sexta-feira, janeiro 20, 2017

ÁGUAS BRAVIAS ...


Abre-se a paisagem ao horizonte
Em delírio de olhos desmedidos. Atmosferas recidivas
Como se foram ainda açucenas colhidas
E o regaço. E o joelho incauto desguarnecido.
E tu viesses com a leveza de águas
Em mandil de coado tempo.
Chuva miudinha
A regar emoções e desalinhar
A orla dos sentidos.

Ergo-me declinando o nome. Caminheiro que sou
Das devoções pagãs que me visitam,
Tão faceiras, que nelas me reinvento
Em néscio alvoroço.

E em ti caminho
Música que invento no declive de teu corpo
E ecos recolhidos. Toada de abismos
Em coleante rumo dos passos
E profundos rios.

Águas bravias
Em cascata de enredos
E mistérios.

Manuel Veiga


terça-feira, janeiro 17, 2017

O Discurso Sem Rosto...


Como se sabe, mais não seja que por saber de experiência feito, o rosto é o “espelho da alma”. O que significa que a história do rosto humano é a história do controle da expressão, das normas religiosas e éticas, sociais e políticas que, a partir do Renascimento e dos alvores do capitalismo, contribuíram para o surgimento de um certo tipo de comportamento social, sentimental e psicológico, baseado no afastamento dos “excessos” e no “silenciamento” dos corpos. E no recalcamento das paixões.

Estes constrangimentos físicos e morais, determinaram o aparecimento de um certo tipo de “persona”, que os autores designam por “homem sem rosto”, caracterizado por uma expressividade medida, reservada, prudente, circunspecta e calculada, por vezes, reticente ou mesmo silenciosa. Por exemplo, o uso de barbas servia  (serve), sobretudo, para esconder o rosto e as emoções que sobem ao rosto.

Assim, importa assinalar que a expressão do corpo e da face condensa sempre a interiorização por parte dos indivíduos das tensões, constrangimentos e dependências sociais, que modificam e deformam as sensibilidades humanas, mais íntimas e complexas.

É verdade que o desenvolvimento das sociedades modernas e a generalização dos cuidados de higiene, da institucionalização dos sistemas de saúde e de educação, da multiplicação das migrações e do aumento do bem-estar em geral, tem vindo a contribuir para homogeneizar os tipos físicos e a esbater lentamente, nas classes médias urbanas, as origens sociais de seus rostos e as marcas de seus misteres e trabalhos.

Pode dizer-se que, com o aparecimento das sociedades de massas, a identidade tende a apagar-se em cada individuo – os rostos tornam-se anónimos. Mas nem por isso “a arte de conhecer o carácter humano pelas feições do rosto” perdeu actualidade. A psiquiatria e a criminologia, sabem-no bem.

Bem desejaria eu poder dominar as subtilezas dessa nobre arte “conhecer o carácter humano pelas feições do rosto”, já que a Palavra é, tantas vezes, mera cortina de fumo, sobretudo, quando, como na net (e não apenas nos blogs) se trata de um “discurso sem rosto”

Manuel Veiga