terça-feira, fevereiro 21, 2017

Jose Carreras, Je Te Veux

FESTIVO FREIXO e Sua Sombra


Hoje a várzea e sobre o rio o festivo freixo e sua sombra
E o cantar do melro no amarelo doirado do sol em fim de dia
E esta pedra no inamovível tempo em que me sento...

Nem sequer a melancólica aragem, nem o restolhar da memória
Como insecto em flor. Nem o mel silvestre da infância.
Nem o vime. Nem a aurora do sonho. Nem o cântico nas igrejas...

Apenas o alvoroço tardio. E esta pedra absurda no caminho
Como trono. E meus dedos desfiando contas. E o mistério
Inaudito das palavras. E o perfume da dor em cada ausência...

Fenecem grinaldas. Que as cores são apenas nevoeiro
Dos sentidos. Agora o vinho é espessura em bocas de desejo
E o corpo é porto. Ardendo. Como lava em que me extingo.

Manuel Veiga


sábado, fevereiro 18, 2017

O Poema é Pura Forma

Não cabe ao poeta o curso do poema.
O poema é pura forma – sem regra
E sem guarida.

É de outra distância.
É torre que arrebata
E o húmus e a substância
Da palavra que profana. E resgata.
E é o parto que fomenta. E é a gravidez do mundo.
E o gesto inaugural
E o xisto que detona
E o fogo sagrado.
E a ara em que se imola. E a febre.
Verbo sem mácula negando-se
À captura.

O poeta é apenas
Testemunha.


Manuel Veiga