou revolucionários, em que os nomes de líderes e de vultos destacados, são assumidos pelas massas e os inscrevem no registo dominante dos nomes próprios em determinado momento histórico. Por exemplo, na geração do post 25 de Abril, são frequentes os nomes de “Vasco” e de “Catarina”, como homenagem a dois mitos maiores da revolução – Vasco Gonçalves e Catarina Eufémia.

Acontece que, na sua expressão simbólica, os nomes podem ser manipulados como instrumento de luta ideológica. De facto, como se referiu, o nome é direito natural de que todos homens, sem distinção, são sujeitos. Quer dizer, portanto, que o nome igualiza todos os homens, colocando-os, ao menos no plano formal (deixando por agora de fora as desigualdades derivadas da situação concreta de cada um no sistema de produção), em lugar idêntico perante o direito e a sociedade.

Mas se o direito igualiza, a ideologia distingue.

Vejamos. Os nomes produzem um efeito especular, unificador das características pessoais de cada um, que no seu conjunto definem a sua individualidade própria. É mediante esse efeito que os indivíduos em concreto se reconhecem e a sociedade os interpela como homens e cidadãos. Eliminar ou elidir alguma das características individuais expressas simbolicamente no nome, será diminuir a personalidade do indivíduo. Ignorar deliberadamente o nome de uma pessoa é, de alguma forma, decretar a sua “morte civil”...

Quem seguiu atentamente os debates entre os líderes políticos, no contexto das recentes eleições para a Assembleia da República e verificou a persistência da dr.ª Ferreira Leite, presidente do PPD/PSD, em não pronunciar o nome de Jerónimo de Sousa, Secretário-geral do Partido Comunista Português, compreenderá o que pretendemos dizer.

Na boca da ilustre senhora, Jerónimo de Sousa foi sistematicamente nomeado como “senhor deputado”, privilegiando, do efeito especular do nome, o lugar institucional em que o Secretário-geral do Partido Comunista se move.

Com um duplo efeito ideológico. Por um lado, negando o nome próprio, negava também a igualização social, no igualitário contexto do debate. Por outro, distinguindo a qualidade de deputado elidia outras notáveis características que irradiam da personalidade Jerónimo de Sousa – p. ex., a sua historia de vida, a sua militância política e a sua condição de comunista.

Na melhor tradição dos tempos da “velha senhora”...

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Eu sei que não faltam motivos para crónicas mais divertidas e algumas farpas. Afinal o homem "que nunca se engana e raramente tem dúvidas" cultiva suspeições e trapalhadas.

Mas não perde pela demora. Ainda a procissão vai no adro...

domingo, setembro 27, 2009

O baile da Coroa...

Eram esperados novecentos convivas e apenas compareceram quatrocentos e tantos. Assim na provisão dos víveres, houve um enorme saldo em favor da coroa.

Montes intactos de bolos excedentes perpassavam nas bandejas por entre as barretinas boquiabertas suspensas do braço esquerdo dos Srs. oficiais do exército, e as barretinas bocejavam de desdém perante as iguarias que debalde tentavam excitar-lhes a avidez...

Felizmente, o confeiteiro que fornecera os bolos assistia ao baile; tomava parte nas reais quadrilhas; as senhoras cumprimentavam-no pela delicadeza dos seus produtos, e quando ele dizia:

- “Condessa, faz-me a honra da seguinte contradança?”

Uma fina voz aristocrática, acompanhada de um soberano e complacente sorriso, respondia:

- “Com prazer: estão deliciosos os seus bolos de ovos!”

De modo que o confeiteiro, cativo de tão amável acolhimento prometeu desinteressadamente aceitar os fornecimentos que sobejassem...


Ramalho Ortigão – in “As Farpas”
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Começaram as mesuras. A dança e a contradança seguem dentro de momentos. Sem ilusões quanto à música...

sexta-feira, setembro 25, 2009

Votemos no Futuro!...

(...) "Fingiu o príncipe dos poetas latinos que pediu Vénus, mãe de Eneias, ao deus Vulcano lhe fabricasse umas armas divinas, com que entrasse armado na dificultosíssima conquista de Itália, com que vencesse os reis e sujeitasse nações belicosíssimas que a dominavam, e com que, vitorioso, fundasse naquelas terras o famosíssimo Império Romano, que pelos fados lhe estava prometido.

Forjou Vulcano as armas, e no escudo, que era a maior e principal peça delas, diz que abriu de subtilíssimas esculturas as histórias futuras das guerras e triunfos romanos, compondo e copiando os sucessos pelos oráculos e vaticínios dos profetas e pelas notícias próprias que tinha, como um dos deuses que era participante dos segredos de Júpiter.
(...)
O ofício e obrigação dos poetas não é dizerem as cousas como foram, mas pintarem-nas como haviam de ser ou como era bem que fossem. E achou o mais levantado e judicioso espírito de quantos escreveram em estilo poético que, para vencer as mais dificultosas empresas, para conquistar as mais belicosas nações e para fundar o mais poderoso e dilatado Império, nenhuma arma poderia haver mais forte, nem mais impenetrável, nem que mais enchesse de ânimo, confiança e valor o peito que fosse coberto e defendido com ela, que um escudo formado por arte e saber divino, no qual estivessem entalhados e descritos os mesmos sucessos futuros que se haviam de obrar naquela empresa.

Assim armou o grande poeta ao seu Eneias...

E este mesmo escudo, não fabuloso, senão verdadeiro, e não fingido depois de experimentados os sucessos, senão escrito antes de sucederem, é propriamente e sem ficção, o que nesta História do Futuro ofereço, Senhor, a Vossa Majestade .

Dobrado de sete lâminas dizem que era aquele escudo; e também o da nossa História, para que em tudo lhe seja semelhante, é publicado em sete livros. Nele verão os capitães de Portugal sem conselho, o que hão-de resolver; sem batalha, o que hão-de vencer e sem resistência, o que hão-de conquistar.

Sobretudo se verão nele a si mesmos e suas valorosas acções, como em espelho, para que, com estas cópias de morte-cor diante dos olhos, retratem por elas vivamente os originais, antevendo o que hão-de obrar, para que o obrem, e o que hão-de ser, para que o sejam".


Padre António Vieira – in “História do Futuro” – edição Imprensa Nacional/Casa da Moeda.
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Antevejamos “o que há-de ser, para que seja!...” Votemos no Futuro!...

domingo, setembro 20, 2009

Em tempo de eleições...

Como se sabe, a Revolução liberal e a filosofia racionalista que a inspirou, formularam a ideia de “contrato social” expresso nas diversas constituições dos povos, como fundamento da ordem jurídico-política e acreditou-se que, a partir dela, todo e qualquer o processo político passaria a decorrer disciplinado pela racionalidade expressa no direito positivo.

Um grande equívoco, reconhece-se hoje. Modernos autores notam que a realidade política não se confunde com a realidade do direito, embora a ela submetida e admitem que, apesar dos regimes do Ocidente tenderem a fazer coincidir a comunidade política com o conjunto da população, o processo político demonstra que os não participantes crescem cada vez mais, a ponto de constituírem por vezes uma maioria.

Nada que, empiricamente, cada um de nós, não saiba. Como todos nós também temos a noção de que o crescente alheamento dos cidadãos da vida política, é sintoma de uma doença profunda da chamada democracia representativa. Porém, importa reconhecer, que “o desfasamento entre a racionalidade normativa e a realidade política”, que o crescente alheamento da população revela, não é unívoco, que dizer, tem expressões e significações diversas, conforme as camadas sociais que o medeiam e a perspectiva de quem a ordem normativa serve (ou não serve).

A pulsão de rejeição pode, de facto, revelar uma atitude de passividade por parte da população, cujos interesses estão plasmados e garantidos na ordem normativa em vigor, pois seja qual for o resultado do pleito eleitoral os interesses dominantes serão sempre salvaguardados. Mas, por outro lado, a passividade dos cidadãos pode ser consequência do sistema político se encontrar bloqueado num processo de alternância, sem alternativa política. Num caso ou no outro, por razões distintas, o impulso da participação será pouco estimulante...

Acresce que o próprio funcionamento do sistema alimenta a distância entre os cidadãos e a política em razão do que os autores designam pela lógica da “captura do poder de sufrágio”. Trocado por miúdos. A democracia representativa tem seu fundamento nos cidadãos eleitores, que através do voto transferem para os órgãos de soberania o poder originário que neles reside.

Simplesmente, do ponto de vista político as coisas passam-se de maneira bem diferente. Do que se trata, é luta pelo poder, a procura da “captura” do poder, mediante todas as promessas, nem que seja bacalhau a pataco.

Práticas nascidas, entre nós, no período áureo do constitucionalismo, como o caciquismo, o voto de cabresto, a falsificação dos cadastro, o voto dos mortos, o compadrio, que ao fim e ao cabo revelam realidade da luta política travada.

Entretanto, estes métodos refinaram: no financiamento do partidos, na sofisticação do marketing, na osmose entre a política e os interesses económicos, nos custos financeiros das companhas eleitorais, etc. etc.; mas não poderá negar-se que o paradigma da “captura do poder de sufrágio” se mantém, porventura, ainda mais vivo e actuante que nos alvores da democracia representativa.

Em síntese, pode dizer-se que a vocação da democracia representativa e a sua “bondade” integradora do conjunto da realidade político-social é claramente postergada a diversos níveis:

a) Na existência de largas margens de abstencionistas, que em regra não participam na política e constituem as chamadas maiorias silenciosas;

b) Na existência de cada vez maior extractos de população que, de facto, são excluídos do sistema, por falta de condições materiais do exercício da cidadania;

c) Na emergência de novas questões sociais que convivem mal com os valores tradicionais da democracia representativa, porquanto não foi “pensada” para os resolver (ambiente, consumo, as ditas questões “fracturantes”, os novos direito de cidadania, etc.).

d) Na “captura do poder de sufrágio”, bem como nas práticas dos agentes políticos, que são factores de descrédito e de abstenção política e que podem constituir pretexto para pulsões antidemocráticas.

Que fazer, então?!... Votar, está claro! Naquelas organizações políticas que não têm ilusões sobre os limites e equívocos do actual sistema. E que se propõem alargar e aprofundar os direitos sociais e políticos e assim inscrever um novo conteúdo e uma nova dignidade no conceito de Democracia, conferindo-lhe dimensão política, económica, social e cultural, num novo “contrato social”, que as circunstâncias históricas actuais manifestamente exigem...

terça-feira, setembro 15, 2009

O adjunto da Sãosinha...

A Sãozinha tem um adjunto. Um rapagão ruivo. Na minha visita ao “paraíso” da Sãozinha aqui cruzamo-nos, salvo seja, na soleira da porta. O adjunto atarefado em afã de despacho com o presidente da Câmara. Eu a saborear antecipadamente a gulodice que me esperava, no desvelo da Sãozinha!...

O adjunto é bem apessoado. Do alto do seu metro e oitenta lançou-me olhar arrasador, que, se não fora a Sãosinha puxar-me, de certo me transformaria em estátua de sal. A caminho do “paraíso”, a Sãozinha explicou-me tudo...

O adjunto é uma cunha sagrada. Intocável. Do outro lado da serra quem pontifica na política é padre Sarzedello (com dois “ll”, não confundam). O Padre domina uma boa mão cheia de votos. Como poderia – digam-me! - dizer não à “empenhoca”!? Para todos os males da Sãozinha!...

O adjunto é, pois, protegido do padre. Um primo afastado, mas as parecenças são tantas, que há quem diga que o parentesco é mais chegado. Da fama não se livra o padre e o adjunto. Mas, decididamente, não passará de umas “bocas” dessa gentalha da extrema-esquerda...

Mas vamos ao que interessa, quer dizer, ao perfil do adjunto e à sua promissora carreira. Pela mão da Sãozinha, está bom de ver. Contava-me, então, a Sãosinha que, de início, deu o seu acordo. Uma licenciatura em Antropologia Social e uma boa figura, era mesmo o que ela precisava para aliviar as tensões do cargo:

- “Todo o santo dia os dois sozinhos, metidos naquele casarão, naturalmente, alguma coisa deveria acontecer!” – desabafa...

Mas os dias passaram, monocórdicos "e não se passa nada"!... Então a Sãosinha começou a olhar o adjunto com outros olhos. - “Com olhos de ver!” - sublinha, enfática.

Conta-me, então, que um dia, o adjunto no alto de uma estante, onde arrumava uns livros e manuscritos antigos, solta um grito estridente:

- "Ó doutora, venha cá. Anda um bicho a comer as páginas deste livro!”...
- “Ó homem, feche o livro já, antes que o bicho faça mais estragos cá fora!...”

Gargalhei, com gosto, com a malícia angelical da Sãozinha.

- “Que querias tu que eu lhe dissesse”? que fosse eu a matar-lhe o bicho?!...” – atirou-me, agastada, com a minha gargalhada...

A Sãosinha, que não é parva de todo, bem desconfiava!... Desde que o adjunto lhe começou a aparecer, pela manhã, com olheiras fundas e sobrancelhas depiladas. Mas agora tem a certeza.

- “Imagina tu – garantiu-me – que um destes dias se apresentou, vestindo umas calças sem braguilha... Um laço, no lugar da braguilha!”...

E, completamente, descorçoada:

- “Já viste a minha sina?!... Uma completa aberração: este burgesso usa calças de mulher!...”

De facto, isso não se faz à Sãosinha! Um adjunto sem braguilha?!... Francamente!...

Consta-me que o padre Sarzedello está muito doente. Talvez a Sãosinha ainda consiga um adjunto como deve ser!...
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Afinal, o padre Sarzedello está vivo e fero. E, assim, naturalmente, a Sãosinha não tem forma de se desfazer de semelhante burgesso. Estou quase tentado a sugerir-lhe que o recomende à drª Ferreira Leite. Que vos parece?!...






quinta-feira, setembro 10, 2009

Variações sobre Magritte...




colhe o poeta a cor do sonho na paleta
com as nuvens sobe a esfera onírica porém presa
e na nesga rasgada sem saber se sai ou entra
o mar ao longe...

advinham-se corpos irreais em transparência
reclinados sobre colchas sem memória
como sombras pressentidas na luz imensa
que o dia clama...

talvez crianças caprichosas ou velhos faunos
desfaçam a cortina ou a subtil brisa os descubra
desnudados sem culpa ou sem remorso
bárbaros e puros...

talvez deste lado da paisagem onde beijos correm
como ondas e os dedos do poeta se deslaçam
o azul capriche no tempo breve e em suave tarde
os corpos reinem...

domingo, setembro 06, 2009

Tempo de vindimas...

Port Wine

O Douro é um rio de vinho
que tem a foz em Liverpool e em Londres
e em Nova-York e no Rio e em Buenos Aires:
quando chega ao mar vai nos navios,
cria seus lodos em garrafeiras velhas,
desemboca nos clubes e nos bares.

O Douro é um rio de barcos
onde remam os barqueiros suas desgraças,
primeiro se afundam em terra as suas vidas
que no rio se afundam as barcaças.
Nas sobremesas finas, as garrafas
assemelham cristais cheios de rubis,
em Cape-Town, em Sidney, em Paris,
tem um sabor generoso e fino
o sangue que dos cais exportamos em barris.

As margens do Douro são penedos
fecundados de sangue e amarguras
onde cava o meu povo as vinhas
como quem abre as próprias sepulturas:
nos entrepostos dos cais, em armazéns,
comerciantes trocam por esterlino
o vinho que é o sangue dos seus corpos,
moeda pobre que são os seus destinos.

Em Londres os lords e em Paris os snobs,
no Cabo e no Rio os fazendeiros ricos
acham no Porto um sabor divino,
mas a nós só nos sabe, só nos sabe,
à tristeza infinita de um destino.

O rio Douro é um rio de sangue,
por onde o sangue do meu povo corre.
Meu povo, liberta-te, liberta-te!,
Liberta-te, meu povo! – ou morre"


Joaquim Namorado

Boa colheita. E que o mosto fermente... Sem mistelas, como deve ser...
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Joaquim Namorado viveu entre 1914 e 1986. Nasceu em Alter do Chão, Alentejo, em 30 de Junho. Licenciou-se em Ciências Matemáticas pela Universidade de Coimbra. Foi durante dezenas de anos professor do ensino particular, já que o ensino oficial, durante o fascismo, lhe esteve vedado.

Depois do 25 de Abril, ingressou no quadro de professores da secção de Matemática da Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade de Coimbra.

Notabilizou-se como poeta neo-realista, tendo colaborado nas revistas Seara Nova, Sol Nascente e Vértice. Entre muitas outras actividades relevantes, foi redactor e director da Revista “Vértice”, onde ficou célebre o episódio da publicação de pensamentos do Karl Marx, assinados com o pseudónimo Carlos Marques.

Um dia, apareceu na redacção um agente da PIDE a intimidar:“ ó Senhor Doutor Joaquim Namorado, avise o Carlos Marques para ter cuidadinho, que nós já estamos de olho nele”...

Poesia: "Aviso à Navegação", "Incomodidade" e "A Poesia Necessária".

quarta-feira, setembro 02, 2009

"Não há Festa como esta..."



“Ana e Cátia estão penduradas num andaime, a trabalhar sob um sol opressivo. Têm 20 anos cada uma e beleza distribuída pelas duas, em regime de igualdade. Estão a pintar. Falam lá de cima, depois descem, trinchas nas mãos. Cátia Carvalho, cabelo comprido, óculos escuros e cara pintalgada de tinta branca; Ana Brasil, morena, calções curtos e um top precário.

Ana é da Juventude Comunista Portuguesa (JCP) desde 2005, Cátia simpatizante. São de Almada, mas estão a trabalhar no pavilhão de Vila Real, por solidariedade...
(...)
Pergunta: "por que estão aqui a trabalhar, num dia de calor como este, sem ganhar nada"?
“Acredito na causa", responde Ana.

“Acredito nos ideais”, responde Cátia. - “Tenho amigos que não são comunistas, e as suas conversas são fúteis. Só pensam em festas, em sair à noite ... Não ligam à política.”

Lêem aquelas revistas cor-de-rosa?”
Acho isso ridículo. É um desperdício de dinheiro, de tempo. As pessoas vão perdendo QI, quando lêem essas coisas”

"Aqui na festa há outras conversas"?
“Falamos sobre a vida, sobre o país e os seus problemas, o comunismo ... Há sempre tema de conversa. E participam os mais novos e os mais velhos.”

Cátia lembra-se:
Ainda hoje de manhã, (...) estivemos a criticar os jovens que vêm à festa só pelos concertos”.

E recorda Ana:
Isto não é apenas um festival. Não é por acaso que há pavilhões sobre o comunismo ...”

Ana faz uma expressão irritada, de quem não está a conseguir expressar o que é realmente importante.
“Eu venho para aqui porque isto é real. Existe mesmo. Não é um sonho.”

Agora piorou. A amiga tenta ajudar:
Os média dizem que é impossível, que é uma utopia.”

Esforçam-se por explicar, agora sentadas no chão, no calor de Agosto, todas sujas de tinta branca, que estão aqui porque querem acreditar nalguma coisa. Cátia estuda Ciências da Educação, mas quer ser enfermeira e partir para África. Ana gosta de dança e teatro, ouve Bob Marley e pratica Muay-thai, uma arte marcial tailandesa que significa “luta dos livres” Quer encenar “peças com uma mensagem”. Também pensa em partir. (...) Não querem casar, nem ter filhos. Adoptar, sim.

"Há tantas crianças abandonadas, que precisam de amor” diz Ana - “Gostaria de ser um guia na vida de algumas delas. Isso faria de mim uma pessoa melhor.”

Cátia, de olhar sereno, concorda:
“É bom ajudar alguém”...

Estão aqui pela sua água da sede dos olhos: a densidade do real, o idealismo tornado possível, levado a sério. Estão aqui para discutir tudo, muito a sério.
(...)
A Quinta da Atalaia está cheia de gente, apesar de a festa ainda não ter começado. Brigadas de voluntários de todo o país participam na construção dos vários pavilhões e das estruturas que tornarão possível o mega-evento, que começa na próxima sexta-feira, perto da Amora, na margem sul do Tejo.

Há oficinas gigantescas, máquinas, operários por todo o lado. São centenas, todos os dias. Ao fim-de-semana, chegam ao milhar. São quase todos voluntários e mais de metade são jovens, segundo a direcção da festa. Os estudantes vêm mal terminam os exames, os trabalhadores passam aqui as suas férias. Nem todos pertencem ao partido. Há militantes e simpatizantes. Destes, muitos acabam por aderir ao Partido. (...)

E não há rebaldaria. Cada um sabe o que tem de fazer”- diz Francisco, 57 anos, funcionário da PT, que, de tronco nu e boné vermelho, está a coordenar um sector da construção, no pavilhão de Lisboa. (...) -“Estes jovens cumprem. São responsáveis. Não é preciso dizer-lhes nada. À luz das regras de uma empresa, é impossível compreender isto”.
(...)
Paulo Moura – in revista “Pública” de 30.08.08
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Em verdade, em verdade vos digo: “não há festa como esta!”




sexta-feira, agosto 28, 2009

Antes a incerteza do caos...

Mais além cumes desérticos e as eternas neves
No colapso dos dias. Veredas de solidão na vertigem
E no abismo das cidades onde a cólera em surdina
Compõe a sinfonia do medo e os pombos tombam
Feridos pelo ar fétido que respiramos impudentes...

Balões na mão das crianças são apenas pretexto
Das bombas incendiárias que trazemos no olhar
Do grito dos passos nas calçadas e das gargantas
Mudas. Do terror gelado no sangue supérfluo
Que derramamos - pão incerto que nos roubam...

Despimo-nos e vestimo-nos na nossa nudez frágil
Como se o arrepio da pele fosse fluidez de orgasmo
E as heras que nos habitam e entopem as veias
Fossem diapasão da verdade ou memória de destroços
A que nos agarramos pressurosos de eternidade...

Por isso a montanha e os gelos. Refúgio de pássaros
Deserdados. E de itinerários perdidos na distância
Dos dias verdadeiros. Por isso o sonho crepuscular
Rangendo estéril de tão perfeito. Canto desesperado
Que em vão ecoa. Praças e rios que se negam fugidios...

Antes a (des)harmonia do caos. O declive das colinas.
A imperfeita palavra. E a poética sem rima. E a luz
E a treva. O sal das lágrimas e a raiva. E o punho.
E o sabre. E o peito aberto. O caminhar vagabundo.
E o sangue em frémito de insubmissa humanidade...

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Bom fim de semana. Beijos e abraços...



terça-feira, agosto 25, 2009

O meu amigo Zeca - empresário!...

Como por certo se recordam, o meu amigo Zeca, solteirão impenitente, alentejano de Beja, economista do Quelhas e protector de donzelas desvalidas, esteve em risco de “ter uma vida boa”, não fora a atracção desmedida pelo sexo fraco, ou talvez mais exactamente, não fora o irresistível fascínio que derrama sobre tudo que é saias. Ironicamente, foram o sapato apertado de uma octogenária senhora e seus sofridos joanetes a causa da sua desgraça, como noutra ocasião vos contei aqui

Posto no “olho da rua” da empresa pública, onde, com rasgada visão de futuro, era assessor da administração, o Zeca teve que se virar... Viveu uns tempos dos rendimentos familiares, mas um homem não pode ficar parado toda a vida. Como bem se sabe, a evolução da espécie humana tem sido caprichosa e injusta: o homo faber acabou por dominar o homo eroticus, até mesmo nas naturezas mais refractárias, como é o caso do meu amigo Zeca...

Enfim, depois de uns tempos “à vara”, que é como quem diz, sem outras responsabilidades que não fosse apascentar suas pulsões predadoras, decidiu o Zeca voltar ao trabalho, agora por conta própria, pois era para meu amigo ponto assente, em laudas de juramento lavrado, que “filho de puta nenhum lhe daria mais ordens, nem teria tomates para o despedir...” (sic).

Foi assim que nasceu a pródiga empresa de consultadoria, de que o meu amigo Zeca é sócio fundador e gerente único e cujo volume de negócios está em proporção inversa à respeitabilidade da barriguinha do meu amigo. Quer dizer, agora com o pendor femeeiro mais amaciado, quando a liquidez da empresa o permite, o Zeca relaxa na culinária e na borga e, então, a barriga entra em espiral inflacionária ou, em momentos de crise, com o stress do trabalho, o arredondado da barriga reduz-se à expressão de normalidade mais simples ...

Foi, num desses momentos de gloriosa euforia, a última vez que estivemos juntos, no seu espaçoso apartamento debruçado sobre o Tejo, com mais um pândegos da trupe da Universidade. À volta da mesa, como se deduz, trucidando uns borrachos, que o Zeca sabe estufar como ninguém...

Então, já na fase dos charutos e do conhaque, o Zeca saiu-se com uma das suas hilariantes “estórias”, de que vos dou conta, bem sabendo eu que a cor e o tom se irão perder no percurso entre viva loquacidade do Zeca e a escrita sensaborona a que me acorrento ...

“Esguardai”, portanto...

Um certo grupo empresarial, a que a empresa do meu amigo Zeca presta apoio na área de auditoria e da fiscalidade, decidiu dedicar-se às energias renováveis, na mira dos propalados apoios comunitários. Feitos os estudos e avaliado o projecto, a que o Zeca esmeradamente se dedicou, foi decido que a fábrica seria instalada no norte do País, por razões óbvias do preço da mão-de-obra e outras vantagens. Escolhido o local, havia que negociar com o Município apoios e contrapartidas. Na data acordada, depois de contactos prévios, luzidia comitiva, ida de Lisboa, deslocou-se ao município em causa, chefiada pelo “chairman” do grupo, um vulto destacado da política e dos negócios...

Dispenso-vos da colorida discrição que o Zeca fez do roliço presidente da Câmara, afiambrado no blazer azul com botões de metal e o inevitável lenço de seda, a aconchegar a dupla papeira. Digo-vos, porém, que antipatia foi fulminante, uma espécie de “coup de feu” invertido, a roçar o verdete da náusea...

Feitas as apresentações, perante o acentuado sotaque alentejano (que aliás o Zeca cultiva com prazer), o Presidente da Câmara, numa prosápia de gelar o amplo salão, fez uma qualquer alusão de mau gosto a moiros e ciganos, que ainda infestam o sul do País. Ora, o Zeca não é homem para se conter, mas não teve tempo para espingardar a resposta adequada. O chairman, com um sorriso felino a rasgar-lhe a face, antecipou-se. Dirigindo-se ao Presidente da Câmara:

- “Mas olhe, senhor Presidente, que aqui, pelo seu Concelho, não faltaram moiros; e, se bem observar, ainda é capaz de encontrar algum por aí disfarçado...”

- “Moiros aqui? No meu concelho? Nunca!... onde raio o senhor foi desencantar semelhante ideia?!"...- apavorou-se o Presidente.

Nessa altura, já o ambiente estava mais distendido. E o chairman, apontado para a bandeira do Município, imponentemente exibida, entre a bandeira da República e a bandeira da União Europeia:

- “Basta olhar para a bandeira do Município...” – sublinhou, alargando o sorriso...

E o outro, a ficar apopléctico:

- “A bandeira do Município? Mas que tem a bandeira?!...

- “Não tem nada que não deva, senhor Presidente! É aliás – acrescentou diplomático – uma bonita bandeira! Mas não deixa por isso de ostentar, no brasão, o crescente muçulmano!...”

E, com a gargalhada a estender-se pela sala, rematou:

- “Ora se os moiros não andaram por este concelho que faz o crescente muçulmano nas suas nobres insígnias?!"...

Aquilo era demais, convenhamos - virem, assim uns bárbaros sulistas a dar lições de história local!... Suprema humilhação!

O distinto Presidente, como quem apanha um murro no estômago, titubeou, mas não se deu por vencido. Saiu da cadeira, sibilando – “essa agora!... essa agora!” - fez minuciosa análise à bandeira e, perante a contrariedade da evidência, saltou para o telefone e, ante a perplexidade dos circunstantes, exclamou:

- “E eu que nunca tinha dado por isso!...Mas já vou tirar tudo a limpo”...

(continua)

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Declaração de intenções:

1 - Como é notório, cultivo, com prazer, a "pronúncia do norte".
2 - Orgulho-me de, durante cerca de vinte anos, ter desempenhado funções autárquicas relevantes, legitimado por sufrágio eleitoral, num grande Municipio do País.
3 - Considero ainda hoje (apesar de todas as tropelias) o exercício do "Poder Local" como expressão, por excelência. de democraticidade e espaço de cidadania.

quarta-feira, agosto 19, 2009

"A cegonha de Gimonde..."

"Em Outeiro não há comida. Em Outeiro, à tarde (já muito tarde, sobretudo para onde se almoça à uma), não há nem comida nem gente bar, Cervejaria Bento, com uma bonita varanda cheia de plantas e de flores, mas onde, como o seu letreiro indica, só se serve Cerveja ou vinho ou café, mas nada consistente.

- Então cerveja, que remédio - diz o viajante, sentando-se e aceitando dessa forma, já sem forças, o seu destino. Se o Menino não fizer um milagre, hoje fica sem comer.

Mas o Menino está agora muito longe. Tal como Miranda, onde esta manhã o viajante comeu pela última vez (manteiga e com pão fresco) sem saber o tempo que demoraria a voltar a fazê-lo. São três menos vinte e até Bragança ainda falta.

- E não há nenhum restaurante?
- Havia - diz-lhe o dono.
- Havia? - pergunta o viajante.
- Sim, mas fecharam-no - diz o dono, indo embora e deixando-o mais só que o pelourinho da aldeia; um pelourinho de pedra, que se ergue diante do bar (e da igreja matriz) e que é, segundo os moradores, a jóia da comarca. Sem contar, claro está, com o velho castelo que, de uma colina, domina toda a aldeia.

- Dos mouros - disse o dono.

Mas o viajante já nem olha para eles. O viajante está tão farto de ver pedras e castelos que nem sequer se aproximou para os ver de perto. Pelo contrário, conforma-se em vê-los do bar, enquanto espera que o dono regresse com a cerveja.

- Aqui tem - diz.
- Quanto lhe devo?
- Cem escudos.
- Tome, está bem assim - diz, dando-lhe outros dez escudos para que veja que alguma coisa lhe deixa.

Não muita, verdade seja dita. Entre o calor que faz agora e a fome, que é já um cancro, o viajante está tão fraco que quase não pode com a cerveja. Assim, mal acaba de a beber (coisa que faz depressa, para não perder mais tempo), despede-se do bar Bento e do seu dono e regressa ao carro para continuar o seu caminho até Bragança. Com sorte chegará lá a tempo de comer alguma coisa.

- Adeus, Outeiro - murmura, enquanto se afasta da aldeia.

O caminho para Bragança é longo como as mágoas. Serpenteia pelos montes e pelas encostas do Sabor, que são cada vez mais solitários. Urzes, brejos, plantações de tomilho, uma ou outra oliveira entremeada e castanheiros que já se vêem entre aqueles, anunciando a presença da serra é tudo o que se vê, excepto algumas aldeias: Paço, Rio Frio, Milhão, todas desertas, agora; e todos esturricados tal como o viajante e a estrada. Embora, por esta, se vejam também, nas bermas ou junto de alguma árvore, flores que guardam a alma das pessoas que morreram ao atravessá-la. Em acidentes, segundo as placas, embora o viajante tenha dúvidas se não terá sido de fome. Nem em Paço, nem em Rio Frio, nem em Milhão, que é a maior, há uma simples taberna onde possa retemperar as forças.

Antes de Milhão, no entanto, com Bragança já avistando-se à distância (embora ainda muito longe) a estrada liga-se de repente à que vem da fronteira. Para Espanha 8, diz o letreiro, provocando no viajante a nostalgia dos cozidos e dos pratos da sua terra. Se não fosse por ter prometido a Manuel Costa barbear-se outra vez, iria, agora, embora por ela.

Mas a estrada não muda. Pelo contrário, torna-se mais sinuosa e mais inclinada. Com o Sabor já lá em baixo, no fundo do precipício, tem de descer pouco a pouco para conseguir alcançá-lo. Fá-lo e Gimonde, entre prados amenos, num bosque, onde uma ponte de seis olhos, romana de acordo com os roteiros, serve as pessoas que querem atravessar há tantos séculos como os que tem. Embora a ponte tenha agora um companheiro. Uma ponte nova, mais larga, por onde passam os carros deixando para a antiga o tráfego de peões.

Junto delas, o viajante pára. Para sentir a frescura do rio e para contemplar o choupo que se ergue entre as duas pontes. Um choupo alto e despido, como o mastro de um barco, mas em cujo ramo mais alto há um ninho de cegonha. É o único morador de Gimonde que saúda a sua presença quando chega.

- Conseguirei comer? - pergunta-lhe, enquanto contempla no rio a silhueta reflectida entre os juncos.

A cegonha não responde, nem se perturba (também está agora a dormir a sesta), mas, em troca, encaminha-o com o seu bico para o coração da aldeia; que não é a ponte, embora o pareça, mas uma casa muito velha que se ergue junto do caminho, mesmo ao lado daquela. De fora, mostra apenas a sua arquitectura típica, ainda que arranjada e bastante limpa (em contraste, sobretudo, com o resto das casas de Gimonde), mas, quando o viajante se aproxima para a ver, quase que desmaia. A casa é um restaurante e, além disso, ainda está aberto.

Não é apenas um restaurante; é o melhor da zona. Pelo menos, o melhor que o viajante conheceu até este dia. Antigo e recuperado (e com gosto, certamente: todo de pedra e madeira e com as paredes cobertas de azulejos), ocupa a antiga loja que, durante vários séculos, se ergueu à sombra da ponte. A loja do senhor Roberto, como se chamava o dono e como se chama ainda o restaurante que agora a ocupa. Mas o melhor não é isso.

O melhor, sem dúvida alguma, são as trutas do Sabor e a travessa de enchidos que servem ao viajante quando, depois de dar ao rabo, pois já iam fechar, lhe permitem aceder ao restaurante. Sem dúvida o Menino, da sua urna em Miranda, intercedeu por ele. O Menino ou a cegonha.

As trutas, os enchidos, os pratos, que são lindíssimos, a frescura, que agradece, e Isabel, a empregada (de Milhão, segundo lhe diz) que o atende com doçura - a mesma que dela emana deixam-no tão encantado que fica quase a chorar. Não o faz por vergonha. Mas, em troca, dá-lhe uma gorjeta tão grande que a rapariga até fica perturbada quando a vem buscar.

- Toma lá - diz o viajante. - É do Menino, sabes quem é?
- Claro - diz-lhe ela, a sorrir, enquanto lhe serve um bagaço transparente como o rio.
- Bagaço de Trás-os-Montes - adverte-o ao vê-lo sorrir.

Mas o viajante não lhe liga e bebe-o de um gole. Até repete a dose. De modo que, quando se afasta, já nem sabe quem é. Menos mal que a cegonha, que continua quieta no seu ninho, o recebe quando aparece e o guia até ao Sabor. Até à margem cheia de juncos e sombras de trutas pretas onde o viajante se deixa cair como se fosse mais uma delas. Que o Menino ou a cegonha o acordem quando quiserem..."


Júlio Llamazares – in “Trás-os-Montes – uma Viagem Portuguesa” - Ediffel

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Não há fome que não dê em fartura...
O que importa é não desistir e seguir em frente. E não acreditar em milagres...

A não ser nos milagres da cegonha.
Ou nos milagres do “Menino Jesus da Cartolinha” – que é General... lol

domingo, agosto 16, 2009

ROMANCE DAS MULHERES DE LISBOA NO REGRESSO DAS PRAIAS

Em terra, tantas gaivotas!
Mas que cedo que anoitece!
De automóveis sem capota,
como de conchas abertas,
saís vós, as pressurosas
deusas nos meses de estio,
favoritas do iodo
e dos cavalos-marinhos,
tontas cortesãs do Sol
que de bronze vos vestiu ...

Em terra, tantas gaivotas!
Vultos, sombras, calafrios ...

O que fostes não mais volta:
é diverso cada estio ...
Státuas de sàl e de sol,
o molde ficou perdido
nas areias e nas rochas,
todo cuspido de limos,
(... )
O que fostes já não volta,
ó efémeras Anfitrites!

Para quantas, dentre vós,
foi este o último estio?
(...)

Éreis estátuas de sal
e de sol, mas não soubestes
oiro e espuma eternizar.
Ai que cedo que anoitece!
Das sombras do litoral,
uma galopada investe
para vos arrebatar!
Rompem num choro as sereias
dos barcos supliciados.
Em vão cerrais as orelhas
aos brados que o temporal
contra vós desencadeia!

Em terra, tantas gaivotas!

Oh, que cedo que anoitece!
De comboios e ferry-boats,
como de estranhas galeras,
ressurgis para os encontros,
os cinemas, o comércio,
os funerais, as visitas...
E nos quartos de aluguer,
ou nos de vossos maridos,
ardereis, míseros restos,
até ficar derretido
todo esse bronze de empréstimo"!...


David Mourão-Ferreira – in “Obra Poética” - Editorial Presença
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Uffff....que calor!
Carpe diem, que o Verão é um ar que lhe dá...

(e vêm aí as eleições, que vão dar que pensar ... rss)

quinta-feira, agosto 13, 2009

"Sem semear ilusões..."



Foi publicado o nº1708 da revista "SEARA NOVA"- Verão de 2009

Destaco do Editorial:

(...) "Meio ano passado. Outro tanto por vir, contendo ainda as eleições legislativas e as autárquicas de Setembro/Outubro.

Que perspectivas? Não vale a pena semear ilusões...

É espectável que, com o pico sazonal do turismo, possa haver alguma animação económica (ou aparência de), mas no pós-férias a situação de vida dos portugueses vai agravar-se. E mesmo que existam alguns sinais de abrandamento da crise internacional, o que não é seguro, a crise portuguesa prosseguirá o seu caminho próprio, como já acontecia antecedendo a crise internacional.

Uma mudança de política é indispensável (...). Não uma mudança qualquer; mas uma mudança que propicie condições para uma ruptura com as políticas neoliberais, de direita.

. Uma ruptura com a submissão à eurocracia e às instituições e orientações europeias.

. Uma ruptura com a subordinação aos interesses económicos dominantes nacionais e internacionais.

. Uma ruptura com a complacência (não digamos mais) perante a corrupção política e económica.

. Uma ruptura com o esvaziamento das funções sociais do Estado e com a inépcia para assegurar o funcionamento da máquina estatal (incluindo os “estranhos” critérios na opção dos investimentos públicos).

Um governo como o de Sócrates, por muito que agora tente alterar o estilo para uma aparência de humildade e respeito democrático, será incapaz de romper com a política realizada ao longo de toda a legislatura, porque não lho permitem os interesses a que está ideologicamente enfeudado.

A alternância política entre os partidos do chamado “arco do poder” ou "centrão" já mostrou sobejamente que permite alternar, mas não as alterações de política que o País precisa.

A sociedade portuguesa foi defraudada nas esperanças e potencialidades que a Revolução de Abril criara. Domesticada nos limites de uma democracia formal, esvaziada de visão libertadora, desliza perigosamente para um alheamento dos valores da solidariedade, da cultura, do amor pátrio (...).

Neste quadro, se criaram grandes fortunas de origens obscuras e chegaram ao topo das responsabilidades públicas indivíduos medíocres sem horizontes colectivos.

As eleições legislativas, que aí vêm, não serão por si só o meio definitivo de suster esta degradação da sociedade portuguesa.

Mas serão certamente uma boa oportunidade de acentuar o descontentamento com as políticas de direita que os portugueses acabam de manifestar nas europeias (bem como em grandiosas manifestações populares), de fazer crescer eleitoralmente as forças com projecto progressista e de elevar o tom das exigências de real conteúdo democrático.

A “SEARA NOVA”, pelo seu lado, continuará firme na defesa da cultura, da democracia e do progresso social..."

O presente número, com artigos que são autêntica pedrada no charco dos valores dominantes, é disso honroso exemplo..."

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De destacar também neste número a notável entrevista com o dr. António Arnaut, sobre a situação do "Serviço Nacional de Saúde", e o artigo de Carlos Carvalhas "Consideração breves sobre a crise e sua evolução", bem como o artigo de José Goulão "Criação do Estado Palestiano está cada vez mais comprometida" e o artigo de Carlos Santos Pereira "O Mundo suspenso do efeito Obama"


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