terça-feira, abril 25, 2017

domingo, abril 23, 2017

Nada é Definitivo...


Escultor de paisagens o tempo. E estes rostos
São agora sulcos a reclamar colheitas
E as mãos arados. E os punhos erguidos
O som das fábricas. Perdidas
Na voragem dos dias
Infecundos.

E no entanto esta torrente. E esta fonte
Que desce em cascata de palavras
Verbo que se faz carne. E ferve
Nos peitos a latejar
Rubros cravos
E bandeiras.

Nada é definitivo quando a rocha
Se abre ao fogo. Nem a memória
É fatuidade de um beijo.
Nem a Revolução um gesto
Inacabado.

Mas sim um poema sinfónico
Passo a passo a arder por dentro
Uma cadência sem idade.

E é este aguilhão e este alvoroço
E o rosto magoado deste Povo
A inscrever um tempo novo
Letra a letra
Liberdade.

25 Abril Sempre!

Manuel Veiga





quinta-feira, abril 20, 2017

Paisagem Íntima ...


Sobre as águas o cisne negro
E o suave marulhar das ondas sobre o lago
Azul a fervilhar sob a brisa
E a indiferença da ave.

Ao longe a tímida garça abrindo
A asa ao sol dolente. E a festiva dança
Do abelharuco de voo em riste.

Príncipe da tarde, prossegue o cisne
E a garça agora esboça o ritmo em redor
E todo o lago arde…

E tudo emudece. Até a adventícia ave
Encolhe a pena. E grasna.

E deste lado da paisagem nada
Acontece. Apenas o poeta e a gota de água
E a longa espera.

E o cântico do cisne em melopeia
Lá ao fundo.

(Paisagem íntima)


Manuel Veiga