segunda-feira, setembro 26, 2016

PELA SEDE SE APRENDE A ÁGUA ...


Há alguns anos a esta parte, surgiram em Lisboa, em algumas estações do Metropolitano espaços de venda, onde os livros se derramam numa espécie de bric-à-brac horizontal, como se um capricho invisível tivesse apeado a imponência majestosa das velhas livrarias e a Biblioteca de Babel fosse, já não a infinita cornucópia labiríntica de que fala Borges, mas antes a rasoira implacável do deus-consumo, que tudo expele e degrada. Até os livros...
 
No entanto, nesses espaços de reciclagem, por entre restos e lixo editorial, descobre-se, por vezes, uma pérola ou outra, que como caçador de tesoiros me gratifica e conforta, breves que sejam os momentos...
 
Na sequência de uma dessas incursões colhi um singelo apontamento do quotidiano, que passo a narrar, um quase-nada, um pequeno detalhe tão denso de significado que, como breve centelha de esperança, ilumina a vida e preserva intacto o futuro. Pelo menos perante meus olhos, nunca cansados de deslumbramento e de surpresa...
 
Ora vejam...
 
Foi uma tarde de Domingo, pelas 16 horas da tarde. O centro comercial regurgitava. Massas humanas atropelavam-se numa moleza de autómatos, nas escadas rolantes e nos espaçosos corredores, espreitando as vitrinas e mastigando a angústia e o vazio. Crianças pela mão, exigentes nas solicitações, que as coloridas promessas, ali à mão, se ofereciam nas lojas e no esplendor dos enfeites...
 
E os pais, sabe-se lá qual com que mágoa: “Não pode ser, não pode ser...” – puxando pelas crianças lacrimosas, num gesto de impaciência mal contida...
 
Rumei, pois, nas minhas deambulações. E, em breves instantes, deparei-me com um desses espaços de venda de livros, onde entrei, não sei bem se para aplacar a angústia da tarde, se arrastado pelo hábito. Tive sorte. Dos escombros em saldo, por entre publicações de erotismo de pacotilha e outras esotéricas com promessas de felicidade futura, veio parar-me às mãos o volume que me faltava da obra de um dos grandes vultos da cultura europeia do século XX.
 
Dei o dinheiro (cinco euros) por bem empregue. E, saboreando a minha descoberta, dirigi-me a caixa. À minha frente, na fila de pagamento, o momentâneo prodígio. Um jovem, com menos de trinta anos, manifestamente de formação académica superior, de ténis gastos e roupa poluída mas de bom gosto, rosto marcado e expressivo, olhar firme e magoado surgiu, perante no meu espírito inquiridor, como um digno exemplo da geração dos € 500 euros, não sei se no desemprego, se aguardando a oportunidade de emigrar.
 
Insisti em olhar, o que manifestamente o incomodou. Mas então a minha curiosidade já se deslocara. O centro agora era a doçura de criança de três ou quatro anos, loira e encaracolada, que segurava pela mão. Falava pelos cotovelos a rapariguinha. E perante o meu mal contido desvelo, a menina estendeu-me um dos livros infantis do monte, que segurava com dificuldade: “O papá compra!...” - esclareceu-me em seu linguajar...
 
Vinte euros! - anotei no registo da máquina. O preço da felicidade de um pai jovem e desempregado. E de uma filhinha linda...
 
“Só pela sede se aprende a água...” – balbuciei intimamente, apaziguado e comovido.

Manuel Veiga

 

Mississippi Blues - The Best Of Mississippi Blues


sexta-feira, setembro 23, 2016

IDADE DA INOCÊNCIA...


Teciam carícias como flores. Sobre a relva, os corpos ébrios de espaço e o rodopio - céu e terra misturavam-se na vertigem. Depois exaustos, caiam e enrolavam-se, em fusão de adolescência e Primavera.
 
Então ele tecia grinaldas de malmequeres e enfeitava-lhe os cabelos, em glorificação pagã de tempos futuros, pois agora de nada sabiam: eram inocente pulsão de vida. Ela ria. O marfim dos dentes, o vermelhão húmido dos lábios, os seios a despontar no estampado da blusa. Ele atrevia-se. Por vezes, ao joelho destapado. E a mão a subir à coxa, tremendo de novidade e emoção.
 
E a voz esquiva, no sorriso: “Está quieto. Aí, não!...”
 
E corriam, de pássaros nos olhos, levantando revoadas...
 
O sol criava reflexos de oiro nos olhos verdes de Joaninha. Queimavam. Ele abrasava no sangue revolto. Ofegante, crescia.

Olhava-a: "Dá-me um beijo!...” – dizia em oração murmurada.
 
Perversa e risonha, Joaninha apontava o rosto. Desiludido e amuado, o rapaz teimava: - “ Tu prometeste. Dá-me um beijo!...”
 
Então Joaninha ergueu-se, majestosa. E com a mão, em concha, a proteger os olhos, alargando o olhar para além do horizonte, sorriu, em arrepio de infinito:
 
“Dou-te um beijo, se me disseres onde fica o mar...”
 
O rapaz, naquela tarde, inventou os oceâneos e as marés...
 
 
Manuel Veiga