terça-feira, março 28, 2017

QUANDO OS RIOS SECAREM...


 Quando os rios secarem e as tempestades
Forem sopro e bálsamo sobre a gretada pele
E a mácula se erguer em flor de inocência
E os olhos magoados forem poema e bailado
E um sorriso enfeitar as linhas do rosto
Como cinzel de límpidas palavras.

E o silêncio se abrir e a música for
Som de cristal. Dedos em movimento subtil
Na vibração da noite. E todos os enganos forem
Festivo encontro…

Inventarei então todos os nomes e
Deporei a pura essência dos dias advindos
Em que enlaço e colho o deslumbramento
Como dádiva, transgressão e fonte
Em que ardendo me digo.

Manuel Veiga
in "Vibração dos Mostos "  - no Prelo


segunda-feira, março 27, 2017

Que Mil Metáforas-trapaças FLoresçam...


Que mil metáforas-trapaças floresçam. E brilhem.
E desçam. E de pétalas abertas
Abismem as cabeças.
E se celebrem, anafadinhas,
Em esmeros
De artesão.

E se ergam – as metáforas-trapaças. Às resmas!
E na euforia dos versos
Chovam. E lutem contra
O destino. Como o Fado!

Que de metáforas-trapaças - eu vou ali e já venho!
Em verdade vos digo que afinal
Não tenho nada contra elas.
Mas não as engulo. Não sou capaz, não!
Até faço jejum e de canela as polvilho
Para as poder tolerar.

É este o meu azar. Não as consigo tragar
Não as metáforas. Que aguentam tudo
( Até eu lanço mão delas - coitadas! )
Mas tão-somente aquelas
Que não passam de trapaças.

E vos garanto não ser cisma minha
Ou teima. É uma espécie de azia
E um transtorno geral
Pior que óleo de ricínio
Em cólica intestinal.

Enfim, passo um calvário.
Eu bem as cuido “coisinha linda”, piu … piu…
Das metáforas-trapaças – está claro!

Mas é este meu fadário
Não tenho jeito nenhum
Para as hipnotizar, coitadinhas!
Ou ser cocorocó de aviário!


Confesso mais - não ter paciência
Para feitos de tal tamanho.
Deixo-as, pois, para quem delas faz bom uso
O cego olho de Camões
E a monumental porra do Soriano.

Manuel Veiga


sexta-feira, março 24, 2017

Sobre a Actualidade do Filme “O Mundo a Seus Pés”


No filme de Orson Welles, O Mundo a seus pés” (Citizen Kane), o protagonista, magnata da imprensa, numa cena célebre, afirma categórico que os “leitores dos seus jornais pensam aquilo que ele decide que pensem”. O filme é de 1941, data anterior, portanto, à plena afirmação da televisão, a partir da década de cinquenta do século passado e, mais distante ainda, da divulgação da internet com toda a parafernália de meios de comunicação que as novas tecnologias permitem.

O filme, bem se sabe, é uma obra-prima. A frase, no entanto, assume uma importância simbólica que extravasa a dimensão de obra arte reconhecida e laureada. Na realidade, “decidir o que os outros pensam” constitui a mais absoluta afirmação de poder e a denegação mais radical dos fundamentos históricos da autodeterminação do individuo, que nos chega da civilização greco-romana e que, na idade moderna, se expressa na proclamação dos Direitos do Homem.

Era assim, portanto, em 1941. A imprensa, enfim, o meio de comunicação social na época dominante, almejava estabelecer o que os leitores (os cidadãos em geral) “deveriam pensar”; isto é, a visão do mundo era mediada e moldada pela lente multifacetada dos magnatas da imprensa. Naturalmente que os interesses da “imprensa livre”, então em efervescência, se articulava com os interesses pessoais, económicos e políticos de todos os “citizens kanes” desta vida, presentes, passados e futuros.

De facto, desde sempre os poderosos souberam quanto é perigoso o exercício da força e da violência físicas (sempre os escravos se revoltaram) e cedo compreenderam que mais eficaz que a coerção física seria domar o espírito e conquistar “livre” adesão dos indivíduos aos desígnios da dominação.

Essa, portanto, a função da ideologia e o papel dos aparelhos ideológicos, que a segregam e difundem, como que “oleando” os mecanismos de articulação e funcionamento da(s) sociedade(s) e do Estado de que, nos tempos modernos, a imprensa e a comunicação social constituem o paradigma, mas que estão longe de esgotarem os instrumentos de produção e difusão do poder ideológico.

Que poder é esse? O que é a ideologia e qual o seu papel? Que função para os chamados aparelhos ideológicos?
(...)
A especificidade da questão é que o poder mediático se realiza numa espécie de “submissão voluntária”. A interiorização subjectiva dos modelos e comportamentos sociais e, sobretudo, a interiorização do “olhar do outro”, que o poder mediático exponencia, transforma cada indivíduo no seu próprio vigilante.

O temor interiorizado “do que os outros vão pensar” (por não se frequentar tal o tal meio, conhecer a vida de tal celebridade, usar tal marca de vestuário, etc. etc.) constitui motivo de submissão voluntária à ordem estabelecida e ao consenso social, ou seja, constitui um poderoso e subtil elemento de sustentação (pela inércia) do sistema de poder.

Como romper o cerco?
(…)
Importará ter presente que, se é verdade que somos produto da sociedade, também somos nós, cidadãos, os produtores da sociedade que almejamos. Não somos meras marionetas de um jogo de forças, nem meros expectadores dos embates dos diversos poderes. Cada um de nós é co-autor da trama em que os poderes se tecem. E, portanto, o nosso silêncio e passividade, ou a nossa acção decidida irão contribuir para manter ou alterar o estado das coisas.

Afinal, onde “há poder há resistência”. E toda a resistência cria por si novas “formas do poder-saber”.

Quer dizer, os fundamentos de uma vida-outra.



Manuel Veiga 

SEARA NOVA nº 1725
Outubro 2016